Publicado por: Marcos Silveira | 2/abril/2009

A Vez do Leitor: Teto salarial no Brasil?

Esta semana A Vez do Leitor traz um texto escrito pelo Raphael Garcia, estudante de Relações Internacionais de São Paulo:

Teto salarial no futebol brasileiro?

Por Raphael Garcia*

Há aproximadamente uma semana, foi divulgado em vários sites e portais noticiosos a informação de que diversos clubes brasileiros e o Clube dos 13 iniciaram discussões e consultas sobre a possibilidade da implantação de um teto para o salário de jogadores no Brasil.

Eis a notícia da Folha de S.Paulo (em azul e itálico):

Os clubes brasileiros iniciaram nos últimos dias discussões para o estabelecimento de um teto salarial nacional para jogadores profissionais de futebol. Seria a primeira medida efetiva contra a crise mundial.

A Folha apurou que a ideia surgiu de discussões entre os presidentes do Clube dos 13, Fábio Koff, e do Palmeiras, Luiz Gonzaga Belluzzo.

Os dois já tiveram várias conversas sobre o tema e pretendem colocá-lo em pauta nas próximas reuniões do C13, associação que reúne os principais clubes brasileiros.

Belluzzo e Koff chegaram à conclusão de que, com a crise, é preciso adotar medidas para assegurar que os clubes tenham saúde financeira suficiente para garantir os acordos com os jogadores -algumas agremiações até teriam receitas suficientes para cobrir a folha de pagamento, mas naufragam nas dívidas acumuladas e adiantamentos de dinheiro.

Pela proposta, o teto seria proporcional à receita anual arrecadada por cada equipe.

Os cartolas também asseguram que os acordos em vigência serão respeitados e somente contratos firmados após a instituição do limite seriam submetidos à nova regra.

Procurado pela reportagem, o C13, por meio de sua assessoria de imprensa, afirmou que só poderia comentar o assunto após realização da reunião dos clubes, ainda sem data marcada. Belluzzo não foi localizado.

Hoje, alguns clubes, como o São Paulo, seguem política de teto. O problema é que frequentemente se evolvem em atritos por um acusar o outro de “inflacionar o mercado”.

“É preciso saber que tipo de acordo será feito. Mas, se alguém tirar o jogador do outro, por exemplo, ele pode prever multas ou outras punições”, afirma o advogado Eduardo Carlezzo, diretor do Instituto Brasileiro de Direito Desportivo, que não vê empecilhos legais para a implantação.

“O teto é uma questão interessante, que vem num momento bastante adequado.”

Entretanto, Corinthians e São Paulo, por exemplo, veem com ressalvas a medida.

“Cada um tem sua realidade. Penso que é muito difícil no sistema capitalista definir tetos. A remuneração está ligada a benefícios”, afirma o diretor de futebol são-paulino, João Paulo de Jesus Lopes.

“Os clubes devem conversar, mas, sob o olhar do economista, tabelamento de preço significa o mesmo que rasgar o Alcorão para o muçulmano”, afirma o vice de marketing corintiano, Luis Paulo Rosenberg.

O Flamengo apoia a medida. E ainda sugere que o teto seja igual para todos. “Pode garantir maior competitividade às equipes”, destacou Pedro Trengrouse, assessor da presidência. O dirigente rubro-negro, porém, ressalta que a atitude não deve servir só para driblar a crise mundial. “Isso não pode ser visto como uma coisa conjuntural. A situação financeira muda constantemente.”

O Botafogo também é favorável, mas sugere que se leve em conta a idade e a qualidade do atleta. “A tendência é que isso [teto salarial] aconteça naturalmente”, declarou o vice-presidente Antonio Mantuano.

Segundo ele, o clube já tenta adotar medida parecida ao cortar metade da folha salarial em relação a 2008 -caiu de R$ 2,3 milhões para R$ 1,15 milhão.

Interessante… Ousado, para dizer o mínimo!

Mas é inegável que os presidentes de São Paulo e Corinthians, tem argumentos fortes e é fácil concordar com eles – deixando antes claro que estes são, talvez, os clubes com melhor estrutura e saúde financeira ou, ao menos, melhores perspectivas futuras.

Pontos que vejo como problemáticos:

1. O teto seria baseado na realidade de qual ou quais clubes?
Sim, porque o São Paulo tem uma realidade, o Vasco tem outra, o Santa Cruz outra e imaginem o ASA de Arapiraca ou o América do Rio.
Se for imposto um teto ao nível do São Paulo, por exemplo, a realidade para a quase totalidade dos demais clubes não mudaria em nada. Evitaria, talvez, uma escalada futura mas, no curto prazo, não faria qualquer diferença para os demais clubes em termos de gastos e dívidas.
Se, por outro lado, o teto for menor, poderíamos enfrentar um êxodo de jogadores e talvez até clubes com dinheiro sobrando – o que não é necessariamente ruim, mas pode se tornar.
Com nosso histórico de cartolagem, dinheiro sobrando não é necessariamente coisa boa. E seria igualmente injusto, é possível afirmar, forçar um clube a economizar dinheiro que pode dispor em contratações mais audaciosas.

2. Com um teto, como evitar um êxodo ainda maior de jogadores?
Aí está o maior problema. Se um jogador pode receber 500 mil por mês na Europa, por que ficaria no Brasil em um clube que talvez pudesse pagar o mesmo mas é impedido, por lei, de lhe pagar mais que, digamos, 300 mil?
Amor à camisa não existe mais no futebol. Salvo raríssimos, quase extintos casos, impera o amor ao dinheiro.
Uma iniciativa isolada do Brasil não traria qualquer benefício ao futebol, a iniciativa deveria ser, pois, mundial.

3. O teto vale só para salários ou transferências?
Sim, porque o valor pago ao clube de origem de um jogador também faz enorme diferença e tem um grande peso. Não é só o salário o grande problema dos clubes mas também as multas rescisórias e os valores de transferência.

4. Desrespeitar o teto leva a que tipo de punições?
No país em que a maior parte dos clubes está na mais completa ilegalidade, não se tornaram empresas ou tem dívidas absurdas, criar mais e mais leis, por melhor intenção que tenham, não é garantia de cumprimento ou melhora.
Quem vai fiscalizar? Como vai se fiscalizar? E quem pune e como?
Na salada – ou lamaçal – atual de justiças se sobrepondo (comum e desportiva), de instâncias desautorizando outras, de cartolas fora-da-lei, acusados de lavagem de dinheiro e crimes financeiros e a mais completa e total impunidade, difícil acreditar em punições ou justiça no caso de desrespeito ao teto imposto.

5. Falamos em salários apenas ou o total, com direito de imagem?
Muitos jogadores recebem mais de direito de imagem que de salário real… É uma questão relevante, e muito.

6. Competitividade ou nivelamento por baixo?
Finalmente, será que o projeto realmente tornará nossos campeonatos mais competitivos, diminuindo a diferença gritante de investimentos entre os grandes clubes e, vá lá, os médios? Ou, na verdade, só teremos um nivelamento por baixo, sem qualquer competitividade externa?
(Se bem que já estamos, no geral, nivelados por baixo…)

Por outro lado, é inegável que a proposta, levada à sério, apesar de todos os prognósticos, tem seus méritos.

Claro, apesar do medo de nivelamento por baixo, de êxodo e etc, é fato que os clubes do Brasil não tem qualquer condição de competir com os de fora, da Europa.

Dito isto, não importa o quão milionário é o patrocínio de Corinthians, São Paulo e cia, não se compete com um Liverpool, um Chelsea, um Real Madrid e até mesmo um Dinamo de Kiev.

É curioso, faço um adendo, notar que um novo mercado, forte, foi aberto no Leste Europeu. Países como a Ucrânia e a Rússia são agora um mercado em potencial para jogadores brasileiros, coisa jamais imaginada antes para países pós-soviéticos e comumente afundados em intermináveis crises.

Pensando dessa maneira, a de que não temos mesmo como competir com os valores pagos lá fora, seria excelente a criação de um teto, desde que este pudesse ser mexido de comum acordo entre entidades (Governo, Clubes, Clube dos 13 e CBF), evitando uma quebradeira geral de clubes e talvez até a diminuição de dívidas e projetos mais conectados com a realidade do país e com a frágil realidade financeira dos clubes.

Mas estamos no Brasil. Só isso já demonstra a dificuldade de implantar e, mais ainda, fiscalizar uma empreitada dessa monta.

Até hoje os clubes falham em se tornarem empresas, em gerir corretamente sua folha de pagamento e suas dívidas. E estas se acumulam. Raros são os clubes “limpos”, não-endividados e com boas perspectivas de crescimento. O amadorismo ainda impera, mas, pensando desse modo, um teto seria uma excelente ferramenta para coibir rompantes de grandeza e gastos descontrolados como é tão comum ver por aqui. Basta nos lembrarmos do Vasco de Eurico no fim dos anos 90 e a consequente crise do começo do século e o atual Flamengo.

*O artigo acima foi enviado pelo leitor Raphael Garcia, de São Paulo. Ele também escreve o Blog do Tsavkko – The Angry Brazilian.

O que você achou do texto dele? Participe nos comentários!

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Responses

  1. Caro Raphael,

    parabens pelo texto.
    Para nao me alongar no comentario, serei bem sucinto: Por todas as razoes indicadas por vc em vermelho a instituicao de um teto salarial para jogadores de futebol no Brasil e’ inviavel… senao IMPOSSIVEL.

    Teoricamente, na Europa seria ate’ viavel, ja que nao existe uma concorrencia de fato fora daquele mercado, mas no Brasil – que sofre a concorrencia europeia e de outros mercados – nao ha a menor possibilidade de dar certo.

    Abs

    Joao

  2. Antes de ter teto, seria bom para o futebol brasileiro ter um piso, pq enquanto meia dúzia ganham os salários astronômicos, outros morrem de fome.

  3. Muito bom o texto.

    Soh nao consegui entender pq o texto cita o Corinthians como um dos clubes “os clubes com melhor estrutura e saúde financeira ou, ao menos, melhores perspectivas futuras.”

    Em q ele se baseia pra afirmar isso, visto que o corinthians eh um dos clubes mais endividados do brasil e com um dos cenarios politicos mais instaveis.

  4. Este assunto dá muito pano pra manga.
    E, da mesma forma, acredito que seria muito interessante colocar ordem na casa dos clubes brasileiros e porque não, começando pela folha de pagamento.
    Só um detalhe, na atual conjuntura quem negocia salário de jogador é procurador de jogador, certo?
    O problema dos clubes é negociar valores com os tais procuradores de jogadores e estes, aceitariam um teto para o cliente?

  5. Na minha opinião, os nossos “dirigentes” logo encontrarão um jeito de burlar o sistema, caso algo desse tipo seja sancionado. Os próprios “direitos de imagem” utilizados hoje já são um artifício desse tipo.

    O que falta é a vontade de cada um de apertar os cintos e ajustar as contas, como o próprio Botafogo vem fazendo após dispensar vários jogadores e quase ser forçado a disputar o Carioca com um time de juniores. Mesmo não sendo torcedor do clube, acho que esse é o único caminho para fugir daquele círculo vicioso de altos salários, dívidas, adiantamento de cotas e empréstimos.

  6. Olá Raphael,

    Gostei das qustões levantadas por você no post. São relevantes e deveriam ser levantadas por aqueles que querem defender isso…

    Mas, um lado nessa história toda ficou esquecido: o Jogador.

    Jogador de Futebol, hoje é profissão, porém a um detalhe nessa profissão, o tempo no auge é pequeno e a dedicação no inicio tem que ser muito grande.

    A grande maioria dos jogadores deixam de estudar, e depois aos 40 anos, eles tem que começar tudo de novo e não é fácil.

    Não sou contra um teto, mas não pode-se deixar de pensar nos jogadores, que muitas vezes precisam ganhar em 20 anos, um montante suficiente para tocar o restante da sua vida (em média, mais 40 anos)

    O que seria muito legal é com as mudanças que podem criar uma industria profissional de futebol no Brasil, também se considerar que os jogadores, principalmente os mais jovens, precisam se qualificar, precisam pensar na carreira, para então os salários poderem ser adequados a esse planejamento…

    Grande Abraço,

  7. Olha, o que as pessoas esquecem quando entram nessa discussão do teto é o seguinte: isso não é nenhuma idéia revolucionária, nova, que ninguém faz não!

    Todas as ligas profissionais americanas têm este teto, exatamente nesse formato – ele é relativo ao faturamento total de cada time. Isso foi instituído pela NBA há décadas, os outros esportes também seguiram nessa linha e o teto é um dos responsáveis não só pela saúde financeira das ligas, como também pelo equilíbrio técnico e alternância de domínio entre várias equipes ao longo dos anos.

    Eu sou totalmente a favor de que se pense em algo do gênero por aqui (e na Europa, onde a desregulamentação total é responsável por transformar o futebol em uma atividade em que as contas não fecham e propícia pra entrada de dinheiro sujo de toda espécie). Se há dúvidas de como implantar isso, é só mandar os nossos dirigentes pros EUA pra aprender.

    Agora, é claro que a vocação brasileira pra avacalhar qualquer lei, qualquer regra, pode estragar qualquer iniciativa.

  8. POW AGR É OUTRA HISTORIA O ASA É FODÃO O ASA É SERIE B
    AEW
    AEW
    AEW
    FLW GALERA


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