Publicado por: Robert Alvarez Fernández | 15/abril/2009

Tragédia de Hillsborough – 20 anos – Lá fizeram alguma coisa

Há vinte anos atrás uma tragédia, que ceifou a vida de noventa e seis seres humanos, acontecia na Inglaterra sendo o ponto de partida da transformação do futebol inglês e, mais importante, transformando a vida de quem ficou e presenciou o horror, como James Lawton, Editor de Esportes do Independent de Londres, cujas palavras, algumas, reproduzirei neste texto.

Memorial em Sheffield

Memorial em Sheffield

A partida entre Liverpool e Nottingham Forest no Estádio Hillsborough, em Sheffield, pela semifinal da Copa da Inglaterra, foi interrompida por um desastre que mudou para sempre o futebol inglês.

Um número de torcedores do Liverpool maior do que o esperado compareceu à partida e, conforme o jogo se iniciava, uma multidão se aglomerou ao redor do estádio e começou a entrar pelos portões. As comemorações do início do jogo fizeram com que cerca de cinco mil pessoas entrassem ao mesmo tempo, esmagando torcedores contra o alambrado. Ignorando o que ocorria na grade, mais pessoas passavam pelos portões.

O jogo foi interrompido aos seis minutos do primeiro tempo, quando torcedores tentavam passar por cima do alambrado e por um pequeno portão que foi arrombado. A grade não agüentou e cedeu, fazendo com que as pessoas caíssem no gramado. Noventa e cinco pessoas morreram no mesmo dia em meio a quase oitocentos feridos e outros dois morreram já no hospital – a última morte ocorreu quatro anos depois, período em que o torcedor Tony Bland ficou em coma.

Como lá efetivamente se fez algo a respeito, a partir do relatório feito por Lord Taylor de Gosforth (Justice Taylor), as partidas no país ficaram mais seguras, com a obrigação de que todos torcedores tenham assento individual e a retirada dos alambrados, dentre outras medidas.
Lawton estava lá, e escreveu uma coluna no Independent de hoje e alguns trechos ajudam a explicar o ocorrido :

“O maior dos horrores, nestes vinte anos, é o imobilismo, com doentia clareza mesmo para os não letrados nas questões policiais e de segurança pública, antes que alguma vida fosse perdida.
Bastava apenas observar o amontoado de gente na Leepings Lane, como eu fiz por vinte minutos, para saber que lá haviam inúmeras vidas em terrível perigo e que, inevitavelmente algumas se perderiam.”

Lawton comenta outras histórias horrorosas como, por exemplo, a polícia estar extremamente bem preparada para conflitos mas não para uma situação de descontrole no fluxo de pessoas e no socorro aos feridos chegando ao ponto das ambulâncias serem impedidas de se aproximar do local do incidente pela polícia julgar que se tratava de um “confronto” entre torcedores.

Na tentativa de desviar a atenção da incapacidade das autoridades, plantaram-se estórias escabrosas no SUN, tablóide de nível jornalístico baixíssimo com o perdão da redundância, que torcedores saquearam os pertences dos mortos e que urinavam nas equipes de resgate e assim por diante.

Certamente, um dos dias mais desgraçados da história do esporte de que tanto gostamos.

Hoje, diversas homenagens da comunidade de Liverpool, cidade e clube que aprendi a respeitar e admirar quando estive por lá em 2007, em viagem de pesquisa acadêmica. Flores no memorial ao lado do portão do estádio, manifestações, faixas pedindo justiça e um profundo sentimento de pesar por gente que morreu em vão e de forma tão estúpida em uma combinação pra lá de infeliz: as pessoas estavam lá para se divertir e foram vítimas da má administração e incapacidade de reação das autoridades e da organização do jogo, torpe forma de perder a vida.

Vinte anos depois e algumas boas horas de vôo distante, voltamos ao nosso ambiente, nossas cidades e nosso futebol; as comparações das condições oferecidas ao torcedor brasileiro são inevitáveis e próximas às daquela época e, confesso, tenho medo.

Tivemos o problema, até hoje não explicado, do jogo Corinthians X São Paulo no Morumbi, um monte de gente pisoteada e de perna quebrada naquele corredor polonês irresponsável feito naquele estádio; as avalanches dos torcedores no Sul do país, as saídas apertadas do Maracanã, mais confusão no Pacaembú com torcidas do Santos e do São Paulo.

O que vemos são discursos de limitação de público visitante, que deveria ter razões comerciais e não de segurança pública, entrevistas do Promotor do Ministério Público, a polícia recebendo chefes de torcida organizada como se fossem personalidades, fica a pergunta, estamos preparados para um real incidente que as aglomerações podem gerar? A resposta é não, o torcedor que estava na Fonte Nova que o diga, os que quebraram a perna no Morumbi também.

Voltando à questão da Fonte Nova, a questão da conservação dos estádios é lamentável, o Governo do Estado da Bahia queria implodir o estádio a todo custo e logo, seria a maior queima de arquivo a céu aberto da história da humanidade.

Só resta a esperança de que Deus seja realmente brasileiro e proteja nosso torcedor, nosso cliente e verdadeira razão de ser da existência dos clubes e do futebol em geral, pelo menos assim deveria ser, por que se depender da organização do futebol brasileiro e das autoridades, Hillsborough é aqui ou na próxima esquina, ou na próxima rodada com o devido requinte de crueldade dado pelas nefastas torcidas organizadas, pelas condições precárias de nossos estádios e pela irresponsabilidade tosca dos dirigentes, polícia? Só funciona contra quem tem CPF, endereço fixo e algo a perder, até esqueço que ela existe apesar de custar parte de meus impostos.

É efetivamente importante e mandatório que se leve a sério a questão do assento marcado, que é lei, e que se fiscalize com rigor o tempo de evacuação de uma arena em caso de incêndio ou tumulto, de que ordem for, assim como é em qualquer prédio comercial.

Apesar destes votos e preocupações bem brasileiras, um pouco deste autor está em Anfield hoje.

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Responses

  1. Muito bom!

    Sem nada a contestar!

    Caro Thiago…obrigado então pelo endosso e pela audiência.

    Abraços,

    Robert

  2. Parabéns pelo texto e pelo blog.

    Na Inlgaterra se preocuparam com quem mantém a chama da paixão do futebol acessa : os torcedores. Pelo menos mudaram e conseguiram transformar a Premier League na liga mais importante, organizada e rentável do mundo.

    Aqui não se fará nada. Os dirigentes batem boca na TV, os programas esportivos gostam e botam lenha na fogueira, o promotor quer aparecer para se candidatar na próxima eleição, a TV só se preocupa com sua grade……
    Difícil viu.

    Jeff, obrigado pelo comentário. Como adiministrador insisto na relação causa/efeito : a rentabilidade vem da organização e no foco com atender bem o consumidor.

    Infelizmente concordo com o comentário a respeito do cenário brasileiro também, sou obrigado a fazer coro com um colega que disse que o número de mortos na Fonte Nova foi pouco para criar um movimento tal qual o relatório Talyor e o que o sucedeu. Mas continuaremos levantando a bandeira por aqui, em aulas, palestras e tudo mais, disposição em ajudar a mudar não falta para mim e os colegas de BLOG.

    Abraços,

    Robert

  3. Em 15 de fevereiro passado, Corinthians e São Paulo se enfrentaram no Morumbi.

    Em atitude surpreendente e absolutamente inédita na história, a diretoria do São Paulo comunicou, em anúncia a poucos dias de realização da partida, que a torcida do Corinthians teria a sua disposição apenas 10% da carga total de ingressos, o que equivaleria a cerca de 6.000 entradas. A imensa torcida corinthiana, de londe a maior da cidade de São Paulo, acostumada a ser maioria em jogos no Morumbi, teve o tratamento reservado a torcidas pequenas ou de outros estados.

    A torcida corinthiana foi confinada em um espaço cercado por cercas de vidro blindado e de metal, assemelhado a uma jaula, no anel superior do Morumbi. Para impedir o contato entre torcedores rivais na entrada e na saída do estádio, foi construído um muro que deixava um corredor com largura de de 3 metros para os cerca de 6.000 corinthianos acessarem o estádio.

    Pergunta 1: Foram vistoriados pelos órgãos competentes as acomodações e a passagem de entrada destinadas aos corinthianos?

    Pergunta 2: O Morumbi foi liberado pelas autoridades competentes para a realização da partida do dia 15.02.2009?

    O tumulto:

    http://br.truveo.com/Confus%C3%A3o-entre-torcida-e-PM-deixa-40-feridos-no/id/1150750408

    Na saída dos corinthianos do estádio, ocorreu um tumulto no estreito corredor de saída, que refletiu na massa compacta que tentava abandonar a área das arquibancadas, pois estava no escuro, com as luzes do estádio apagadas, e começara a chover forte. O incidente produziu imagens impressionantes e resultou em dezenas de feridos, alguns em estado grave, e a milagrosa inexistência de vítimas fatais.

    Pergunta 3: As vítimas receberam, passados dois meses, indenização pelo ocorrido?

    Pergunta 4: Por que o Morumbi não foi interditado após o fato?

    Imediatamente após o grave incidente, a direção do São Paulo, proprietário do estádio, mandante da partida, e que não ofereceu qualquer espécie de socorro aos feridos, se apressou em atribuir a culpa pelo ocorrido às próprias vítimas e à direção do Corinthians…

    Poucos dias depois, se anunciou a prisão de um suspeito, que se dizia corinthiano e se apresentava como o autor do início da confusão na saída do estádio. Logo após, o delegado responsável peo caso anunciou que a versão do detido não correspondia aos fatos apurados, e que jamais em sua carreira de policial vira um indivíduo procurar se auto-incriminar de tal maneira.

    Desde então, um manto de silêncio passou a envolver o caso.

    Pergunta 5: Dois meses depois, como estão as investigações sobre o ocorrido?

    Pergunta 6: Quem foram os responsáveis pelo tumulto que aconteceu no Morumbi ao fim daquele Corinthians x São Paulo?

    Alberto, obrigado pelo comentário. O BLOG repercutiu essa questão logo após o lamentável ocorrido a que você se refere; reprovamos a atuação das diretorias, das autoridades, enfim, como eu disse no texto, nota zero geral!!! Você pode verificar isso no link abaixo.

    <a href=”https://futebolnegocio.wordpress.com/2009/02/16/corinthians-x-sao-paulo-licoes-duras-de-como-nao-fazer/”

    Eu não tenho resposta para nenhuma das suas perguntas, porém, faço coro com você e desejo estas respostas tanto quanto você e qualquer cidadão que se importe com o esporte, e mais importante, que tenha respeito pela vida humana, coisa que os organizadores do futebol, os clubes, as torcidas organizadas e as autoridades não parecem ter algum.

    Na Inglaterra, infelizmente também, muitas das perguntas também não foram respondidas e acabou valendo a tal da “lei da responsabilidade nula”, uma nomenclatura que eu inventei para explicar o que você, apropriadamente, de “manto de silêncio”.

    Gostaria muito de poder promover um debate cara-a-cara da polícia, dos clubes e de órgãos isentos como o CREA-SP e o SINAENCO para julgar o planejamento do evento e a qualidade das instalações, ou da jaula, outra palavra que você usou bem; mas sou pequenino perante os interesses dessa gente toda, mas vou plantando minha semente.

    Abraços,

    Robert

  4. Robert;

    Muito bom seu texto. Parabéns.

    Este assunto deveria ser maciçamente martelado pelos orgãos de comunicação, pois só assim as autoridades tomam alguma atitude. Por enquanto que vez ou outra se fala neste assunto, nunca será feito alguma coisa relevante pra se mudar este quadro calamitoso que é a segurança em nossos espetáculos de multidão, pois não falo só em jogos de futebol, mas em shows, cultos e tudo que envolva grande público.

    João Luiz, obrigado pelo comentário e pela participação. Espero estar errado minha visão cínica, nada será feito mesmo que tenhamos uma centena de mortos, quer um exemplo ? É só olhar o Aeroporto de Congonhas, passaram um batom na pista, tiraram alguns vôos de lá por um tempo e está tudo lá como sempre foi.

    Abraços,

    Robert


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