Publicado por: João Carlos Assumpção | 2/março/2009

A vítima (quase) esquecida

Sou um dos adeptos da psicologia no futebol, apesar de ainda haver muito preconceito em relação a ela no meio esportivo – e também fora dele.

Psicólogo não ganha jogo, mas que ajuda o jogador, ajuda. Ou pelo menos pode ajudar. Auxilia-o na organização da carreira e de sua vida pessoal, na interação com o restante do grupo, a enfrentar momentos de muita cobrança, muito complicados, momentos onde tudo está correndo bem… Enfim, um profissional da área de psicologia esportiva todo bom clube de futebol deveria ter.

Muitos técnicos acreditam que eles próprios são os psicólogos de seus jogadores. Não é verdade. Muitos deles, aliás, precisariam de um psicólogo para ajudá-los, pois pensam que são rei e não são.

Quem mostrou uma boa visão a respeito do assunto foi Muricy Ramalho, que elogiou muito o trabalho de Regina Brandão, excelente profissional e que auxiliou demais Luiz Felipe Scolari na Copa de 2002 e trabalhou para diversos clubes. Muricy sabe que o técnico não é o psicólogo. Pode até tentar fazer o papel de, mas geralmente não tem sucesso. Sua função é dirigir o time em campo.

O Botafogo também conta com uma profissional do ramo, que atua principalmente nas categorias de base. Ela pode ajudar os jogadores a se prepararem para um novo mundo, onde a cobrança é grande, a fama pode ser efêmera e traiçoeira, a competição é demasiadamente acirrada e a carreira é curta.

Mesmo o que fazer depois da fama, depois do final da carreira de jogador é um assunto delicado. E o atleta, muitas vezes vindo do nada e ganhando tudo de um momento para outro, tem que estar preparado para o futuro. Porque o futuro chega. Ou, o que pode ser ainda pior, não.

Que o diga Jorge Mendonça, por exemplo, um dos grandes jogadores da história do Palmeiras, que chegou à seleção, inclusive, e morreu na miséria.

Que o diga Dinorah de Assis, lá no começo do século passado, um dos maiores ídolos do início da história do Botafogo, o time da Estrela Solitária. É a vítima esquecida de uma tragédia que será recordada várias vezes durante este ano, 2009, o ano do centenário da morte de Euclides da Cunha, um dos maiores escritores brasileiros, autor de “Os Sertões”.

Em 15 de agosto de 1909, Euclides da Cunha tentou matar Dilermando de Assis, amante de sua mulher, Anna, no que acabou virando uma das grandes tragédias passionais da história do Brasil. No embate, que teria sequência anos depois, quando um dos filhos de Euclides tentou se vingar da morte do pai e também se deu mal, o escritor acabou morrendo.

Mas a tragédia, entre várias vítimas, acabou atingindo Dinorah Cândido de Assis, o irmão de Dilermando. Atingido na briga entre Euclides e Dilermando, o craque do Botafogo do Rio, campeão em 1907, ficou hemiplégico. Não pôde mais praticar futebol, deixou a carreira militar de lado também, entrou em profunda depressão, começou a beber para tentar esquecer de seus problemas e… Dinorah cometeu suicídio, atirando-se no rio Guaíba, em Porto Alegre, em 1921.

Foi enterrado em São Paulo, onde Dilermando, anos mais tarde, também seria sepultado, no Cemitério Irmandade do Santíssimo Sacramento da Catedral de São Paulo. Curiosamente, o túmulo dele é quase vizinho ao túmulo onde foram enterrados meu bisavô (Antonio Carlos de Assumpção) e minha bisavó (Julieta de Souza Queiroz de Assumpção), que foram prefeito e primeira-dama de SP nos anos 30.

Pensando no caso de Dinorah e de tantos outros que, afundados na dor, na angústia e no desespero, optam por se matar, é que acho que a psicologia pode ajudar e muito, inclusive quem pratica futebol, como Dinorah praticava – e muitíssimo bem. Pois o mundo do futebol é muito maluco. A pressão é extremamente grande, o dinheiro pode ser muito ou muito pouco, a fama é passageira e a cobrança da torcida e da sociedade é enorme. Sem falar na invasão de privacidade, que acho um absurdo. Haja cabeça para suportar tudo isso…

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Responses

  1. Acredito na psicologia , ela é muito importante num dia a dia de um jogador ou qualquer pessoa despreparada para a fama. O problema é que os técnicos se tornarem estrelas demais,não aceita opiniões alheias, chegou-se ao ponto de ser citados como as melhores contratações de um clube. Esse estrelismo leva a perolas do próprio Muricy dizendo que isso tudo é frescura. Ele mesmo é avesso a preleções motivacionais.

  2. João, belo texto. Acredito que, pelo lado do estudo do marketing, não há como estudar as relações de consumo sem o aporte de ciências como a psicologia social além da própria sociologia.

    No esporte, além de tratar e preprar o atleta, há pelo lado do consumo a preocupação com os aspectos psicográficos, também variável de segmentação, que compelem a pessoa a consumir o produto esporte.

    Abraços,

    Robert

  3. Ricardo, você está enganado. O Muricy deu uma entrevista para a revista Os Brasileiros e disse que é a favor da psicologia esportiva, não acha besteira como você está dizendo.

  4. Sou estudante de psicologia e gostei muito do texto e da história do Dinorah. Confesso que sabia da tragédia do Euclides da Cunha, mas não sabia que o irmão do Dilermando tinha se matado e muito menos que fosse jogador de futebol.

  5. Vou aproveitar o comentário da Gabi, que é estudante de psicologia, para dar meu pitaco. Sou psicóloga formada e minha área de atuação é a empresarial (consultoria) e a acadêmica. O texto do João, como escreveu o professor Robert, é belíssimo. Primeiro porque usa um exemplo prático, uma grande tragédia passional da história do Brasil, para ilustrar a importância da psicologia na vida de todos nós. Segundo porque aponta pontos em que o profissional pode atuar. Em grandes empresas, com executivos muitas vezes vindos de famílias ricas e com acesso à ótima educação, a pressão chega a matar. Literal ou metaforicamente falando. No futebol é pior, porque o jogador muitas vezes nem acesso à educação teve. Um psicólogo pode ajudar nessa parte também, a lhe dar sustentação. Ou alguém acha que é fácil ser vaiado por 30 mil torcedores e depois ter que dar entrevista para não sei quantos jornalistas? Estamos falando de muita gente que vem da periferia, pega duas, três ou quatro conduções para trabalhar, ganha o mínimo e olhe lá e pode ser alçado à condição de ídolo de um momento para outro. O assunto rende, parabéns pelo blog e pela decisão de abordar a psicologia esportiva, Anna Maria.

  6. Rafael Augusto

    Me desculpe, eu só reproduzi o que ele sempre disse nas coletivas, que jogador não precisa de motivação, que receber salários em dia já basta para estarem motivados, suas preleções são extremamente técnicas.

  7. João,

    Parabéns pelo post. Parabéns pelo Blog.

    eu procurei muito um Blog assim, pois queria criar o meu, mas queria saber quantas pessoas no Brasil estão focadas e orientadas a tentar desenvolver o futebol brasilieiro para que ele deixe esse patamar amador e torne-se uma industria realmente profissional.

    Com certeza o uso de outras disciplinas como a psicologia dentro do mundo do futebol profissional, passa a ser algo fundamental e quase que “obrigatório”.

    Tenho muitas idéias e parece que agora encontrei alguém com quem poderei compartilhar!

    Parabéns,

    Abraços,

    Rodrigo Gibin

  8. Muito obrigado a todos vocês, especialmente pelas palavras do Robert, da Anna e do Rodrigo. Mas a ideia do blog, apenas para esclarecer, não foi minha. Foi do Marcos Silveira, certo? Eu estou apenas colaborando e escreva, Rodrigo, sempre que quiser. Abração a todos vocês, João Carlos

  9. Até 1987, praticamente ninguém mais falava de Dinorah, ficando mesmo como a vítima esquecida de Euclides da Cunha. Mas como gosto de futebol, ao escrever o livro Anna de Assis – história de um trágico amor, baseado em depoimento de Judith Ribeiro de Assis, filha de Anna e Dilermando, fui pesquisar a vida do jogador de futebol Dinorah de Assis, descobrindo, em jornais lidos na Biblioteca Nacional, que ele havia jogado uma semana depois de baleado. Fiz do fato um destaque do livro e hoje podemos ver Dinorah como um dos grandes nomes da história do Botafogo. Ele merece. E Euclides da Cunha, agora, ao centenário de sua morte, fica com aquilo com o qual eu o acusei: foi um assassino. O escritor é uma coisa, o homem, outra.

  10. Euclides da Cunha foi um assassino que se deu mal, apesar de escrever um livro famoso, uma obra-prima. Dilermando Cândido de Assis foi um vilão. Por sua vez, Dinorah de Assis, que não tinha nada a ver com as aventuras escandalosas do irmão, foi a vítima! Justiça neste mundo? É impossível!


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