Publicado por: João Carlos Assumpção | 24/janeiro/2009

Controle da Informação

Uma das preocupações que um clube deve ter é com seu departamento de comunicação. A comunicação bem feita pode significar um ganho enorme no tocante à imagem da instituição perante o público como um todo e seus torcedores em particular.

É interessante como, assim como se deu com o marketing esportivo, o setor de comunicação ganhou importância nos últimos anos. Hoje os técnicos dão suas coletivas e apenas alguns jogadores falam após o jogo, com os logos das empresas que patrocinam ou têm parcerias com o clube atrás.

Na Copa de 1986, craques como Sócrates e Casagrande eram acessiveis (Placar)
Em 86, craques como Sócrates e Casagrande eram mais acessíveis (Placar)

Muito diferente de outros tempos, como em 1986, quando fui à Copa do México como torcedor. Mesmo “moleque”, sem credencial nenhuma, tinha acesso aos treinos, aos jogadores e à comissão técnica da Seleção Brasileira. Era possível entrar na concentração, ver os jornalistas trabalhando, conversar com Telê Santana, Zico, Sócrates, Casagrande e cia., acompanhar, pela televisão, jogos de outras seleções ao lado desses ídolos mundiais.

O próprio Sócrates frequentava o hotel onde eu estava em Guadalajara, pois lá estava hospedada sua primeira mulher. Sentava-se e conversava com torcedores, tirava fotos com quem pedia, bebia um pouquinho, contava histórias do mundo da bola e histórias de vida.

Em 1994, nos EUA, o ambiente já era diferente. Eu tinha acesso, embora mais restrito, apenas porque estava trabalhando como jornalista.

Mesmo assim até hoje a Seleção Brasileira é uma das mais acessíveis à imprensa. Os ingleses, por exemplo, na Copa de 2002, eram liberados para entrevistas no máximo após um dos treinos da semana. Os argentinos chegaram a se recusar a dar declarações em inglês, provocando os rivais da Guerra das Malvinas ao dizer que, se não entendiam espanhol, azar. Jornalistas espanhóis comentavam que era mais fácil conversar com jogadores brasileiros do que com os da seleção de seu país, que nunca ganhou um Mundial.

Sou favorável a um departamento de comunicação forte, tanto para clubes quanto para confederações, mas tenho a tese de que um certo improviso é necessário e os responsáveis pelo setor devem saber disso. Se não fica tudo muito padronizado e chato, como as coletivas a que estamos nos acostumando a assistir nos últimos anos, com todo mundo falando quase a mesma coisa.

Os responsáveis pela comunicação devem saber que a espontaneidade, inclusive nas entrevistas, é necessária. Lógico que é importante mostrar um banner com os logos dos parceiros e dos patrocinadores do clube, por exemplo. Mas esse não é o ponto-chave. O ponto-chave é manter a graça do futebol, não deixá-lo tão pasteurizado, se não as coletivas serão cada vez menos vistas.

O ponto-chave é tentar fugir do óbvio. Fugindo do óbvio, teremos notícia. Um jogador esperto, com jogo de cintura, pode cativar seus torcedores e conseguir repercussão positiva.

É o caso do Marcos, que ganhou a fama de falar o que pensa e sente no Palmeiras. É o caso do Kaká, quando disse o famoso “fico” para o Milan. É o caso do próprio Muricy, que acaba usando seu estilo ranzinza como marketing pessoal.

"Mau humor" nas entrevistas virou marca de Muricy (Vipcomm)

Marketing? "Mau humor" nas entrevistas virou marca de Muricy (Vipcomm)

Cada um à sua maneira, são profissionais competentes – se não fossem eficientes e eficazes no que fazem não teriam espaço – que sabem driblar a imprensa, ganhar torcedores e virar notícia.

Para os atletas que estão em início de carreira ou para os que têm dificuldades de vender seu peixe, cabe uma orientação do setor de comunicação. Mas a orientação pode ser do tipo “seja você mesmo”. Pois quanto maior a tentativa de controle, maior a perda de liberdade e, consequentemente, da espontaneidade, e menor o espaço na mídia.

Há notícia, como uma divergência interna entre dois ou três jogadores, que é melhor tentar abafar? Há, claro. Só que isso não quer dizer que tudo tenha de ser controlado, padronizado, pasteurizado.

Um lugar, por menor que seja, para a improvisação ainda tem que existir. E cabe aos responsáveis pela comunicação de um clube, de uma seleção ou de uma confederação entender isso.

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Responses

  1. Romário que o diga!

    Todo mundo parava pra ouvir as entrevistas do Romário, e ele sim, falava o que pensava.

  2. Tem razão o Thiago e tem razão o João Carlos. Estamos todos de saco cheio dessas coletivas sem graça e estereotipadas. O público não vê e os patrocinadores, para os quais vocês dão tanta importância, perdem espaço. Alguém aguenta ouvir jogador de futebol falando sempre a mesma coisa? Eu não. André

  3. Tava acompanhando aqui o comentário do André e queria completar com uma questão: a culpa também não é dos repórteres que perguntam sempre a mesma coisa? A Imprensa Esportiva está cheia de incompetentes, por isso quem tem um mínimo de preparo humilha os repórteres. Três casos: Muricy, Luxa e Leão. Falou, Alê

  4. Faltou dizer: bela foto, João. Que tempos bons, Sócrates e Casão na Seleção. Bom saber que o acesso era mais fácil, os tempos eram outros. Lembra do Sócrates lutando contra a ditadura, defendendo as Diretas Já? Hoje não daria, era do Politicamente Correto é a era do ninguém pode falar nada. Tem que dizer: vamos respeitar o adversário e fazer nosso melhor pra ganhar o jogo. Mais do que isso, bronca do marketing. Saudades do Baixinho também como escreveu o Thiago. Falou, Alê

  5. Respondendo aos amigos, é verdade, também acho que Romário falava o que pensava e conseguia uma repercussão enorme não só por sair do lugar comum dentro de campo, mas também fora dele.
    Quanto à questão levantada sobre a competência dos repórteres, temos que tomar o cuidado para não generalizar. Há muitos repórteres preparados e competentes, sim, embora, de fato, haja aqueles que não têm preparo, não lêem, escrevem e falam mal, não têm bagagem cultural e acabam tendo um desempenho pífio.
    Abs. e bom dia a todos, João Carlos

  6. Oi João, gostei das suas idéias e dos seus posts. Parabéns.
    Sou estudante de psicologia e tenho notado uma coisa que as TVs, principalmente a Sportv, onde você trabalha, está fazendo. Na hora das coletivas, elas mostram só o rosto dos caras, dos técnicos e jogadores, uma imagem muito feia. É para não mostrar o logo dos patrocinadores? De quem vem a ordem para fazer isso? Ou é só impressão minha?
    Imagino que não e você pode me esclarecer. Porque os clubes, percebendo o que se passava, começaram a colocar o logo do principal patrocinador no microfone para vocês não terem o que fazer.
    Você não acha que isso cria um problema para o telespectador, que fica com uma imagem pavorosa em casa?
    Um abraço para você e para todos os colaboradores desse Blog, que melhorou muito em 2009.

  7. Oi Fabiano, na verdade eu me desliguei do Sportv na primeira semana de janeiro para me dedicar a um projeto pessoal, vou escrever um livro e passarei parte do ano no exterior. Enfim, já que não estou mais lá, não posso responder pelo canal, onde deixei grandes amigos e que conta com excelentes profissionais.
    Sobre a questão da imagem à que você se refere, eu concordo quando diz que é feia uma imagem fechada no técnico ou no jogador. Imagino que o telespectador fique mesmo insatisfeito com o resultado, uma imagem um pouco mais aberta seria melhor, pelo menos é o que eu penso, embora respeite quem não concorde comigo. Abs. e boa semana a todos, João Carlos

  8. Ah! E em relação ao comentário do Alê sobre a foto do Sócrates com o Casagrande quem a escolheu e a colocou na página não fui eu, mas o Marcos Silveira. O mérito, portanto, não é meu. E é uma foto muito legal mesmo, de duas pessoas que marcaram o esporte brasileiro dentro e fora do campo. E saíam como saem até hoje do lugar comum. Abs. de novo, João Carlos

  9. João Carlos, legal a questão levantada.

    Um dos primeiros sustos que tomei quando comecei a pesquisar o futebol, como negócio, foi a absurda pobreza da comunicação institucional dos clubes brasileiros, que a meu ver ainda predomina. Assunto este que discuto em aula, sempre recheada de profissionais de comunicação que me ajudam muito nessa hora.

    Parece, e tem gente que não curte ouvir isso, que a simples divulgação de notícias diárias (tem assunto pra tanto?) sobre o clube já seria suficiente, o que certamente não é, imprensa não é veículo de propaganda !!!!! São papéis tão distintos que não dá nem pra vincular….mas pra quem observa de fora…vê que parece que o clube já se satisfaz, por puro despreparo, com essa “mídia”.

    Concordo que é necessário um depto. de comunicação forte, assim como um de marketing; e que ele deva ter sob sua responsabilidade a promoção, componente do marketing mix, do produto futebol e associação ao clube.

    Abraços,

    Robert

  10. Obrigado pelo comentário, Robert, penso exatamente como você. Alguns clubes pensam que um assessor de imprensa apenas para cuidar das coletivas, dizer quem vai falar, quem não vai ou dar a escalação da equipe para as emissoras de rádio e tv é o suficiente, quando a comunicação exige muito mais do que isso. Abração, João Carlos


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