Publicado por: João Carlos Assumpção | 14/fevereiro/2009

A intolerância e o futebol

Não vou entrar no mérito do caso da advogada brasileira Paula Oliveira, que disse ter sido agredida por três homens brancos de cabeça raspada na saída de uma estação de trem nas proximidades de Zurique.Seja lá qual for o desfecho do caso, nada justifica a campanha do partico suíço SVP, o Partido do Povo Suíço, que colocou nas ruas cartazes com ovelhas brancas expulsando as negras do país.

O que chama minha atenção são os relatórios de duas juntas de Direitos Humanos, uma em Viena, outra em Estrasburgo. Segundo reportagem do “Estadão”, após analisarem 11 países da União Europeia, em pelo menos oito nações o número de denúncias de violência racial cresceu nos últimos anos.

Não quero ser o profeta do apocalipse, mas com a crise mundial está evidente que as políticas anti-imigração cresceram e vão crescer ainda mais na Europa. É o caso da Itália, que tenta transformar os médicos em delatores de imigrantes ilegais que passarem por seus consultórios. É o caso da França, onde o atual presidente ganhou as eleições com uma campanha claramente contrária à presença dos imigrantes.

Pena que mais uma vez a xenofobia, o preconceito e o ódio racial ganhem força. E mais uma vez na Europa, que aparentemente nada aprendeu com a última Grande Guerra. Nem com as anteriores. A mesma Europa que aniquilou a África e hoje trata muito mal os imigrantes que buscam uma vida melhor no Velho Continente.

E qual a relação disso tudo com o futebol? É grande. Os jogadores estrangeiros devem sofrer cada vez mais discriminação, o que é uma lástima, mas têm de dar o exemplo, especialmente os que se saem bem em campo e, por isso, ganham o respeito dos torcedores. Eles podem ser mais engajados, já que têm um papel social relevante e viram celebridades por causa de suas atuações. Alguns acabam “embranquecendo” (ou até se tornando europeus) aos olhos dos fãs.

Torcedor do Zenit (Rússia) com uma máscara da Ku Klux Klan, organização racista dos EUA

Torcedor do Zenit (Rússia) com uma máscara da Ku Klux Klan, organização racista dos EUA: a xenofobia está presente nas arquibancadas (foto: Reuters)

Torcidas fascistas, nazistas, xenófobas, preconceituosas e racistas não são “privilégio” da Europa. Temos casos absurdos na América do Sul, em Israel, nos países árabes, nos Estados Unidos, na Ásia… Mas eles devem ser relatados e os responsáveis pelas atitudes racistas têm de ser condenados.

Em anos recentes vimos cenas lastimáveis em muitos estádios de futebol, estádios brasileiros, estádios europeus, estádios asiáticos… Acredito que veremos ainda mais a partir de agora. Cabe às autoridades combater quem está por trás delas.

Células neonazistas estariam apoiando torcidas de alguns clubes europeus, da Europa ocidental e do Leste Europeu também. Muitas vezes são encobertas pela direção dos clubes, como já se viu na Sérvia, Croácia e Eslováquia.

Já passou da hora de alguém se mexer. A chamada imprensa esportiva não pode ficar calada. Tem que apurar, investigar, denunciar, como estão fazendo alguns escritores, ligados ou não ao futebol.

É o caso de Dave Eggers, um dos mais brilhantes da nova geração de autores norte-americanos. Em 2004 ele foi um dos fundadores da organização “Voz das Testemunhas Oculares”, que produziu uma série de livros que usa a história oral para descrever atrocidades e iluminar a luta mundial pelos direitos humanos.

Para quem gosta de um bom livro, Eggers escreveu “What is the What”, relatando a saga de um garoto que viveu anos separado de sua família e em campos de refugiado por causa da guerra civil que devastou o Sudão.

Eggers fundou também a 826, um laboratório de escrita para jovens carentes – e alguns nem tanto -, atualmente presente em sete cidades norte-americanas, uma delas, Boston. Uma idéia, quem sabe, para ser exportada para o Brasil, afinal cultura e esporte são dois instrumentos poderosos de inclusão social. Mas isso – a exportação da idéia para o Brasil – é uma outra história, uma história que espero tenha um final feliz.

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Responses

  1. Ótimo post, Janca!
    E muito oportuno.

    Infelizmente o futebol tem sofrido com intolerâncias, com ou sem crise.
    Talvez pelo fato da paixão ser um elemento tão exacerbado no esporte mais popular do planeta.
    O que obviamente não justifica nenhum tipo de preconceito.

    A foto que eu coloquei é de uma matéria do Globoesporte.com de maio do ano passado.
    Vale a pena ler a reportagem e conferir o quanto o ser humano pode ser irracional…

    Técnico holandês do Zenit afirma: ‘Não quero negros na minha equipe’

    http://globoesporte.globo.com/Esportes/Noticias/Futebol/Copa_da_Uefa/0,,MUL467690-9844,00-TECNICO%20HOLANDES%20DO%20ZENIT%20AFIRMA%20NAO%20QUERO%20NEGROS%20NA%20MINHA%20EQUIPE.html

    Abs,
    Marcos Silveira

  2. Acho muito legal essa coisa do clube como agente social. O Botafogo, segunda-feira, lançou o projeto sobre o estádio olímpico que também contemplava uma ação social através de escolinhas para os esportes olímpicos. O clube também pretende extender essas medidas para outras partes das cidade, através do projeto estrela solidária, porem tudo ainda é muito embrionário

    A questão do Dick Advocaat tem a ver também com o fato da torcida do Zenit ter uma grande facção neo-nazista. O próprio Tymoshchuk, volante do time, nos tempos de Shakhtar Donetsk dizia não gostar de jogar com brasileiros.

  3. Com certeza esse é um daquelas assuntos que não podem cair no esquecimento. Qualquer um está sujeito a crimes como esse. Porém, a pergunta que me faço (e não devo ser a única) é como essas células criminosas pára-estado podem existir em países considerados modelos de nação? É lamentável. E quando um gringo é assaltado aqui no Brasil, por motivos claramente sociais (não que isso justifique), a imprensa internacional reforça a ladainha de falta de segurança que temos (o que não é mentira) mas acima de tudo toda a truculência inerente a esse lado do Equador. E ai, ainda temos de aguentar um governador pedir que não nos atentemos à publicidade italiana que colocou policiais cariocas agredindo modelos em uma campanha.

  4. Fernanda, mas no caso da advogada pernambucana na Suíça tudo indica que ela se automutilou e não estava grávida. Mesmo assim no futebol o pior e o melhor do ser humano aparece. Tive um amigo que foi agredido depois de um jogo em Nápoles só porque estava com a camisa do Real Madrid.

  5. Como o João escreveu, não se trata do caso da advogada na Suíça. Trata-se da xenofobia que está crescendo e também acho que tende a crescer cada vez mais em 2009 na Europa. É uma coisa muito preocupante e nossas autoridades têm de ficar de olho, inclusive com o que acontece na Espanha, que chegou a deportar uma brasileira que ia participar de um congresso em Portugal. Lamentável.

  6. Meu nome é Leonardo, faço 30 anos no mês que vem, sou advogado e comecei a acompanhar o blog de vocês no mês passado, os textos são muito interessantes, especialmente os do Santoro, os do Amir e os do Assumpção, que andava meio sumido. Gostei das dicas de livros.
    Depois de ler o post do Gustavo, resolvi me manifestar (não contra o Botafogo, mas pelo Vasco). Sou vascaíno e queria dizer que o Vasco faz um trabalho social muito grande desde os tempos do Eurico. Não sou defensor do ex-presidente nem do atual, que acho um grande ex-jogador, mas um dirigente despreparado. O Vasco é o único clube do Brasil a manter uma escola, formando alunos e não apenas atletas. Forma cidadãos, por isso merece respeito e é exemplo para outras agremiações do País. Sobre o Eurico e o Dinamite o que vocês, que entendem de administração, acham dos dois? Não haveria uma terceira via para o Vasco? Abraços do Leonardo.

  7. Esqueci de comentar o post do Marcos Silveira. Foi feio o que fez o técnico holandês, mas a Holanda é um dos países que mais respeitam os direitos humanos. Na Segunda Guerra, ofereceu muita ajuda aos judeus. Abraços do Leonardo.

  8. Leonardo,

    Eu já tinha ouvido essa história da esola em S. januário mas não os detalhes, agora me lembrei que o Cruzeiro tem algo semelhante na toca da raposa.

    São projetos que precisam acima de tudo serem copiados.

    E pra fechar a questão do Dick, ele jogou mais pra galera do que qualquer outra coisa. Ele treinou a Holanda em 94, que tinha Gullit, Rijkaard e outros negros

  9. André, justamente isso, estou falando de xenofobia, assim como tratou o post. Ainda não está provado ter sido auto-mutilação, mas como foi citado em um dos comentários, e os brasileiros deportados sem justificativa plausível?! Infelizmente o “cidadão” xenófobo não entende que o outro cidadão é um ser como ele. Ele vê diferenças abismais e se sente superior. Puxa o seu amigo com a camisa de um clube diferente, de um país diferente foi agredido e por “razões” assim, irracionais. Acho isso inadmissível.

    A propósito, alguém saberia me dizer se o Lazio tem raízes nazistas?! Aquela águia, daquele jeito que está no escudo me remete tanto a simbologia ariana defendida pelo nazismo.

  10. Ah sim, Leonardo. Bem lembrado, o Vasco possui mesmo essa escola. Também não sei dizer se é o único clube, mas certamente, essa é uma das atitudes que só acresce, ao time, a torcida e a sociedade.

    A propósito, sei que fizestes a pergunta para os blogueiros, mas como isso aqui é também um debate, me sinto a vontade para opinar, modestamente, falta profissionalismo aos dirigentes brasileiros. Tanto o Vasco quanto qualquer outro clube que sobreviva de gestões amadoras, ainda estará muito aquém do que realmente poderia ser.

  11. Fernanda, acho que já ouvi falar sobre facções nazistas dentro da torcida da lazio.

    e há um tempo atrás, o Paolo di Canio fez uma comemoração que remetia ao Heil Hitler

  12. Fernanda, achei um link super legal que vai te ajudar a entender a história da torcida da Lazio

    http://blogdobirner.net/2007/10/21/o-derbi-politico/

  13. Não é surreal que tenhamos esse tipo de discussão em pleno século XXI e ainda mais espantoso que essas atitudes primitivas, insensatas, ignorantes, nem sei como definir, apresentem uma frequência ainda maior em países ditos de primeiro mundo?

    Enfim, você abordou uma perspectiva interessante que é o esporte como fator inclusivo.
    Eu também vejo essa como a melhor maneira de olhar para esse problema e buscar uma solução.

    Mas o que temos aí é um sinal claro e cristalino de que o ser humano ainda precisa evoluir e muito. E o preconceito é um entrave do desenvolvimento e do relacionamento da humanidade.

    Agora, como sempre falo de Corinthians não poderia deixar de ser assim dessa vez… Talvez alguns considerem uma opinião um tanto quanto parcial, mas Celso Unzelte, certa vez, descreveu assim, nós, os alvinegros:

    “A torcida do Corinthians é maior? É melhor? Não sei, nunca contei. É diferente tenho certeza. O que sei também, é que um dos sonhos mais perseguidos pelo ser humano até hoje eu só encontrei no meio da torcida do Corinthians. É a IGUALDADE.”

    Concordo com ele. Fato que este foi um dos motivos que me fez apaixonar pelo Timão.

    Talvez falte mais Corinthians, mais preto e branco, nesse mundo de tantas cores.

  14. Gustavo, valeu pelas dicas e pelo site, já tá aqui engatilhado. Vou ler e volto pra comentar! 😉

  15. Obrigado pelos comentários de vocês todos. Penso como o Marco Aurélio e a Fernanda, xenofobia é o fim da picada e é inacreditável que continue a existir e a crescer em países ditos do primeiro mundo. Temo que o caso da brasileira na Suíça sirva para os suíços se fazerem de vítimas e não quero discutir o caso em si. Quero discutir outras coisas, como a votação expressiva de um partido que usa cartazes com claras conotações racistas e xenófobas num país como a Suíça. Lamentável.
    Concordo também com o Gustavo quando fala da importância de um clube exercer o papel de agente social, catalizador de mudanças na sociedade, mundanças positivas, claro.
    Quanto à questão que envolve a Lazio, tem uma parte da torcida que é fascista, sim. Lamentavelmente também.
    Abraços a todos, João Carlos

  16. Ops, esqueci de comentar o que escreveu a Lara, achei o texto bem interessante, é a vantagem de um time que abrange fortemente todas as classes sociais, como Corinthians e Flamengo.
    E esqueci também de responder a pergunta do Leonardo. O que acho é que a oposição do Vasco se preocupou muito _e com razão_ em tentar tirar Eurico do poder, mas não montou um projeto para quando chegasse lá. O resultado é o que estamos vendo agora, a oposição (agora situação) assumiu o poder, o time caiu para a Segundona e os dirigentes racharam, indo cada um para um lado. Seria importante que o Dinamite tivesse montado um projeto de comando, ele deveria ter se cercado de pessoas competentes, cada uma em sua área e agido diferente do que fez, como um cartola tradicional, o tipo de dirigente do qual estamos saturados.
    Mais uma vez abraço a todos e bom domingo, João Carlos

  17. João Carlos, obrigado pelo texto e pela chamada à reflexão sobre o tema.

    Não é preciso ser adivinho para entender que momentos de crise são terreno fértil para o protecionismo comercial, trabalhista e que isso serve de pano de fundo para o ressurgimento de idéias conservadoras, ditatoriais e xenófobas, e olha que o europeu gosta de uma ditadura, de um estado pai…sou filho de europeus, posso falar horas a respeito.

    O futebol na Europa tem alguns condimentos adicionais, como o torcedor se identifica com clube por aspectos regionais e culturais em sua maioria e se sente representado em seus valores culturais, nacionais ou regionais e étnicos o futebol acaba sendo um bom pano de fundo para essas manifestações de ódio, inclusive rememorando conflitos antigos e assim por diante; podem crer, acontecem coisas lá que fazem a rivalidade RIO-SPO, ou entre Corinthians e SPFC (não assisti pois estava no autódromo me exercitando) parecer um jogo de cara-e-coroa disputado por freiras.

    Quem quiser se aprofundar no tema sugiro este livro :

    FOER, F.; Como o Futebol explica o mundo:um olhar inesperado sobre a globalização, Rio de Janeiro-RJ, Jorge Zahar Editor, 2005.

    Abraços a todos,

    Robert

  18. Oi Robert, esse livro é interessante mesmo, eu estive com o Foer ajudando-o na marcação das entrevistas sobre a fase brasileira, ele tem um olhar interessante sobre o futebol, especialmente o europeu. E o irmão dele _Jonathan Foer_ tem dois livros sensacionais, um dos quais a gente encontra em português. Não são sobre futebol, nem sobre esporte, mas são fantásticos. Um deles tem o nome de Extremamente Alto, Incrivelmente Perto, se não me engano, é a história de um garoto que perde o pai no 11 de Setembro. O garoto é um figuraça. Abração, João Carlos

  19. Já tinha postado sobre isso anteriormente ( https://futebolnegocio.wordpress.com/2009/02/10/fnews-turismo-de-negocios-no-morumbi/ ) no qual se os dirigentes começam a falar demais, acabam colocando gasolina na fogueira e despertando situações ruins.

  20. filho da puta desgraçadooo se eu vejo um cara desses na minha frente eu mato cm certesa!!! resouvido o assuntoo!!!

  21. não podemos falar de racismo,pra que mais racistas do que nós brasileiros,e o caso do zenit,acho é bonito,pelo menos eles tem orgulho da raças deles,devemo lembrar que aqui no Brasil,também existe um time assim,o santos,por muito tempo previlegiava negros,e infelizmente isso nun ca mudou até joje.então cara para de falar asneiras,para de se preocuparcom os outros e comece se preocupando com o seu proprio pais.


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