Publicado por: Maurício Bardella | 19/janeiro/2009

1972 – Viagem no Tempo

Amigos, é com prazer que volto a escrever em nosso blog, revigorado pela presença de novos e importantes colaboradores. Espero que tenhamos sucesso em nossa tentativa de suscitar discussões e inovar nos pontos de vista, com a colaboração de nossos assíduos leitores.

Ontem, domingo, eu “zapeava” pelos canais abertos quando me deparei com imagens antológicas, para dizer o mínimo. A TV Cultura de São Paulo passava em seu programa “Grandes Momentos do Esporte”, na íntegra, o videotape de Brasil e Portugal, final da Taça Independência de 1972!
Foi impossível desgrudar meus olhos da TV, especialmente porque, ainda muito criança, assisti a essa partida e vibrei com a vitória brasileira. Trinta e sete anos depois tive a chance de, pela primeira vez, rever esse jogo e quero dividir com vocês algumas das coisas que despertaram minha atenção.
 
Mas antes uma pequena retrospectiva: a Taça Independência de 1972 foi disputada no Brasil, em comemoração aos 150 anos da independência, e na época foi chamada de Minicopa. Participaram do torneio, além do anfitrião, as seleções da União Soviética, Uruguai, Escócia, Tchecoslováquia, Irã, Argentina, França, Chile, Portugal, Paraguai, República da Irlanda, Colômbia, Peru, Bolívia, Equador, Venezuela, Iugoslávia, Seleção da CONCACAF e Seleção da Confederação Africana de Futebol.

Taça Independência de 1972

Taça Independência de 1972

 

 

A final foi disputada em 9 de julho de 1972, no Maracanã, e o Brasil venceu com um sofrido gol aos 44 minutos do segundo tempo, marcado por Jairzinho, após um centro de Rivelino. Curiosa ironia que a final do torneio em comemoração ao 150º aniversário da independência tivesse exatamente o confronto entre Brasil e Portugal, antigas colônia e metrópole…

 

Dois países que em 1972 viviam dias sombrios, governados por implacáveis ditaduras. Não é novidade que o governo militar brasileiro se apropriava da Seleção e de suas vitórias, dentro do esforço de legitimação de sua existência; também vale lembrar que aqueles eram os anos do “milagre econômico”, em que o país alcançava grandes taxas de crescimento, e que a manipulação da opinião pública, ajudada pelo futebol e pelos índices positivos, era ainda mais facilitada pela implacável censura. A classe média vivia dias felizes enquanto o governo cassava direitos políticos, mantinha presos clandestinamente e desaparecia com seus opositores; no futebol, acreditávamos ser uma potência imbatível após a conquista do tricampeonato e mal sabíamos que passaríamos vinte e quatro anos sem um título mundial, que nossos clubes entrariam em um processo crônico de endividamento (do qual não se livraram até hoje) e que a conta do milagre econômico seria paga nas décadas seguintes, com recessão, desemprego e hiperinflação…

 

Aqui faço uma observação: para mim a Seleção sempre foi um produto, que no entanto servia em outros tempos a interesses tão ou mais perversos, tais como a manipulação ideológica da opinião pública.

Dentro das quatro linhas, vi um time com jogadores espetaculares, ainda que não contasse mais com Pelé: Leão, Zé Maria, Brito, Vantuir e Marco Antônio (Rodrigues Neto); Clodoaldo, Gérson (despedindo-se da Seleção) e Tostão; Jairzinho, Leivinha (Dario Maravilha) e Rivelino.

 

Um time fantástico que deve ter realizado uma partida exuberante, certo? Errado… Na verdade o jogo foi modorrento, como muitos dos jogos da época, e digo isso para desmistificar a imagem que trazemos na memória ou que apreendemos ao ler textos antigos e ouvir jornalistas da época: o futebol dos anos 70 havia se tornado muito chato! Percebo isso sempre que assisto a um videotape da época; o que mais me chamou a atenção foi a gritante diferença do preparo físico dos jogadores em comparação aos jogadores de hoje, o que fazia com que houvesse mais espaço, ao mesmo em que o jogo se tornava muito mais lento.

Claro que a categoria dos craques era assombrosa, mas a condição física e os esquemas táticos faziam do jogo um desfilar da bola pelas intermediárias, com poucos lances agudos de gol e com a predominância de chuveirinhos e dribles sem produtividade. Agora, reconheço que quando um craque tinha a chance de dar um drible e fazer um golaço, o futebol valia a pena ser visto, assim como tenho certeza que Rivelino e Tostão (para ficar apenas nesses exemplos) seriam grandes craques hoje também, a despeito dos espaços raros em campo. Por outro lado a violência era muito maior e as entradas desleais eram toleradas pelos árbitros. Ser craque naquela época não era tão fácil como pode parecer…

Outro aspecto muito interessante foi ouvir a narração da partida. Como era comum na época, as emissoras de TV compartilhavam entre si as transmissões e seus times de locutores e comentaristas ocupavam-se de uma parte do jogo (as rádios faziam o mesmo). Assim, essa transmissão foi dividida em períodos e nos primeiros trinta minutos a dupla Walter Abrahão (com seu impagável e inesquecível placar “ocho”, ou seja, 0x0…) e Rui Viotti assumiu o microfone, sendo substituída por Raul Tabajara e Luiz Mendes. Os trinta minutos finais couberam a Geraldo José de Almeida e João Saldanha! Quem é jovem e não conhece precisa ouvir essa dupla, que dava aulas de transmissão esportiva, com os bordões de Almeida e a sinceridade agressiva de Saldanha. Um show!As imagens em preto e branco traziam uma inovação tecnológica: uma cãmera mostrava detalhes ao nível do gramado, mas sem “replays” e closes dos jogadores. Curiosamente, a câmera que tentou captar a vibração do presidente-general Médici nas tribunas, após o dramático gol do Brasil, conseguiu mostrar apenas uma imagem escurecida e nebulosa em razão da má iluminação e das limitações técnicas de então, conferindo à imagem, de uma forma não intencional, o caráter sombrio daquele evento criado e explorado pelos ditadores.

Às margens do campo nenhuma, absolutamente nenhuma placa de publicidade. Essas só podiam ser vistas nas arquibancadas, fora do foco das câmeras. Tampouco havia patrocínios na Seleção (e nem nos clubes), e a receita tinha que vir mesmo da bilheteria. Por sinal, 99.100 pessoas assistiram àquela decisão no Maracanã. O fornecedor de material esportivo da então CBD, uma empresa paulista chamada ATHLETA, mal estampava seu logotipo nas camisas de treino.

Nas arquibancadas, pude ver em um rápido “take” mostrando uma faixa da Torcida Uniformizada do Palmeiras ao lado de outra faixa, esta pertencente à torcida do Corinthians… saudosos tempos em que a rivalidade não explodia em conflitos de gangues.

Enfim, para mim foi muito bom assistir a esse jogo, após tanto tempo. Sempre acho interessante reviver o passado não apenas pelo apelo nostálgico, mas como uma fonte de comparação e aprendizado. O mundo era diferente em 1972, e o futebol, como não poderia deixar de ser, também o era.

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Responses

  1. Welcome back, Maurício!

    Narrativas como essa enriquecem muito nosso debate, principalmente quando podemos olhar pra trás para avaliar a evolução do futebol.

    Abs,
    Marcos Silveira

  2. Maurício, muito legal seu texto; realmente o mundo mudou….a fruta que compramos no supermercado não é a que se pegava no pé por cima do muro do vizinho assim como alguém da família, ou eu mesmo, ia pegar um avião pro exterior era um evento extraordinário, ia a família toda, coisa que vivenciei muito, filho de estrangeiros que sou e que confesso que nunca gostei muito…mas somos latinos, coração na paelleira de mamá e na ponta da chuteira.

    Tirando o aspecto nostálgico da coisa, o mundo ficou plano, a Seleção Brasileira joga mais no Emirates que no Maracanã e a necessidade do pertencimento é preenchida pelas torcidas organizadas, empobreceram-se as relações humanas mas temos mais possibilidades que nunca hoje no país e no mundo nos campos político, econômico e, otimismo meu, no social, vivamos o melhor disso tudo e, como você diz, aprendendo com o legado.

    Abraços,

    Robert

    Considero louvável rever o passado com

  3. Muito legal, Maurício.
    É bem rever um jogo anos depois, ainda mais quando éramos crianças.

  4. Ta faltando divulgar o horario em que o jogo aconteceu no dia 09 de Julho de 1972 para a informação ficar completa. Se vê que é de noite, mas que horas? 19h00min? 20h00min? 21h00min? Que horas????????????????


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