Publicado por: Amir Somoggi | 10/outubro/2008

A crise global e o futebol brasileiro

Com o aprofundamento da crise financeira global, uma questão importante começa a ser levantada e somente essa semana fui questionado por três diferentes veículos de comunicação sobre qual é o efeito da atual debilidade dos mercados para o futebol brasileiro?

 

 

Inicialmente temos que compreender que a crise já chegou ao Brasil, e deve se acentuar, ocasionando perdas para o país e obviamente o futebol brasileiro, que está inserido nesse contexto será afetado, mas a dúvida é saber com qual intensidade.

 

Analisando as finanças dos clubes brasileiros percebe-se a dependência extrema das entidades por poucas fontes de receitas já que para grande parte dos clubes, seus orçamentos são muito dependentes das transferências de jogadores para o exterior, dos contratos televisivos e cotas de patrocínio.

 

Assim com a  retração no mercado internacional podemos realmente ver clubes exportadores de matéria prima em grandes dificuldades, fato que já ocorreu em anos anteriores e causou um rombo nas contas de muitas entidades. As cotas de TV que já estão negociadas para os próximos anos não devem afetar muito as finanças dos clubes, já que os valores já estão garantidos. Mas por outro lado a emissora que detém esses direitos pode sofrer dificuldades para negociar melhores renovações com os anunciantes, já que existe um risco sério de recessão e isso pode afetar o budget de marketing / comunicação das marcas.

 

Caso essa dificuldade se confirme, os clubes terão problemas caso necessitem antecipar valores futuros dos contratos de TV, prática bastante comum no mercado nacional, o que pode dificultar bastante a gestão de cada clube tomador desses empréstimos.

 

 

Com relação aos patrocinadores há um sério risco de empresas reduzirem seus investimentos em marketing ou não estarem dispostas a pagar valores maiores para os próximos contratos. Tanto no caso de empresas multinacionais por conta da crise em seus países de origem, como as brasileiras que podem sofrer com o desaquecimento do mercado doméstico. Assim os clubes podem ter dificuldades de renovar em melhores condições seus acordos e também sofrerem para antecipar valores futuros, fato corriqueiro no mercado do futebol. Esse risco é real e pode se acentuar por conta do baixo desenvolvimento dos projetos comerciais entre os clubes e as empresas, já que infelizmente todos fundamentam o retorno do investimento em discutíveis relatórios de mensuração de mídia.

 

Um outro dado que pode impactar os negócios dos clubes e do mercado como um todo é o desaquecimento do consumo do torcedor em torno do futebol, já que se o consumidor sentir que a crise faz parte de sua vida, pode inevitavelmente gastar menos na compra de ingressos, produtos e serviços, o que pode afetar diretamente a cadeia produtiva da economia do futebol.

 

Um dado preocupante também para os clubes brasileiros é a elevação dos custos de concessão de crédito, já que muitas entidades buscam nos bancos a solução de curto prazo para o equilíbrio do fluxo de caixa e também pelas dívidas, que são atualizadas monetariamente. Esse ambiente de dificuldade pode fazer com que as despesas financeiras se elevem ou até as entidades tenham dificuldade de ampliar suas linhas de crédito com seus bancos.

 

A questão do crédito também pode afetar nesse momento a negociação de projetos para reforma e construção dos estádios aqui no Brasil, já que com a dificuldade de captar recursos no mercado internacional e pelo alto valor dos juros no Brasil, muitas empresas podem rever seus planos de investimento nesse segmento e esperar a turbulência financeira passar para voltar a discutir o assunto com o mercado.

 

Em suma há vários indícios que a crise pode afetar o mercado brasileiro de futebol e nesse momento os clubes devem buscar um controle rígido dos custos e trabalhar ativamente em ações criativas de marketing, a fim de reduzir os riscos de uma desaceleração de seus negócios. A solução para minimizar os efeitos da crise é planejar corretamente o orçamento de 2009 e implementar projetos concretos de maximização de receitas, considerando os diferentes cenários futuros.

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Responses

  1. Finalmente chegou a hora de os clubes se darem conta que não sobreviverão se não procurarem formas inovadoras para aumentarem suas receitas. É hora de olharem com mais carinho ao licenciamento de suas marcas. É hora de perceberem que marketing não é propaganda, mas sim planejamento com criatividade. É hora de serem racionais e profissionais ao invés de permanecerem no papel de torcedores apaixonados. Quem não fizer isso, pode não chegar à copa de 2014.

    Olá Georgios,

    Realmente um ambiente de crise como esse pode ser muito útil para os clubes diversificarem suas atividades de marketing, a fim de reduzirem o risco da ampliação dos déficits se não fizerem nada.

    A direção de cada clube deve instituir uma gestão absolutamente racional, frente às dificuldades que virão.

    Um abraço.

    Amir

  2. Olá Amir,

    Finalmente veremos qual clube realmente é administrado profissionalmente. Muito mais importante que o marketing, a gestão será ainda mais essencial para o futuro dos clubes brasileiros. Quem não trabalhar dentro de um planejamento estratégicamente elaborado terá sérios problemas.

    O marketing, por sua vez, deverá deixar de ser um amontoado de ações pontuais para tornar-se parte integrante de um Planejamento de Comunicação que englobe tanto o marketing quanto os relacionamentos estratégicos.

    Crise pode ser igual oportunidade, mas infelizmente não acredito que será assim no Brasil nos próximos anos.

    Parabéns pelo post.

    Abraço

    Olá Ricardo,

    Obrigado pelo comentário.

    Concordo plenamente com você e se os clubes imaginarem que em 2009 haverá expansão do mercado internacional na aquisição de seus jogadores e mantiverem a evolução atual dos gastos, seguramente sofrerão pesadas perdas.

    Acredito que o modelo de administração praticado pelos clubes brasileiros é extremamente frágil em momentos como o que estamos vivendo, já que dependem de poucas fontes de receitas, posssuem baixa evolução do marketing e elevadas despesas, fechando a conta somente com a venda de atletas.

    Um abraço.

    Amir

  3. É doentia a dependência dos clubes brasileiros com vendas de atletas, se clubes de fora diminuissem a compra de jogadores brasileiros, seria motivo para os torcedores comemorarem.
    Infelizmente, no Brasil essa dependência é vista como positiva.

    Olá Felipe,

    Se os clubes estrangeiros diminuirem os investimentos em jogadores brasileiros, os torcedores verão seus clubes quebrados e sem condições em muitos casos de manterem os salários dos atletas em dia.

    O mercado brasileiro infelizmente no atual cenário não pode abrir mão dessa receita, por isso que uma crise como essa pode ser realmente danosa para os seus negócios.

    Um abraço.

    Amir

  4. Olá Amir,

    Quais seriam possíveis projetos comerciais entre os clubes e as empresas?

    Atenciosamente

    Olá Fábio,

    Há uma série de oportunidades de ativação de patrocínio entre os clubes e seus parceiros.

    Essas ações comerciais vão desde projetos de marketing entre o clube e seu patrocinador técnico, seu patrocinador oficial e também parceiros institucionais/comerciais que se associariam ao clube em busca desses projetos comerciais.

    Na Europa e EUA muitas empresas se associam aos times não apenas para colher benefícios de visibilidade, mas também para se relacionarem com seu público-alvo e por consequência desenvolver inúmeras ações comerciais.

    Um abraço.

    Amir

  5. Amir,

    Você poderia me disponibilizar alguns materias a respeito para eu estudar? Pode ser em inglês.

    Um grande abraço,

    Olá Fábio,

    Indico o livro Marketing And Football: An international perspective, disponível na Amazon.com que tem um capítulo inteiro somente abordando o conceito de Co-Marketing entre clubes e patrocinadores.

    Eu escrevi um capítulo no livro sobre os negócios no futebol brasileiro.

    Um abraço.

    Amir

  6. Amir,

    Parabéns pelo blog!! É bom perceber que podemos ainda ler e absorver conteúdos como os seus.

    Sou um apaixonado por futebol e me interesso muito pelos bastidores, negócios e estruturas comerciais do futebol.

    É difícil encontrar livros e autores que realmente tenham credibilidade e conhecimento específico sobre o assunto sem que nos deparemos com centenas de outros títulos de procedência duvidosa.

    Você indicaria, além do título acima, outros livros que discutem sobre o assunto nos dias de hoje???

    Seria melhor, para mim que estou começando, escolher livros que descrevam o caminho do futebol como negócio desde o início, antes de devorar os livros atuais sobre o tema???

    Obrigado pela atenção.

    Um abraço.

    Olá Leandro,

    Obrigado pelos elogios.

    Não há livros específicos sobre o futebol aqui no Brasil. Duas boas obras sobre Marketing Esportivo são os livros: Marketing Espotivo – Mullin, Hardy, Sutton – Editora Artmed e um mais atual: Marketing Espotivo- A reivenção do esporte na busca de torcedores-Rein, Kotler, Shields- Editora Bookman.

    Um abraço.

    Amir

  7. Ótimo,Amir! Valeu pela resposta. Um abraço e sucesso.

  8. Prezado Amir,

    Estou a procura de um curso sobre marketing esportivo na cidade do Rio de Janeiro. Você tem conhecimento de algum?

    Olá Sérgio,

    Não sei qual o perfil de curso que você busca (curta ou longa duração).

    Há várias opções no RJ, mas não sei dizer qual tem mais qualidade (Há cursos da ESPM, Estácio, FGV, etc).

    Um abraço.

    Amir


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