Publicado por: Amir Somoggi | 15/setembro/2008

Manchester United, da lucratividade às dívidas

Para realizar essa análise sobre o Manchester United utilizei informações contidas nos Annual Reports do clube entre 2000 e 2007.

 

Em julho de 2008 publiquei um post apresentando a realidade das finanças do Chelsea (Chelsea e seu rombo financeiro), chegou a hora de entendermos o estrago nas finanças daquele que um dia foi o clube mais rico do mundo, o Manchester United.

 

O Manchester United, desde suas reestruturação da década de 90 tornou-se, indiscutivelmente, o melhor exemplo de gestão de clubes de futebol no mundo, graças a uma administração austera e focada em princípios de Governança Corporativa, os Red Devils tornaram-se benchmark da Indústria do Futebol, sendo até hoje o único clube que obteve êxito no mercado de capitais entre todos os clubes de capital aberto da Europa e que apresentava lucros substanciais a cada exercício.

 

Entretanto essa realidade foi alterada desde a compra do clube em maio de 2005  por um de seus principais acionistas à época, o magnata norte-americano Malcolm Glazer, que fechou o capital do clube depois de ter pago cerca de 1 bilhão para ficar com a companhia, valor que fez com que as ações obtivessem uma valorização de cerca de 15% no momento da compra.

 

Evolução das Ações- Manchester United – Abril e Maio de 2005

 

 

 

Para os mais desinformados, a compra do clube trouxe mais benefícios do que danos, já que desde a aquisição, a administração do clube investiu em grandes estrelas do futebol, que como conseqüência trouxeram diferentes títulos de expressão e que resultaram em uma ampliação  considerável de suas receitas.

 

Evolução das Receitas- Manchester United

Em  milhões

 

 

 

 

O clube graças ao bom desempenho nas competições e também pela manutenção de suas estratégias mercadológicas conseguiu ampliar suas receitas depois da compra e a tendência é que para 2008 a geração de novos recursos seja ainda mais positiva graças a exploração de sua marca global, de seu estádio, o mais rentável do futebol europeu, e pela obtenção de um incremento significativo em seus recursos de mídia, decorrente do novo contrato em vigência da Premier League e pelo bom resultado na Champions League.

 

Entretanto, em termos financeiros posso assegurar que seu novo proprietário transformou um clube, que já foi altamente rentável, em uma entidade absolutamente endivida e com substanciais gastos com juros bancários.

 

Entre 2000 e 2004, o Manchester United registrou uma média de lucro líquido a cada ano cerca de € 30 milhões e em 2004 o Patrimônio Líquido da companhia era de € 245 milhões. Além disso, em 2004 o clube praticamente não tinha dívidas e apresentou custos com juros bancários de irrisórios € 350 mil, em suma era um clube absolutamente equilibrado financeiramente e que entre 2000 e 2004 pagou nada menos € 50 milhões em dividendos para seus acionistas, entre eles seu atual proprietário, além de alguns torcedores / investidores.

 

Desde a compra do Manchester United pelo magnata norte-americano os números financeiros do clube pioraram assustadoramente, conseqüência direta do empréstimo contraído pelo magnata para adquirir o clube em 2005. Segundo o relatório anual de 2007 o Patrimônio Líquido apresentado pela companhia foi de € 117 milhões, conseqüência direta dos prejuízos acumulados em 2006 e 2007.

 

Além disso, sua dívida líquida atual supera € 900 milhões e a tendência é que mesmo com a ampliação das receitas em pouco tempo o clube apresente falta de capital próprio para honrar seus compromissos e registre Patrimônio Líquido Negativo, algo impensável para o clube que até 2004 somente registrava lucros a cada temporada.

 

Dados Financeiros- Manchester United

Em  milhões

 

 

Dificilmente o clube tão cedo conseguirá reverter essa situação, visto que embora tenha uma perspectiva muito positiva de geração futura de receitas e seus gastos salariais estejam em um patamar bastante equilibrado, o peso do empréstimo realizado por seu proprietário transformou o clube em uma companhia endividada e com baixa possibilidade de se tornar lucrativa no médio prazo.

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Responses

  1. Caro Amir, interessantes dados e análise precisa como sempre…neste post eu tenho mais perguntas do que propriamente comentários.

    É comum que os compradores lancem o empréstimo feito na contabilidade da empresa comprada ?
    Sem o impacto desta dívida, acredito que o clube estaria em boa situação pelos dados que você expôs, é correto meu entendimento ?

    Não sei se você analisou o Liverpool FC, mas acredito que tenha problema similar.

    Acredito que estes dados do Manchester United, associados aos do Chealsea, publicados anteriormente, botam mais lenha na fogueira na discussão a respeito do modelo de propriedade dos clubes ingleses. Clubes que souberam equilibrar suas fontes de receita com suas despesas, além do grande poder de diversificação e adiminstração de suas marcas, mas que se vêem na mão de investidores que, eventualmente, pouco tem de vínculo com a atividade, ainda mais barulho está por vir neste aspecto, creio, se as contas não mais fecharem.

    Abraços,

    Robert

    Olá Robert,

    Realmente essa questão da compra do Manchester é bastante complicada, visto que na época do negócio concretizado muitos alteraram para essa questão, já que o Glazer para viabilizar seu takeover endividou o clube, que somente apresentava resultados altamente positivos.

    Somente o empréstimo bancário atual do clube atingiu 760 milhões de euros, registrado no Passivo da companhia.

    A diferença do Manchester United para o Chelsea é que as dívidas do Chelsea são provenientes da operação do clube, enquantos que no Manchester está diretamente relacionado ao empréstimo.

    Os torcedores e a mídia da Inglaterra estão se dando conta dos riscos dessa situação extrema, já que os clubes estão perdendo essa identidade local com seu público-alvo e passando para o controle de proprietários estrangeiros e pouco familiarizados com a realidade do futebol inglês.

    Esse é o preço de terem transformado o futebol da Inglaterra nesse Big Business, já que com o modelo de clubes-empresa, a qualquer momento as companhias podem ser vendidas.

    Por isso sempre reafirmo que o modelo praticado por Real Madrid, Barcelona, Athletic de Bilbao e Osasuna virou benchmark para todos no futebol europeu, já que os sócios permaneceram como stakeholders fundamentais de seus clubes.( Esses 4 clubes têm mais de 250 mil sócios com direito a voto).

    Um abraço.

    Amir

  2. Amir,

    Perdoe minha ignorância no aspecto contábil, mas quais são as variáveis relacionadas ao resultado do patrimônio líquido?
    Nos balanços europeus, como são contabilizados os jogadores?

    Parabéns por suas análises sempre muito elucidativas!

    Olá Vítor,

    O Patrimônio Líquido dos clubes europeus como nos brasileiros é formado pelo capital próprio + lucros/prejuízos acumulados. Aqui no Brasil ainda havia a possibilidade dos clubes fazerem reavalização dos ativos, que como contrapartida ampliavam o PL, que agora será proibido.

    Com relação aos atletas os europeus registram esse valor no Ativo, como Ativos Intangíveis.

    Um abraço.

    Amir

  3. E agora tem o problema da virtual falência da AIG pra complicar as coisas…

    Olá Pedro,

    É verdade, já que parece que a seguradora também pode decretar a falência e pode abandonar o clube…

    Se bem que não creio que o Manchester terá dificuldade de arranjar outro patrocinador disposto a pagar 20 milhões de euros anuais para se associar ao clube.

    Um abraço.

    Amir

  4. Amir,

    Mais uma vez parabéns pelo texto postado.
    Numa análise mais contundente acredito que os que os clubes de futebol deveriam não só profissionalizar seus departamentos, mais, mais ainda pulverizar sua administração.
    De acordo o texto postado não há uma segurança financeira para clube, se um determinado investidor ou mesmo magnata, como no futebol Inglês, resolver não mais injetar dinheiro no clube, esse mesmo clube ficará à deriva e evidentemente com suas finanças comprometidas levando até à falência.
    Alem de Chelsea, M. United, casos citados por você, inclui-se também nessa guinada o M. City.

    Em minha opinião um clube não pode centralizar suas ações, principalmente financeiras, na figura de um só gestor. Sua administração precisa ser aberta, tendo seus torcedores e até mesmo os que queiram investir, fora do âmbito do clube do coração, naquilo que lhe dê retorno.
    Resumindo: Estabilidade, equilíbrio financeiros, ações de marketing, que agregue valor a sua ‘MARCA’!!!

    Com relação ao futebol Brasileiro, a saída seria uma ação mais positiva por parte do governo federal, onde uma reforma na lei Pelé acrescida de implementações, force os clubes efetivamente a se tornarem empresas, onde de acordo com as mudanças, não teriam outra coisa a fazer, se não, profissionalizar seus departamentos e contratar profissionais preparados pelo mercado, onde, além de serem remunerados por conta do seu total comprometimento com clube que presta seus serviços, de acordo com na iniciativa privada, teriam metas a cumprir.

    Quero propor, se me permiti, por esse conceituado blog, a formação/formatação de uma comissão, para que de imediato sejam desenvolvidas idéias num projeto contundente de mudanças à gestão do futebol.
    E você Amir, de imediato encontra-se convidado para essa empreitada, se o projeto (podemos chamar assim), lhe interessar.

    O fato é que a cada ano ou mesmo calendário futebolístico, os estádios estão mais vazios, os clubes mais e mais endividados, nossos craques exportados e nada estamos vendo para que tal situação seja mudada.
    Para encerrar, se for do seu interesse a idéia da comissão, como poderíamos estar discutindo o modelo??

    Um Abraço!!!

    Olá Carlos,

    A questão dos clubes ingleses e de outros mercados é bem simples, sendo os clubes entidades empresariais, qualquer um pode comprar o clube e assim ficar responsável por sua administração.

    Há muitos casos em outros mercados que com a mudança de estrutura jurídica as ações do clube ficaram com uma família, que se tornou dona do clube.

    Em minha opinião para o mercado brasileiro os clubes devem sim implementar mudanças na gestão, mas não defendo a transformação das entidades em empresas, visto que corremos esse risco similar ao que está passando a Europa.

    Não será simplesmente com a mudança da estrutura jurídica que tudo se resolverá. Caso um clube deseje, é possível implementar uma nova filosofia de gestão, basta que a administração queira.

    Sobre a sua proposta vou te mandar um email e falamos sobre o assunto.

    Um abraço.

    Amir

  5. Baaah muito bom esse post falando sobre o Manchester.

    Mas é incrível como os clubes europeus gastam tanto dinheiro assim, nao dao a minima pro excesso de dinheiro que gasta, vejo jogadores reservas ganhando milhões!

    Nao sei se é só os times ingleses que estão se aproximando dos déficit mas eu vejo um futuro bom para o nosso futebol brasileiro..

    Vejo os clubes europeus migrando a falencia, em quanto os brasileiros tentando fugir dela, se ressuscitando em termos financeiros, o meu próprio Grêmio à tres anos atrás deviamos mais de 150 milhões hoje nao devemos nem 50..

    Eu vejo o futebol brasileiro repleto de craques como nas décadas de 70 e 80, vejo grande transações e especulações de um clube brasileiro em outro.

    Ótimo Post.

    Olá Matheus,

    Os clubes europeus gastam cada vez mais recursos para poderem alimentar o seu ciclo virtuoso de geração de receitas, entretanto muitos estão exagerando e por isso surgiram tantos déficits.

    Não creio que a realidade brasileira seja tão tranquila assim. Muitas dessas dívidas dos clubes daqui são com o Governo e como sabemos a Timemania, pelo menos por enquanto, não resolverá a questão, obrigando muitos clubes a utilizarem recursos próprios para saná-las, isso deve aumentar os déficits desses clubes em 2009.

    Além disso, os clubes mantém a utilização de recursos futuros para equilibar as contas no presente, o que causa inevitavelmente desequilíbrio financeiro. E não vejo nenhum clube arrecandando tantos recursos com marketing e estádios para amenizar essa situação.

    Infelizmente estamos longe ainda de uma mudança nas finanças dos clubes brasileiros.

    Um abraço.

    Amir

  6. Amir,

    Noticiários dão conta que a diretoria do Corinthians já teria comprometido os valores a que tem direto entre, cotas TV, e patrocínios, referente ao ano de 2009, para contrair um empréstimo de 12 milhões de reais.
    Essa mesma diretoria que nem se sabe se vai ser reeleita para um próximo mandato.
    Resumo da opera, a próxima diretoria que assumir se não for a atual, ou mesmo se for a que encontra-se atualmente, terá um grande pepino nas mãos para resolver em 2009.

    Porque, essa artimanha?? Se pudermos chamar assim.
    Como um clube como o Corinthians que pode e tem todas as condições de trabalhar sua a ‘MARCA’ em pró do clube e conseqüente a isso o poder de infiltração que possa efetuar/executar perante aos seus torcedores, fanáticos, tem como saída para equacionar às suas dividas, adquirir mais dividas, dando/oferecendo como garantia um dinheiro que acredito eu ainda nem tenha entrado nos cofres do clube.
    Meu Deus, quanta incompetência desses dirigentes.

    Esse é apenas um fato a se citar, tivemos e temos outros exemplos, como por exemplo, do Atlético Mineiro que dias atrás, não bastasse às dividas que já possui, foi condenado a pagar mais 21 milhões reais pela justiça.

    É nessa vertesse que discuto e sugiro uma formação/formatação de uma comissão ou mesmo comitê para discutir idéias e coloca-las em prática.
    Fiquei muito feliz e ao mesmo tempo lisonjeado pelo seu interesse no projeto e estou aguardando seu e-mail para se discutir o assunto.

    Um Abraço!!!

    Olá Carlos,

    Infelizmente essa é uma prática comum dos clubes brasileiros que antecipam as receitas para tentar resolver os problemas de fluxo de caixa. O problema do Corinthians é que pelo que sei o clube não conseguiu negociar atletas e tinha muitas dívidas para pagar, assim somente restou fazer as antecipações.

    Realmente os clubes têm que mudar radicalmente essa realidade e para começar é necessário gastar menos ou ampliar consideravelmente suas receitas. No caso de cortar as despesas é importante não se deixar levar pela pressão da torcida, do coselho e da mídia. Caso um clube consiga equilibrar suas finanças fica mais fácil investir em seus projetos e parar de antecipar receitas.

    Um abraço.

    Amir

  7. Descobri este site ontem, e digo que é o melhor que já vi sobre o assunto! Parabéns! Quanto ao tema, acho que não há quem não se surpreenda com a realidade de um clube tão bem situado no cenário internacional. Alias, tenho percebido que boa parte dos clubes europeus não possuem uma administração muito saudável… estaríamos vivendo um período “pré-bolha futebolística”?
    Seria legal uma matéria sobre o Real Madrid, desde a venda da Ciudad Deportiva, e sua controvertida política de contratações desde então.

    Abraços,

    Fábio

    Olá Fábio,

    Obrigado pelos elogios.

    Há clubes europeus bem administrados, o problema é que com a entrada desses magnatas no cenário a menor preocupação é com o controle do orçamento em muitos desses clubes.

    A bolha somente será criada se as emissoras de TV que pagam cada vez mais caro para transmitir os jogos dos clubes não conseguirem comercializar no mercado internacional os direitos com os valores que almejam, algo similar ao ocorrido em 2000.

    O caso do Real Madrid é um grande exemplo, pois mesmo com a ajuda do Governo de Madrid, o clube se reestruturou e se tornou o melhor exemplo de geração de receitas com marketing do esporte global.

    Futuramente escreverei um post sobre o assunto.

    Um abraço.

    Amir

  8. Olá Amir, eu sou Gustavo Lucchesi, da Folha de Pernambuco, que falou com vc por telefone. Eu gostaria de saber, se vc sabe quantos clubes brasileiros viraram empresa, sendo S/A ou Limitada.
    E na inglaterra, todos os clubes funcionam como empresa ou nao ?
    abraço

    Olá Gustavo,

    Já te mandei um email.

    Um abraço.

    Amir


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