Publicado por: Marcos Silveira | 18/fevereiro/2009

A Vez do Leitor: Admirável Gado Novo

Como o Maurício comentou no post de ontem, a paciência de todos já deve estar esgotada em relação ao polêmico clássico entre São Paulo e Corinthians no último domingo.

Mas peço licença a vocês para incluir mais um texto sobre o assunto, dentro do quadro A Vez do Leitor. Quem escreveu foi o Ricardo Teixeira (que não é o presidente da CBF), de São Paulo:

Admirável Gado Novo

Por Ricardo Teixeira*

O título deste texto é o mesmo que intitula a música do cantor Zé Ramalho. Pois reflete exatamente o que nós, torcedores brasileiros, somos: Gado. Gado comandado por “fazendeiros” (dirigentes, Polícia e autoridades do Estado.

No ultimo domingo, São Paulo e Corinthians jogaram no estádio do Morumbi (que pleiteia a sede e abertura da Copa de 2014). Onde ocorreram confrontos nos momentos pré-jogo e pós-jogo. Esse último, uma barbárie em que membros das torcidas “organizadas” e torcedores comuns entraram em confronto com a PM de SP, deixando mais de 40 feridos.

Daí eu pergunto: onde está a segurança e bem estar do torcedor dentro de um estádio de futebol no Brasil? Eu sei, na nossa realidade isso é bem difícil de ocorrer. Porém, esse último acontecimento, mais a morte de um torcedor do Atlético-MG, baleado num ponto de ônibus em BH, extrapolam os limites da segurança do torcedor.

Está claro que o futebol brasileiro necessita de um trabalho conjunto entre a Justiça Comum, o Estado, Justiça Desportiva, CBF, federações e clubes para apaziguarem o problema. Treinando o policiamento FORA do estádio, inserindo agentes de seguranças do próprio clube dentro dos estádios, administrando bem a alocação de torcedores adversários para evitar conflitos, cadastrando todos os torcedores de “organizadas”, vigilância constante e o mais importante: criação de leis que punam os criminosos.

Tais leis só poderiam ser criadas pelo Poder Legislativo, votadas em Congresso Nacional. Ou mesmo numa Medida Provisória assinada pelo Presidente Lula – corintiano e apaixonado por futebol – em casos emergenciais. Os episódios do ultimo domingo, em minha opinião, se enquadram nessa categoria. E quem sabe não se tornam uma espécie de Relatório Taylor.

É inevitável a comparação com o futebol inglês, que sofreu com o hooliganismo, clima tenso entre policiais e qualquer torcedor, seja ele hooligan ou comum, e as brigas dentro do estádio. Que só foram resolvidas graças a um pacote de medidas e leis para conseguir levar aos seus estádios verdadeiros torcedores.

Exemplificando algumas medidas que estão em vigor: o torcedor inglês é penalizado com a exclusão dos estádios e não fica fora apenas dos jogos na Inglaterra, mas também dos entornos (estações de metrô e pubs). Fica proibido até de sair do país, entregando seu passaporte na delegacia de polícia de onde vive antes de jogos internacionais ou da Seleção e só pode retirá-lo 30 minutos antes do jogo ou da final da competição. Além do mais, algumas das punições são enquadradas em crimes que chegam a 10 anos de prisão em regime fechado.

Tudo isso citado acima e mais um pouco, graças às ações conjuntas entre diversos órgãos (Ministério do Interior Inglês, National Criminal Intelligence Service, Scotland Yard, Football Association – a Federação Inglesa -, Football Licensing Authority) para o bem estar e a segurança do torcedor.

Daí, coloco duas questões:

+ Até quando veremos esse cenário no Brasil:
Organizada X Organizada X Polícia mal treinada + clubes mal preparados + falta de leis = Violência e Impunidade?

+ E quando veremos o seguinte cenário:
Leis + Policiamento eficiente + Vigilância = Segurança e Espetáculo?

Enquanto o cenário atual não for revertido, os torcedores poderiam sair cantando pelas arquibancadas:

Êeh! Oh oh! Vida de gado. Povo marcado, povo feliz…

*O autor do texto acima é o leitor Ricardo Teixeira, estudante e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Apesar de homônimo do presidente da CBF, ele parece mais preocupado com os problemas do nosso futebol do que certos dirigentes por aí.

O que você achou? Concorda com ele? Deixe sua opinião nos comentários e não esqueça: na próxima semana pode ser a sua vez de escrever no F&N.


Responses

  1. Concordo, mas no caso do Morumbi, apesar dos marginas que se dizem torcedores, o GRANDE PROBLEMA está na PM!!!

    Sou torcedor do Fluminense e, na Libertadores, apesar de termos sido MUITO BEM TRATADOS NA ARGENTINA, com escolta, do aeroporto ao estádio e na volta.

    No Morumbi, o que se viu foi a PM de São Paulo confiscando bens (camisas, bandeiras, faixas, instrumentos, isopores), jogando-os no chão e quebrando-os, em seguida.

    Isso revolta qualquer cidadão.

    Discutia-se e, então… TAPA NA CARA!!!!

    Mulheres foram agredidas dessa maneira!

    O Estado está falido!

    Mas o Gado, realmente, continua pastando…

  2. Excelente contribuição do leitor, o Ricardo sempre traz bons questionamentos a nós, titulares deste espaço, e em seu texto autoral traz uma provocação que, se não é nova, continua atualíssima, sobretudo com os últimos ocorridos.

    A principal questão é que a receita matchday foi absolutamente abandonada ao longo dos anos, sobretudo desde os anos 90 em uma múltipla relação causa/efeito como a explosão de violência e a deterioração das arenas, dentre outros fatores.

    É incrível, mas ir a um estádio é tão difícil e arriscado, pelo menos no aspecto percebido, que é incrível como alguém se sujeita a essas condições….e não é alfinetada em clube algum..quase todos oferecem serviços pra lá de precários.

    A canção do Zé Ramalho parece recém composta mesmo.

    Abraços,

    Robert

  3. Nicolau,

    Obrigado pelo comentário.
    A PM de SP é totalmente despreparada. Ela é truculenta e trata todos os torcedores como vândalos (nas ruas e dentro do estádio). Infelizmente, eu nunca fui a estádio algum fora do estado de São Paulo para saber o tratamento de outros policiais.
    Como eu disse, eles devem ser treinados e atuar fora do estádio. Dentro, a responsabilidade é do clube, que deve contratar agentes de segurança que consigam controlar pequenas situações que podem se tornar um caos.
    Lhe recomendo a ler o livro Rota 66, do Caco Barcellos. Não que seja verdade absoluta, mas é uma prova de como a polícia por aqui age.

    Robert,

    obrigado pelo comentário e elogio. Ainda bem que você entendeu que não era uma provocação ao São Paulo F.C. E sim para todos os clubes.

    Comparei a nossa atual situação à vivida pelos ingleses, que sofreram também com a baixa receita no matchday por quase uma década, que só foi solucionada com Arenas e essas medidas que citei no texto, para mostrar que ainda existe salvação.

    Nós temos que adaptar a nossa cultura e estilo o que eles fizeram por lá. Não copiar. E aproveitar a grande chance que temos com a Copa de 2014.

    Ainda há tempo. Resta um pouco de bom senso por parte dos mandatários do futebol (qualquer seja a esfera de poder).

    Abraços

  4. Na Inglaterra se um torcedor for pego bebendo no ônibus ele é preso na hora, é crime. E olha que lá eles permitem o torcedor beber nos estádios, o prolema é ele já chegar calibrado no jogo.

  5. Ricardo Teixeira (pelo que eu pude perceber pelo seu texto, se você estivesse no lugar do seu homônimo o nosso futebol estaria muito melhor, hehe),

    não é a primeira vez que eu ouço essa idéia de tornar os clubes responsáveis pela segurança dentro de seus estádios. Eu tenho uma pergunta prática a respeito disso: hoje em dia os clubes pagam alguma quanta por esse “serviço” prestado pela PM dentro dos estádios? Se não o fazem, acho difícil os clubes decidirem ter essa despesa extra ao contratar seguranças. Vão preferir continuar tendo a PM como bode expiatório, pois acaba sendo fácil botar toda a culpa em sua truculência. Mesmo porquê não é nenhuma novidade que ela é mal preparada.

    Um abraço.


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