Este texto é parte de um estudo bem mais amplo que fiz e considero que é uma das pesquisas que um departamento de marketing que, no mínimo saiba do que marketing se trata, deveria ter feito ou pensado em fazer; fica a contribuição, talvez não exatamente nos números, embora eles sejam de boas fontes, mas do método.
O brasileiro, em linhas gerais, nutre um grande interesse pelo futebol, por motivos pelos quais já se discorreu, o futebol faz parte da identidade do povo brasileiro sendo, reconhecida, como uma de nossas principais marcas no exterior quando se fala do Brasil. Isso se traduz em um grande contingente de pessoas no Brasil que praticam e acompanham o esporte, trar-se-ão dados apenas e tão somente o do acompanhamento do esporte por meio de dados da pesquisa IPSOS/Marplan-SporTV, feita em 2006.
Tal pesquisa entrevistou 2.334 pessoas em todo o Brasil sobre os hábitos de torcer e acompanhar o esporte em seus cortes mais significativos. Em um primeiro corte se perguntou sobre o hábito de acompanhar o esporte com os seguintes resultados:

Figura 11 : Perfil de Acompanhamento do Esporte – Fonte : Dossiê Esporte – IPSOS/Marplan-SporTV (2006)
Nota-se que aproximados 58% dos entrevistados demonstram grande interesse em acompanhar o esporte com freqüência. O próximo corte da pesquisa versou sobre qual o esporte acompanhado, o futebol é o esporte preferido, no acompanhamento pela mídia, conforme vemos no gráfico abaixo. Vale lembrar que havia a possibilidade do entrevistado optar por mais de um esporte, fazendo com que a soma seja maior que 100%.

Figura 12 : Preferência de Esportes para acompanhar – Fonte : Dossiê Esporte – IPSOS/Marplan-SporTV (2006)
O futebol é realmente um fenômeno de mídia. Dados da TV Globo nos dão um emblemático exemplo que se deu em Março de 2007; na mesma semana tivemos uma partida do campeonato Paulista de Futebol entre o Guaratinguetá e o AD São Caetano e a final da liga nacional de vôlei feminino. Nenhum dos clubes de futebol acima citados figura entre as maiores torcidas do Brasil, mesmo assim, tal partida gerou quatorze pontos de audiência, em TV paga, durante o meio da semana; enquanto isso, a final da liga de vôlei, onde estavam reunidas, entre as duas equipes metade da seleção brasileira vice-campeã mundial, rendeu nove pontos de audiência.
Outro corte importante no acompanhamento do esporte diz respeito à faixa etária, o acompanhamento naturalmente cresce quando o consumidor tem mais tempo livre à disposição, na fase do que se poderia chamar de mais produtiva ou de construção de patrimônio e de família, o envolvimento cai, o que pode ser um fenômeno perverso, pois é justamente nesta fase em que na maioria dos casos as pessoas apresentam maiores rendimentos, apesar de seus compromissos.
O jornalista Nelson Rodrigues costumava dizer que a Seleção Brasileira “é a pátria de chuteiras”, a antropóloga Simoni Lahud Gomes o futebol realmente representa a idéia de nação no nosso país: “Nação é uma representação, não é uma coisa concreta. Não se é brasileiro o tempo todo, você é brasileiro, sobretudo em contraste com um estrangeiro. Quando você está no exterior, você é sempre brasileiro. Nos times e na seleção brasileira projetamos as questões prementes da sociedade. O futebol é para nós quase uma terapia, como se através dele estivéssemos explicando para nós mesmos os nossos comportamentos, aprendendo quem somos”.
O resultado disto, na prática, é que quase todos os brasileiros dizem ser torcedores de um time de futebol conforme a representação gráfica a seguir:

Figura 13 : Totais relativos : Torcedores e Não Torcedores – Fonte : Dossiê Esporte – IPSOS/Marplan-SporTV (2006)
Como vemos, a maioria esmagadora diz ter algum sentimento em relação a um time de futebol. Entre os homens, a proporção de torcedores salta para 90% contra 10% de não torcedores. Entre as mulheres, a proporção das que se declaram torcedoras é de 74%, sendo que as demais não se declaram torcedoras totalizando 26%.
Em um corte por classe social, veremos que, até surpreendentemente, a classe “C” é a que apresenta maior grau de “abstenção” (20%) não se declarando torcedor de time algum e a menor “abstenção” se encontra na classe “A” (16%), nota-se, no entanto, que a distância é pequena conforme podemos ver na representação gráfica abaixo:

Figura 14 : Torcer ou não torcer por Classe Social – Fonte : Dossiê Esporte – IPSOS/Marplan-SporTV (2006).
O próximo dado apresentado, talvez seja um dos mais importantes e emblemáticos para o entendimento dos problemas enfrentados pelo futebol brasileiro, vimos nos cortes da pesquisa anteriores, que o futebol predomina nos corações e mentes da população brasileira independentemente de classe social, no entanto, o número de pessoas que declararam freqüentar os estádios brasileiros não é dos mais animadores.
Em média, 13% dos brasileiros mantêm inalterada a freqüência a estádios de futebol, enquanto 11% diminuíram e 2% têm ido até mais (dos 11% que diminuíram 7% culpam a violência e a insegurança dentro e fora dos estádios). E 54% dos brasileiros não freqüentam estádios. Na tabela a seguir, os porcentuais totais e por classe social. A maior queda é na classe A:

Figura 15 : Evolução da a estádios por classe social e por gênero. – Fonte : Dossiê Esporte – IPSOS/Marplan-SporTV (2006)
Além da razão citada do porque não ir aos estádios ser preocupante, em todas as classes sociais pesquisadas existe um grande contingente de torcedores que simplesmente não freqüenta estádios. Desta forma, a massa de torcedores que dizem acompanhar o futebol estaria assim distribuída no modelo da escada rolante de Mullin:

Figura 16 : Modelo da Escada Rolante de Mullin – Cenário Brasileiro – Adaptado de Mullin (2002).
Desta pesquisa e análise feita, vemos a resposta à terceira questão problema proposta nesta dissertação. Assume-se, para responder à questão problema, que o acompanhamento ao vivo das partidas de futebol nos estádios representa o mais alto grau de adesão ao produto em questão e que são estes os consumidores, que por estarem mais próximos e mais aderentes, são os que mais consomem, além do acompanhar ao vivo, a maior parte dos produtos licenciados oferecidos pelo clube sendo os que geram maiores receitas. Desta forma, podemos afirmar que o futebol brasileiro ocupa aproximados 25% de seu mercado potencial, sendo que apenas 13% seriam, de fato, usuários intensos.
Muitos dos entrevistados, como vimos acima, atribuíram à violência real e percebida nos estádios e seu entorno o desistir de acompanhar os jogos de seu time ao vivo. Carlos Eduardo Caruso, diretor da Agência Esportiva Golden Goal, reconhece que a queda de público nos estádios brasileiros se deve em parte à violência, sobretudo a partir dos anos 90, uma evidência que corrobora esse pensamento é a de que as partidas entre clubes maiores de mesma cidade onde se pressupõe maior rivalidade e maiores tensões foram as que mais perderam público.
Caruso também atribui a queda de público do campeonato brasileiro ao êxodo de jogadores para atuar em clubes do exterior. Na década de 70, os jogadores da Seleção Brasileira atuavam no Brasil. A partir dos anos 80, alguns haviam se transferido, mas era um movimento mais isolado e os jogadores migravam em idade mais avançada, já ídolos em seus clubes no Brasil. E, hoje, da Seleção Brasileira titular na Copa do Mundo de 2006, nenhum jogador atuava no país. A importância do ídolo se faz notar, também na pesquisa Dossiê Esporte IPSOS-SporTV, 59% dos entrevistados dizem nutrir um sentimento especial pelos seus ídolos, a explicação para tal vem das mais diversas e subjetivas formas. Os entrevistados atribuem grande influência dos ídolos do esporte sobre a opinião pública, por estimular a prática esportiva e os exercícios físicos, e ajudar a movimentar a indústria relacionada ao esporte. Essa influência é descrita porcentualmente da seguinte maneira:
* O ídolo é um exemplo a ser seguido – 49% dos ouvidos acreditam no poder de sugestão dos ídolos, capazes de influenciarem positivamente adolescentes e crianças.
• Ele é um estímulo à prática – 16% consideram os campeões fonte de inspiração para a prática esportiva. Algumas meninas disseram que passaram a fazer ginástica olímpica depois de ver o sucesso de Daiane dos Santos.
• Torna-se foco da torcida – 11% afirmam que o processo de identificação com o ídolo o torna referência para o esporte que pratica e suscita o desejo de acompanhá-lo na superação de dificuldades.
• Gera interesse pelo esporte – 11% dizem que o ídolo faz aumentar a audiência do esporte. A habilidade do ídolo garante o espetáculo.
O preço dos ingressos também parece ter alguma influência conforme o estudo da Golden Goal, O preço médio do bilhete na década de 70 era de R$ 4. Isso foi mantido por toda a década. A partir do momento em que nós começamos a ter um movimento inflacionário, a cada troca de moeda, o preço real do ingresso subia. E hoje a média é de R$ 11. Obviamente existe uma variação de clube para clube, região para região, mas essa é uma média geral. Se observarmos a média de público do Campeonato Brasileiro de Futebol, em sua primeira divisão, desde sua primeira edição, observaremos que, dentro do universo de suas edições, de 1971 até 2006, a flutuação é muito grande com edições com grande sucesso de público e edições completamente fracassadas.
Várias hipóteses, ao longo da pesquisa, foram testadas para tentar encontrar a causa para tamanha flutuação. As hipóteses passaram por itens referentes à qualidade técnica da competição, Dentre as várias, mais de trinta, hipóteses testadas para encontrar as causas para tal.
Primeiramente, vejamos a tabela com as médias de público de todas as edições, até 2006, do Campeonato Brasileiro da primeira divisão.

Figura 17 : Média de Público do Campeonato Brasileiro 1971 a 2006 – Fonte: www.bolanaarea.com.br e www.cbfnews.com.br.
Observa-se uma grande flutuação, como se pode ver na adesão de público e no interesse pelo campeonato brasileiro, no entanto se observa tendência de queda ao longo dos anos. A primeira questão surge é tentar encontrar o ponto comum entre os campeonatos de maior média de público e pontos comuns entre os campeonatos de menor adesão. As variáveis são inúmeras, o campeonato sofreu diversas alterações ao longo de suas edições em aspectos como a quantidade de clubes participantes, fórmulas de disputa, períodos em que foram disputados dentre outras características. Como exemplo, o campeonato de 1979 chegou a ter noventa e quatro participantes, escolhidos por critérios políticos no âmbito do esporte e da política nacional, outro exemplo é o campeonato de 1987 disputado apenas pelos maiores clubes, que formaram o Clube dos Treze quando do racha com a CBF, órgão administrador do futebol brasileiro.
Primeiramente se levantou quais os clubes de maior torcida no Brasil. Os dados seguem:

Tabela 7 : Clubes Brasileiros de Maior Torcida – Fonte: IBOPE-LANCENET 2004
Assume-se que quanto maior for a torcida, apesar de sua dispersão geográfica, maior é a capacidade de levar torcedores ao estádio gerando receita direta.
Dessa dispersão toda se observa, em uma análise de cluster, a seguinte distribuição entre as diversas edições da competição:

Figura 18 : Análise de Cluster Hierárquico – Médias de Público do Campeonato Brasileiro – Organização Própria.
Os campeonatos que obtiveram maior média de público são aqueles em que na maior parte da amostra, tiveram como Campeão o Clube de Regatas Flamengo como em 1982 e 1983, historicamente o clube com o maior número de torcedores no Brasil. A edição de 1971 teve como fator de adesão do público o fato de ser a primeira edição e o Brasil estar em pleno milagre econômico além de ter como campeão o Clube Atlético Mineiro, clube muito popular; o salário mínimo estava em torno de valores atuais, em R$ 317,00 (IBGE) e o índice GINI se encontrava em um patamar aceitável para a condição do Brasil da época, também conta o fato do S.C.Corinthians ter chegado entre os quatro primeiros, sem dúvida, o desempenho dos clubes de maior torcida explica o sucesso de público da competição, mas está longe de ser o único fator. O desempenho da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1970 trouxe o futebol à pauta, lembremo-nos que simplesmente todos os tricampeões mundiais jogavam em clubes brasileiros a aquela época.
Na outra ponta da análise estão os campeonatos com menor média de público, a análise hierárquica utilizada gerou uma amostra grande para encontrar causas comuns devidamente convincentes, no entanto, algumas hipóteses podem surgir analisando-se o ambiente daqueles campeonatos. Analisando-se dados do IBGE, em alguns dos anos estudados verifica-se que nestes períodos verificou-se achatamento salarial, grande inflação e perda de poder aquisitivo por parte da população. Podemos citar como exemplo o ano de 1974 com o final do que se denominou como o milagre brasileiro aliado à crise do petróleo, a explosão inflacionária de 1993 dentre outras incertezas econômicas e políticas que coincidem com as baixas de público, o que faz com que se conclua que tais fatores, ligados à política e economia devam ser levados em consideração além dos aspectos esportivos Dentre os fatores esportivos, apesar do S.C. Corinthians ter conquistado seu primeiro título nacional em 1990, assim como o S.C. Internacional de Porto Alegre-RS ter sido campeão em 1979, campeonato com noventa e quatro equipes e dono de uma das piores médias de público da história, os fatores econômicos e políticos, além do desempenho apenas razoável da Seleção Brasileira nos mundiais adjacentes, prevaleceram. Conforme análise de Caruso (2006), da Golden Goal, a partir dos anos 90 a violência nos estádios e em seu entorno aumentou significativamente de forma real e percebida, o que fez com que muitos torcedores deixassem de acompanhar seus clubes presencialmente.
Os fatores são muitos, afinal, se trata de uma amostra de trinta e seis temporadas em décadas de profundas transformações sociais, políticas e econômicas no Brasil e, certamente, o período em que o ramo de atividade futebol profissional, em todo o mundo, sofreu maiores transformações. A análise hierárquica demonstrada acima mostrou a necessidade de partir para a próxima etapa da análise estatística separando a amostra de trinta e seis temporadas em duas fases, a primeira de 1971 a 1989 e a segunda de 1990 até 2006; razões para tal não faltam e se baseiam principalmente em três grandes transformações que o ambiente de negócios sofreu. A primeira é o advento, de forma mais freqüente da transmissão dos jogos pela TV aberta, a segunda é o incremento do êxodo dos ídolos do futebol brasileiro para exercerem sua atividade fora do Brasil, predominantemente na Europa, deixando os campeonatos locais carentes de ídolos enquanto que a terceira se refere à percebida deterioração dos estádios e suas condições do entorno. Como muitos dos grandes palcos são públicos observou-se notadamente a diminuição de suas verbas de conservação.
Na busca de razões mais concretas para a flutuação de público e com os indícios advindos da análise de cluster hierárquica feita, partiu-se para o estudo de uma outra hipótese que correlaciona o público total das edições dos campeonatos brasileiros de 1971 a 2006 com o desempenho dos clubes de maior torcida, a análise inicial mostrou que as edições com maior sucesso de público eram aquelas nas quais o CR Flamengo teve desempenho excelente, algumas vezes (1982,1983 e 1987) terminando, inclusive, a competição em primeiro lugar. A ferramenta escolhida foi o estudo da correlação de diversos fatores.
Conforme explicado anteriormente, decidiu-se dividir a amostra em dois universos em separado para poder realizar a análise sem que as mudanças, acima citadas, interferissem no resultado. As variáveis escolhidas são: o salário mínimo, o índice GINI como fatores socioeconômicos e um fator, que qualifica o campeonato daquele ano, criado pela soma da pontuação dos clubes de cinco maior torcida do Brasil. Quanto melhor o desempenho dos clubes de maior torcida, maior tende a ser o sucesso de público do campeonato. Porém, este fator sozinho não nos dá uma suficiente correlação, afinal, em períodos de bom desempenho dos clubes de maior torcida, vivemos inúmeras trocas de moeda, crises econômicas e retomadas do crescimento e incontáveis fórmulas de disputa da competição. Desta forma, foram eleitos três grandes fatores para se aferir as razões que levam público aos estádios brasileiros.
O cálculo da correlação se dá por meio do seguinte conjunto de equações:
Grau de correlação do Público total com o desempenho dos cinco clubes de maior torcida:
Y = β.α1
Grau de correlação do Público total com o desempenho dos cinco clubes de maior torcida somado a fatores socioeconômicos:
Y = β.α1 + β.α2
Grau de correlação do Público total com o desempenho dos cinco clubes de maior torcida somado a fatores socioeconômicos e ao fator de qualidade do campeonato:
Y = β.α1 + β.α2 + β.α3
Onde,
Y = Grau de correlação
β = Público Total do Campeonato.
α1= Fator de Desempenho dos clubes de cinco maior torcida.
α2= Fator socioeconômico = Salário Mínimo x Índice GINI
α3= Indicador de qualidade do campeonato = Média de gols/quantidade de participantes.
De 1971 a 1989, temos a seguinte composição gráfica do desempenho dos cinco maiores clubes versus a variação de público.

Figura 19 : Representação Gráfica de Média de Público do Campeonato Brasileiro X Desempenho dos cinco maiores clubes mais Indicadores Sócio-econômicos – 1971-1989 – Organização Própria. Fontes : www.cbfnews.com.br, IBGE.
Em uma análise de correlação, o desempenho esportivo dos cinco clubes de maior torcida na competição, aliado os fatores sócio-econômicos e qualidade técnica da competição onde se leva em consideração a média de gols da competição e o número de clubes participantes nos leva a uma correlação positiva de 77%. Cabe a pergunta de qual destes fatores tem maior relevância na composição desta correlação positiva.
O simples desempenho esportivo dos cinco maiores clubes corresponde a 62% da correlação, o que é insuficiente para demonstrar, por ele só, que o sucesso de público do campeonato venha apenas deste fator. Os fatores socioeconômicos também têm participação grande, vindo com 23%; estes dois itens compostos já seriam suficientes para que a correlação fosse positiva, no entanto, como vimos na análise de cluster, os campeonatos que tiveram piores médias de público foram aqueles que tinham uma característica adicional referentes à fórmula de disputa ou à quantidade de clubes participantes. Estes dois itens têm importância pelo fato de que para um número de participantes elevado se faz necessário incluir uma série de clubes menores, sem expressão esportiva suficiente para gerar confrontos interessantes o que reduz o interesse na competição, a contribuição da qualidade esportiva com o binômio média de gols e clubes participantes, este como divisor na equação, é responsável por 15% da correlação.
Conclui-se desta forma que o sucesso do campeonato, neste período, está intimamente ligado a dois fatores esportivos que são a necessidade dos clubes de maior torcida ter um desempenho satisfatório na competição participando em um grande número de jogos, alguns deles decisivos e de grande interesse e o interesse que o campeonato desperta gerando confrontos interessantes, entre clubes que tenham rivalidades estabelecidas com a promessa de um jogo de qualidade, os intentos de popular com enormes quantidades de clubes menores o campeonato brasileiro gerou verdadeiros fracassos de bilheteria no período de 1971 a 1989, período este que podemos chamar de “pré TV”.

Tabela 8 : Dados do Campeonato Brasileiro e Dados socioeconômicos – 1971-1989. Fontes : www.cbfnews.com.br, IBGE.
O período 1990-2006 é marcado por inúmeras transformações no ambiente de negócios do futebol brasileiro, é a era da televisão e suas receitas, é senso comum que a transmissão do jogo pela televisão para a praça onde este está sendo realizado erode a presença de público no estádio, tanto que, até hoje, em televisão aberta, salvo em raras exceções é que o sinal é “liberado” para a praça local do encontro. Este período marca também o incremento da venda de atestados liberatórios de atletas para clubes do exterior, e isso vem se dando com atletas cada vez mais jovens, com isso, se gera a já descrita carência de ídolos no esporte, grandes motivadores do acompanhar um clube e uma competição.
Este é o período em que também se presenciou a escalada da violência nos estádios e a deterioração dos mesmos, de 1990 até 2006, a perda de público gira em torno de três mil pessoas em média por partida e continua em queda ainda que com alguns repiques para cima muito comemorados pelos clubes e pela imprensa, mas que se deve às promoções e descontos que muitas vezes fazem com que o evento em si se torne deficitário ou com margens muito reduzidas.

Figura 20: Representação Gráfica de Média de Público do Campeonato Brasileiro X Desempenho dos cinco maiores clubes mais Indicadores Sócio-econômicos – 1990-2006 – Organização Própria. Fontes : www.cbfnews.com.br, IBGE.
A mesma correlação aplicada no período 1971-1989 é aplicada neste período e a importância do desempenho dos cinco maiores clubes assumiu uma importância muito maior no período 1990-2006. Vale lembrar que neste período houve uma normalização nas formas de disputa com menos experiências assim como no número de clubes, mínimo de vinte e máximo de trinta e dois em 1993, exatamente um campeonato com uma das piores médias históricas. Também se tem na maioria deste período uma estabilidade econômica, ressalve-se mesmo assim que houve uma perda no poder de compra da população que nos últimos anos vem se recuperando. A correlação dos fatores aplicados ao público total do campeonato atingiu 91%; o desempenho dos cinco maiores clubes é responsável por 80% desta correlação, os fatores socioeconômicos respondem por 15% e apenas 5% são referentes ao grau de interesse despertado pela competição; é importante ressaltar que de 2003 em diante, a fórmula de disputa denominada “pontos corridos” foi adotada sendo necessário um tempo de aprendizado por parte dos torcedores nesta nova forma de disputa sem jogos finais, que provocam tanto interesse.

Tabela 9 : Dados do Campeonato Brasileiro e Dados socioeconômicos – 1990-2006 – Fontes : www.cbfnews.com.br, IBGE.
Conclui-se que a deterioração na experiência em ir aos estádios, os riscos associados além da falta de interesse gerada pela ausência de ídolos vem posicionando o produto futebol apenas para aqueles mais apaixonados e que não se incomodam com tais riscos e com as dificuldades vindas dos serviços de baixa qualidade prestados nos estádios brasileiros e em seu entorno, ao invés de afastar a imponderabilidade do ambiente de negócios mais os clubes, se aproximam dela e da lógica do mundo moderno das relações efêmeras, sobre as quais se dissertou no capítulo de posicionamento, onde o acompanhar quem está ganhando prevalece.

Figura 21 : Razões que levam, ou afastam, os brasileiros aos estádios – Elaboração própria.