Publicado por: Marcos Silveira | 26/fevereiro/2009

Camarote F&N: Mais uma “aula” inglesa

Alguns problemas no meu computador (e depois o excelente post do Robert) fizeram com que eu deixasse para publicar o Camarote F&N desta quinta-feira apenas agora, no fim do dia.

O convidado de hoje é Jon Cotterill, inglês que vive no Brasil há quase 8 anos e desde 2002 narra jogos de futebol para o exterior. Ele também faz o blog Pitaco do Gringo, que está entre os indicados do F&N.

Vale a pena ler o texto do Jon, até para captar um pouco do olhar britânico, que certamente tem muito a nos ensinar:

O case Nottingham Forest

Por Jon Cotterill*

Li com interesse o post do Gustavo Barreto sobre o marketing do futebol na Europa. Ele está certo em dizer que o site do Manchester United é um bom lugar para clubes brasileiros verem o que pode ser feito quando se combina a vontade de explorar novas oportunidades de negócio com criatividade e uma pitada de senso comum.

 Nottingham Forest

Mas não é só com os grandes clubes que os times brasileiros podem aprender. Pegue como exemplo o meu time: o Nottingham Forest, que já foi bicampeão da Champions League (1978-79 e 1979-80). Na última temporada, o Forest estava na terceira divisão e no início deste ano foi promovido. Mas apesar de uma surpreendente vitória por 3-0 contra o Manchester City, na Copa da Inglaterra, as coisas não estão indo muito bem na Liga e o time pode voltar para o inferno da terceira divisão…

Enquanto a situação no campo está terrível, fora dos gramados parece estar bem melhor. Apesar de os dias de glória do Forest já terem acabado há tempos e de aparentemente poucas pessoas neste país se lembrarem dele, eu ainda consigo comprar as camisas um e dois em uma loja esportiva (como a Bayard, por exemplo) ou até mesmo online aqui no Brasil.

Como uma equipe que não ganha nada desde a Copa da Liga Inglesa (Carling Cup) de 1990 e despencou para a terceira divisão pode disponibilizar suas camisas em lojas de um país a mais de 9.000 quilômetros de distância? E será que eu conseguiria comprar uma camiseta do São Paulo – um clube que conquistou os últimos três Brasileiros, além de uma Libertadores e um Mundial Interclubes recentemente – com tanta facilidade na Inglaterra? Bem, a resposta é não.

E por que é assim?

A demanda e o interesse do futebol europeu é a resposta óbvia. Em janeiro, a ESPN Brasil transmitiu ao vivo um jogo do Forest contra o seu maior rival, o Derby County. Veja bem: são dois times que estão na segunda divisão da Inglaterra. A ESPN Brasil foi ousada ao exibir a partida e merece crédito por isso. No sentido inverso, a TV Globo Internacional ainda não conseguiu repassar os direitos dos jogos do Campeonato Brasileiro para os grandes canais no Reino Unido. Claro que existem muitas outras razões para isso e talvez seja assunto para outro dia.

Mas por que o Forest e outros clubes médios do Reino Unido estão à frente em comparação com equipes brasileiras quando se trata de comercializar os seus produtos? E como o Forest levava quase 20.000 pessoas em cada partida em casa quando ainda lutava na terceira divisão?

A resposta é simples: o clube tem uma conexão quase inquebrável com a cidade de Nottingham e vice-versa. No geral, o Forest atrai os fãs da comunidade local e há uma feroz lealdade ao clube. Em muitos aspectos, conseguir fãs locais na Inglaterra é muito mais fácil do que no Brasil. No Reino Unido ainda se tem a mentalidade de que se deve torcer por seu clube local – não importando o quanto ele é ruim ou não. Muitas pessoas criticam quando alguém torce por um grande e bem sucedido time de outra cidade. Por exemplo, a idéia de que alguém da Bahia possa torcer pelo Flamengo não faz o menor sentido para os ingleses, sem contar que essa pessoa seria tratada com certo grau de desdém. O grande problema com fãs que moram longe dos seus clubes é que eles não têm uma verdadeira ligação com a cidade ou o clube e é mais fácil para eles abandonarem o time quando este não joga bem.

Clubes brasileiros em cidades relativamente grandes como Campinas, por exemplo, têm fãs potenciais suficientes para encher os estádios da cidade a cada semana. Porém a Ponte e o Guarani têm de competir com o glamour dos quatro grandes times de São Paulo. Mas há algumas coisas que esses clubes poderiam fazer para aumentar o seu apoio. Novamente o Forest dará um exemplo.

O Forest tenta obter os seus fãs quando eles são jovens. Nos fins de semana e feriados o clube organiza cursos para crianças e adolescentes (de 6 a 13 anos) de ambos os sexos. Obviamente essa idéia tem dois objetivos: encontrar novos talentos para o Forest e criar um maior interesse sobre o time, trazendo assim potenciais torcedores.

A comunicação é importante e o web site do Forest oferece um serviço de primeira classe para os fãs. Além das notícias atuais, o site tem uma vasta informação sobre os jogadores. É possível saber quem está machucado, quem recebeu cartões (e quantos) e onde eles receberam. Há informações sobre compra de ingressos para jogos em casa e fora, além de mapas para partidas em outras cidades. Existe um fórum para os fãs, uma página para jovens torcedores, informações sobre as antigas estrelas da equipe e o que eles fazem agora. E ainda é possível descobrir como fazer um ‘teste’ para o clube! Todas essas coisas são excelentes, mas não fornecem qualquer rendimento direto. Servem para atrair os fãs para o site e para os serviços que o clube oferece.

É possível, por exemplo, comprar ingressos online direto do clube. Há detalhes de como qualquer fã, ou qualquer pequena empresa, pode patrocinar um kit individual do jogador. Posso baixar screensavers da equipe e fotos para o meu PC, além de toques e informações para o meu celular. O clube possui algumas salas que podem ser alugadas para conferências, banquetes, festas, bailes e eventos em geral. Posso até me casar lá se eu quiser! Há bares especiais e os camarotes ficam disponíveis nos dias de jogo. O Forest tem uma loja online onde você pode comprar desde réplicas do uniforme até pijamas, aromatizador de ambiente e até cartões de Natal. Tudo com a logo do Forest.

Por uma taxa de R$ 114 ao ano, eu posso ouvir a cobertura via rádio de todos os jogos do Forest ao vivo. Posso assistir aos melhores momentos e entrevistas horas depois do jogo. Quantas centenas de milhares de brasileiros vivem fora do país e não podem ver sua equipe? Como se pode ver, existe um potencial enorme que clubes brasileiros poderiam explorar. Nada do que eu descrevi é demais para qualquer clube no Brasil. Inclusive alguns já têm ido nessa direção.

Provavelmente (e infelizmente) o Nottingham Forest nunca mais será capaz de competir com os “Manchester Uniteds” e “Liverpools” da vida. Da mesma forma, a maioria dos clubes brasileiros nunca poderá se igualar ao apelo dos grandes times europeus e sempre perderá fãs para Flamengo ou Corinthians. Mas ao construir uma relação forte com a comunidade local, transformando o clube em sinônimo da sua cidade, atraindo jovens torcedores e oferecendo aos fãs melhores serviços online e no estádio, qualquer clube no Brasil poderia aumentar sua base de torcedores e renda.

* Jon Cotterill é inglês, torce pelo Nottingham Forest e narra jogos do futebol brasileiro para o exterior.

Se você gostou do “pitaco do gringo”, visite o blog dele e leia outros textos (em inglês) sobre o futebol brasileiro.


Responses

  1. Jon,

    Primeiramente, muito obrigado pela citação elogiosa.

    Segundo, eu també simpatizo com o Forest, tenho a camisa do Nottingham da temporada passada, da qual gosto muito.

    E sempre é bom ver o que está sendo feito em outros países, para que o futebol brasileiro possa aplicar essas estratégias de forma adaptada a nossa realidade.

    Abraços

    Abraços

  2. Post interessante, como o do Gustavo, e que reforça o meu comentário anterior: a paixão pelo futebol na Europa (e Argentina) é muito maior do que no Brasil.

    Isso seria simples consequência do descaso com o Torcedor nos estádios e fora deles? Não sei, parece-me uma resposta muito simplista.

  3. Ótimo post. Sou torcedor do Flamengo e do Ceará. Mas se jogar Ceará e Flamengo, torço pro Ceará. Sou “bairrista”. Aqui no Nordeste a maioria tem dois times….e alguns torcem mais pelo time sulista do que o time local….é brincadeira!!!!Abraço


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