Publicado por: João Carlos Assumpção | 16/janeiro/2009

Brasil X Portugal

É com imenso prazer que eu recebi o convite do amigo Marcos Silveira para colaborar com o blog, que tende cada vez mais a se transformar num fórum de discussões para os interessados na economia do esporte mais globalizado que existe.Quando trabalhava na Folha de S.Paulo, fui o primeiro responsável, ao lado do jornalista Marcelo Damato, pelo Painel FC, cuja idéia era contar os bastidores do mundo da bola e se tornou, com o tempo, uma das colunas esportivas mais lidas do país.

E, com o passar dos anos, o assunto foi ficando cada vez mais interessante, daí a importância de abordarmos e discutirmos o “negócio futebol”.

Lendo ontem post do João Frigerio, que reclama de no Brasil ninguém respeitar lugar marcado em estádio, lembrei da primeira Copa do Mundo que presenciei in loco.

Foi em 1986, no México. Não, não sou tão velho assim, não estava trabalhando, cobri, a trabalho, os Mundiais de 1994 a 2006, quatro consecutivos, em 86 era um “mero” torcedor, um garoto deslumbrado com sua primeira Copa.

Houve um jogo, Portugal x Marrocos, se não estou equivocado, em que uma turma de brasileiros chegou cedo ao estádio, sentou-se aonde queria até que, faltando 5 minutos para o início do jogo, um grupo de portugueses apareceu.

Tinham lugares marcados bem onde estavam os brasileiros, que se recusaram a deixar o local. Moral da história: a discussão terminou em pancadaria. Os brasileiros ganharam a briga, mas perderam o lugar, já que a polícia interveio e quem tinha razão era a torcida portuguesa. Lugar marcado é lugar marcado, pô!!!

Só que, por causa de toda a confusão, os brasileiros decidiram se vingar e começaram a torcer para Marrocos, que venceu o jogo.

Após eliminar Portugal na fase de grupos, Marrocos perdeu pra Alemanha nas Oitavas

Após vencer Portugal, Marrocos perdeu pra Alemanha nas Oitavas (Fifa.com)

Caçoaram tanto dos portugueses na saída do estádio que acabaram se envolvendo em nova pancadaria. Moral da história 2: aí sim uma turma acabou sendo detida e teve de passar a note na delegacia.

Moral da história 3: como eu, meu irmão e um amigo ficamos no lugar que de fato era nosso, acompanhamos tudo à distância, pudemos ver o jogo em paz e saímos ilesos do estádio em Guadalajara.

A pergunta que faço desde então: não se trata de uma questão cultural? Brasileiro acha que quem chega primeiro ao estádio pode sentar onde quiser. Europeu e norte-americano pensam de outra forma. Para eles, lugar marcado é lugar marcado. É claro que o sistema deles é o correto, mas será que não estamos começando a evoluir nessa questão?

Anúncios

Responses

  1. João Carlos, muito bom o texto que retrata esta experiência que você teve no México.

    A questão do lugar marcado é polêmica e complicada; prestar o serviço sem essa qualidade virou referência e o aspecto cultural é a mais confortável desculpa para que se continue prestando um serviço tão ruim ao torcedor, resultado, estádios vazios, os números não mentem.

    Além disso, temos a indigesta questão das torcidas organizadas , que tem tentáculos insidiosos na política dos clubes.

    Se quisermos atrair um público mais qualificado e demandante, há de se investir no conforto e na conveniência e o assento marcado é um dos caminhos para tal, além disso, o que mais me chama a atenção é que isso não é só um aspecto mercadológico, é lei ! Mas a lei no Brasil….também deve ser só cultural.

    Abraços,

    Robert

  2. Robert, concordo com você. Infelizmente lei no Brasil muitas vezes é uma coisa apenas cultural. Não é respeitada. Só que vejo melhoras de 1986 para cá. Se você colocar aqueles caras que te indicam o lugar eles podem chamar um guarda e tirar quem estiver ocupando seu lugar. Mas aí deixo uma outra pergunta para vocês: o policiamento do estádio é dever do Estado ou vocês não concordam comigo que deveria ser feito por particulares, uma empresa contratada pelo clube mandante?
    Abraços para você, Robert, e para o João Carlos e o Marcos pela iniciativa de postar o texto e de reativar o blog. Alexandre

  3. Robert e João Carlos, parabéns para vocês dois. Estudei marketing esportivo na NYU quando o assunto estava começando a ser comentado no Brasil. Um blog é uma ferramenta muito útil para todos nós interessados no assunto. Escrevo para vocês dois, embora mande meus parabéns para todos ligados a este blog, que já, já vira referência nacional, pelo seguinte: gostei da mescla dos textos de hoje. O do Robert é mais acadêmico, imprimi para ler e reler. O do João Carlos, mesmo tratando de outro assunto, é mais coloquial. Coloca uma questão interessante, o problema é cultural, sim senhor, e conta uma história curiosa. Minha sugestão é que façam sempre assim, mesclem um texto com o outro. Pelas minhas contas, o João Carlos foi para cinco Copas do Mundo, se é que não foi para a de 90, experiência prática não deve lhe faltar. Por que não conta mais histórias como essa? Como foi cobrir uma Copa do Mundo? Houve diferença de 94 para 2006? Esse blog tem tudo para emplacar. Parabéns a todos os colaboradores e ao Marcos. Em nome de quem ama marketing esportivo, não parem com a iniciativa. Escrevam sempre. Bjs. Andrea Chabassis Marques

  4. Perguntar não ofende: João, não foi você quem cobriu pela Folha aqueles suicídios em massa em San Diego? Eu sou a Dani, que te ajudou a chegar no restaurante da “última ceia”. Lembra de mim? Estava para entrar em contato faz tempo, queria fazer o curso no Comunique-se e vi que você vai estudar na Europa, acho que no próprio site do Comunique-se. História pra contar você tem de monte. Não deixe tudo pro livro, vai desovando aqui no blog. Volto para os EUA na semana que vem, me mande um e-mail se for para a Califórnia. Para quem não sabe, aproveitando as discussões levantadas, nos EUA é tudo respeitadinho, mas no Brasil está melhorando. No cinema você marca seu lugar e ninguém tira você de lá. Nos estádios de futebol também pode ser assim. Um dos maiores entraves não é o cultural, quem levantou muito bem a questão foi o Robert. As organizadas ocupam o lugar que querem, não deixam ninguém ver o jogo sentado. O problema dos lugares numerados passa por aí, ainda mais se o Brasil quer ser a sede da Copa de 2014. Bjs. Dani

  5. Vou pela ordem, enquanto a “Favorita” está no intervalo.
    Primeiro obrigado ao Robert pelo comentário, assino embaixo de tudo o que você escreveu. E as uniformizadas, muitas vezes com relação com a cúpula dos clubes, são um dos problemas que temos. Mas é fundamental investir no conforto e marcar os assentos.
    Em relação à pergunta do Alexandre, era uma discussão que tínhamos na Folha. A segurança interna, pelo menos penso assim, deveria ser responsabilidade do clube mandante, inclusive no sentido de contratarem empresas privadas. Já a externa não.
    Queria agradecer pelos comentários da Andrea e dizer que, sem dúvida nenhuma, os textos do Robert têm mais conteúdo. Jornalista, como brincava o Marcos outro dia comigo, é especialista em generalidades, ou seja, em nada _risos. Mas tenho boas histórias para contar, sim, pouco a pouco posso colocá-las no blog. E não fui à Copa de 90, não.
    Finalmente eu me lembro de você, sim, Daniela, e do trabalho que me deu aquela cobertura. Eu era correspondente-bolsista da Folha em Nova York, tinha amigos do Jornal da Tarde hospedados em casa, quando estourou a história de San Diego fui correndo pra lá. Se não me engano foram 38 os mortos, mas tenho que consultar meus arquivos. E todos morreram com tênis de marca, não me lembro o porquê, só sei que achavam que o mundo ia acabar…
    Abraços a todos que vou ver o final da novela e depois seguir pro cinema, João Carlos

  6. Seja bem-vindo, Janca!

    O blog vai ganhar muito com essas histórias pitorescas e com sua experiência.

    Além de ser muito bom ter mais um “especialista em generalidades” (que também pode ser “tudo”! hehe) por aqui.

    Abs,
    Marcos Silveira

  7. Obrigado pelas palavras, Marcos, e não perca “O Curioso Caso de Benjamin Button”, é um daqueles filmes épicos, cheguei do cinema agora.

  8. Sobre a questão dos assentos. Em 2001 ou 2002 fui à Itália e passei alguns dias em Portugal. Em Portgual fui ao cinema que em estrutura física era igual ao brasileiros, mas a surpresa foi que havia lugar marcado, como no teatro. Eu e minha esposa compramos os ingressos e quando entramos no local fomos “guiados” por um lanterninha. Achei muito interessante. Até hoje, pelo menos onde moro, em Brasília, mesmo com vendas pela internet e compra antecipada de ingressos nada mudou e luta pelos locais de assento continua a mesma.

    Isso só foi uma ilustração sobre lugares marcados.

    Outra experiência que tive, mas em um estádio. o Mané Garrincha, em Brasília. Era o jogo do Gama contra o Flamengo. Não me lembro o ano, mas o Fábio Baiano fez um belo gol.

    Comprei cadeira. Quando cheguei ao estádio com meu sogro e fui entrar, descobri que as cadeiras estavam lotadas. Como se eu havia comprado ingresso e outras dezenas de pessoas estavam de fora?

    Não pude entrar, afinal quem guardava a entrada era a PM. Tentei entrar na arquibacanda com meu ingresso de cadeira. O PM não queria deixar, mas acho que ficou com pena e entrei. A arquibacanda lotada e tive que ficar nas escadas, atrapalhando a circulação.

    Resultado: nunca mais fui ao estádio em Brasília.

    Sou totalmente favorável ao lugar marcado no estádio. Não vejo sentido em ter que chegar 3 horas antes de uma partida para garantir lugar ou pegar o melhor. Quero ver como a organização aqui no Brasil fará para a Copa de 2014.

  9. Para a Andréa e Janca : sem essa que meu texto tem mais conteúdo , é apenas outra orientação, outra forma de construir conhecimento que precisa da prática e conhecimento do Janca e de todos vocês pra ganhar legitimidade, além disso, grato pelos comentários. Aqui só tem gente boa escrevendo e comentando, só sou mais um.

    Para o Gilson : interessante relato que demonstra o que não deve ser feito, como não tratar o consumidor, resultado? O Gilson não se sente mais atraído pelo produto pois foi destratado.

    O profissional de marketing mais avançado deve se preocupar com a experiência que o cliente teve ou vai ter e configurar suas atividades para que ela seja positiva; muitos clubes que se orgulham de seu marketing negligenciam essa questão, o resultado aí está.

    Abraços,

    Robert

  10. Concordo com o Robert sobre a questão levantada pelo Gilson. Relatos como o dele são inúmeros. Lendo o que ele escreveu, lembrei-me de um jogo do Corinthians em São José do Rio Preto no ano passado. O adversário era, se não me engano, o Rio Preto, jogo pelo Paulistão. Havia tanta gente com ingresso na mão fora do estádio que era um absurdo só. Alguns torcedores pegaram fila de mais de duas horas e só entraram no local com o jogo em andamento.
    Sem assento marcado e lugares adequados para o sujeito entrar no estádio _e depois sair_ não há condições. O produto perde seu consumidor. Pelo menos no estádio a tendência é o torcedor não voltar mais. Abs. João Carlos


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: