Publicado por: Marcos Silveira | 5/março/2009

Camarote F&N: Lei da oferta sem procura

O Camarote F&N de hoje abre as portas para Ubiratan Leal, editor da revista Trivela e autor de um dos melhores e mais conceituados blogs sobre futebol que eu conheço, o Balípodo, que existe há quase 6 anos e, evidentemente, está entre os favoritos do F&N.

Apesar de ser convidado, posso dizer que o Ubiratan é “de casa”, já que fez faculdade comigo e com o João Frigerio. O texto dele fala sobre a “lei de mercado” praticada pela maioria dos dirigentes brasileiros:

Lei da oferta sem procura

Por Ubiratan Leal*

Minha primeira “lição” de economia foi em 1986. Eu tinha pouco menos de oito anos quando pedi Cr$ 1.250 (me lembro direitinho do valor) para comprar pipoca na saída da escola. Minha mãe me contou que, a partir daquele dia, a moeda era o cruzado. Ela me deu as notas de cruzeiro, mas explicou que elas valiam Cz$ 1,25. Depois falou algo sobre cortar três zeros, inflação, Dílson Funaro e tal. Foi quando eu entendi porque a pipoca custava Cr$ 1.100 na semana anterior e aumentou de preço, mas eu estava mais preocupado com o saquinho cheio de milho estourado que eu ia comprar.

Imagino que a “introdução” à economia básica de todo mundo tenha sido algo desse tipo. Como calcular o valor do pãozinho, saber o preço do carrinho (ou da boneca), pegar o troco da compra da paçoca Amor ou outra operação comum para uma criança. A segunda, para todos, foi a tal da “lei da oferta e da procura”. Se um produto ou serviço tem mais procura do que disponibilidade, o preço sobe. Se há muita disponibilidade e pouca procura, o preço cai. Isso existe desde que o homem pré-histórico começou a trocar peles por grãos, pontas de lanças por um naco de carne ou fazer qualquer outro tipo de escambo.

Bem, até o homem de cro-magnon entendia o funcionamento desse sistema, mas ele ainda parece um mistério para a maioria dos cartolas brasileiros, sobretudo em São Paulo, onde se criou uma onda de aumentar estratosfericamente o valor dos ingressos como se isso fosse sinal de que ir ao estádio virou coisa de primeiro mundo.

No Brasileirão de 2008, o São Paulo foi campeão com média de público de 21.331 pagantes, menos de um terço da capacidade do Morumbi. O Palmeiras chegou à Libertadores com 16.877 torcedores por partida, cerca de metade do Parque Antarctica. Na Série B, o Corinthians teve melhor desempenho: 23.786, aproximadamente dois terços do Pacaembu.

Em todos esses casos, fica evidente que há espaço sobrando nas arquibancadas paulistanas (e, vamos ser honestos, a ocupação dos estádios no resto do país é parecida). Ou seja, na média, há menos demanda por ingressos do que oferta de assentos. O pensamento lógico seria reduzir o valor das entradas ou melhorar o serviço mantendo o mesmo preço (ou, vá lá, aumentando só um pouquinho). Esse cenário incentivaria mais gente a ir ao estádio e, quando a procura se tornasse maior que a oferta, seria possível pensar em aumentar o valor.

Foi o que aconteceu na Inglaterra após o Relatório Taylor, marco para o tratamento decente dos torcedores nos estádios britânicos. Primeiro, os estádios passaram a encher quase todos os jogos. Depois, os clubes puderam aumentar o valor, alegando que havia muita procura e pouca oferta. A tal “elitização” dos estádios ingleses foi consequência da mais elementar regra da economia.

A moda, no Brasil, é tentar elitizar de modo forçado, aumentando o preço quando ainda há mais oferta que procura. Não faz sentido o Palmeiras criar um pacote de ingressos anuais que custe R$ 1.500 (ou seja, R$ 6 mil para uma família de pai, mãe e dois filhos), o São Paulo cobrar R$ 1.100 para seu carnê da temporada e o Corinthians estipular em R$ 100 o preço do ingresso em um setor descoberto (é R$ 150 no coberto…) em partida contra times do interior no Paulistão.

Os defensores da recém-criada “lei da oferta sem procura” vão dizer que os valores cobrados por Palmeiras e São Paulo valem pela conveniência do torcedor de saber que terá um lugar. Será? Se a média de ocupação no Brasileirão (veja, não é nem no estadual) não chega a 60%, não haveria muito problema em comprar o ingresso na bilheteria na maior parte dos jogos. A tal conveniência é para lá de duvidosa, só sendo real nas decisões.

Basta ver o que fizeram no Rio Grande do Sul, um oásis na política de venda de ingressos. O alvo não é faturar no preço do ingresso, mas na fidelização. Os programas de sócio-torcedor de Inter e Grêmio nada mais são do que cobrar para facilitar (preferência e descontos) a compra de entradas. No momento em que a demanda por carteiras de sócio se aproximou da oferta por assentos nos estádios, criou-se a necessidade real do torcedor em buscar a tal conveniência.

Os clubes paulistas – e brasileiros como um todo – precisam parar de pensar que os poucos jogos decisivos, nos quais os estádios realmente lotam, salvam sua receita de bilheteria. É nas dezenas de encontros de meio de campeonato que está o potencial de crescimento, com assentos vazios que expõe o quanto deixou de ser arrecadado.

A missão de quem sabe o que é planejamento é encher as arquibancadas nessas partidas. Só assim, criará procura consistente por ingressos que justifiquem um aumento de preços no futuro. É assim que a economia sempre funcionou. Não imagino que os cartolas brasileiros sejam geniais o suficiente para mudar isso.

* Ubiratan Leal é jornalista formado pela PUC-SP, trabalha na revista Trivela e escreve o imperdível Balípodo. Vale a pena visitar com frequência.

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Responses

  1. Complementando essa idéia, uma vez fidelizado o cliente, através da associação, é menos provável que ele deixe de pagar as mensalidades, mesmo com aumentos anuais.

    Minha mensalidade passou de 15 reais em 2005 para 40 em 2009, um aumento de 166% em 4 anos. Assim como eu, muitos continuam sócios, pois vale a pena.

  2. Eu discordo em partes com o seu comentário,primeiro pois os planos anuais de spfc e palmeiras considerando a quantidade de jogos e a comodidade do local destinado a estes ingressos não fica caro o pacote,segundo o aumento dos ingressos na minha visão não reflete a principal causa para o baixo publico,posso exemplificar o spfc,em jogos de meio de semana e sem grande interesse o publico oscila entre 4 a 10 mil pessoas,sendo o ingresso mais barato 30,20 ou 10.

  3. Caio,

    para responder seu comentário, vou indicar um texto (não é longo) que eu escrevi no meu site. Acho que o Marcos não se importará. Mas adianto: o pacote não vale a pena.

    http://www.balipodo.com.br/index.php?p=2721

  4. Olá Ubiratan,

    Parabéns pelo texto e pela excelente análise sobre um dos temas mais importantes para os clubes brasileiros.

    Você tocou em um ponto fundamental (oferta e procura) para abordar os espaços vazios em nossos estádos.

    Segundo minha análise na CAsual Auditores em 2007 o % de Ocupação dos maiores clubes brasileiros foi de 36%. ( Uma substancial melhora em relação a 2004).

    Entretanto a demanda por ingressos somente vai se aquecer quando os clubes apresentarem ao torcedor seu season tickets, onde a compra antecipada realmente seja MUITO MAIS ATRAENTEmesmo Inter e Grêmio apresentam jogos

  5. Olá Ubiratan,

    Parabéns pelo texto e pela excelente análise sobre um dos temas mais importantes para os clubes brasileiros.

    Você tocou em um ponto fundamental (oferta e procura) para abordar os espaços vazios em nossos estádios.

    Segundo minha análise na CAsual Auditores em 2007 o % de Ocupação dos maiores clubes brasileiros foi de 36%. ( Uma substancial melhora em relação a 2003).

    Entretanto a demanda por ingressos somente vai se aquecer quando os clubes apresentarem ao torcedor seu season tickets, onde a compra antecipada realmente seja MUITO MAIS ATRAENTE que a compra no dia do jogo ou alguns dias antes.

    Mesmo Inter e Grêmio apresentam jogos com seus estádios com baixa ocupação e estão aquém ainda de seu potencial.

    A venda de season tickets na Inglaterra e em todos os mercados europeus foi essencial para a valorização do mercado de venda de ingressos, o que resultou em clubes com extensas filas de espera para esse produto.

    Aqui no Brasil os clubes ainda estão “apanhando” para compreenderem como criar esse produto, estratégico em todos os mercados esportivos no planeta.

    Um abraço.

    Amir

  6. Achei mto bom o seu comentário.

    Sou a favor de uma distribuição de preços na qual tenhamos varios perfis de ingressos de acordo com diferentes perfis de torcedor.

    A quantidade de ingressos de cada um desses perfis fosse equivalente percentualmente à participação desse perfil na sociedade (percentual de ingressos para a classe A, igual ao percentual da classe A na cidade), tentando sempre que possível respeitar o publico alvo de cada clube (uns tem mais participação nas classes baixas, outros nas classes altas).

    E, na minha opinião, os torcedores que frequentam estádios são os que se apaixonam mais pelo clube, logo os que consume mais também.

    Abraços

  7. Ps:

    Seu site é muito bom, excelente a reportagem do futebol na África do Sul que vi outro dia, entre outras.

    frequentarei mais

  8. Foi direto na ferida em amigo, o problema é que nossos brilhantes cartolas não pensam assim.
    Acredito que há muita sujeira para que alguns projetos não vá pra frente.

  9. Eu acho q os dirigentes são adpetos da ” Lei de Say , onde a oferta gera a sua própria demanda.”

    O Vasco tinha um pacote semelhante q o melhor lugar , mais caro, era na arquibancada no meio de campo, mas sem cobertura do teto, ou seja, o torcedor pagaria mais e ficaria exposto a chuva e sol forte na cabeça.

    Eu entendo q vc pode cobrar valores maiores, criação de setores VIP´s talvez, mas tem q dar alguma coisa em troca, tem q ter vantagem para aqueles q estão dispostos a gastar mais.

  10. Amir e Gustavo, obrigado pela consideração.

  11. Boa tarde!

    Venho dar os parabéns pelos ótimos posts nesta pagina.
    Só temas pertinentes ao esporte e focando o Futebol.
    Hoje no Brasil, (fora raras exceções) os “administradores” dos clubes, sejam eles de grande porte até os pequenos, só pensam no próprio bolso, pois das receitas que o clube recebe eles desviam grande parte, e a que sobra é mal aplicada.
    O pensamento deles é limitado, não aceitam e não procuram novas formas de gerar receitas e explorar melhor a marca.

    Outro assunto que gostaria de abordar são as pesquisas sobre a % de torcedores de cada clube.
    Pois são através delas que os patrocinadores estipulam os valores.
    Acho que deveria ser feito no formulário do senso demográfico que ocorre a cada 5 anos; pois não custaria nada a mais, teria fé publica e a pesquisa cobriria toda a população.
    Porque acho que “estes milhões de torcedores de um só clube” e outros grande expressão e porte não aparecerem nem nas pesquisas é complicado.
    Fora que as pesquisas são por amostragem, não cobrem todas as cidades e estados, e podem ser compradas pelos clubes e patroinadores.
    Obrigado pelo espaço.


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