Publicado por: Amir Somoggi | 6/junho/2008

Dependência estatal

O canal ESPN Brasil tem feito uma série de reportagens sobre os esportes olímpicos no Brasil abordando diferentes aspectos da administração do COB, Comitê Paraolímpico, das Confederações Nacionais e Federações de diferentes modalidades. A idéia do programa é fazer com que essas entidades prestem contas à sociedade.

Um dos aspectos mais abordados pelas reportagens é a questão da continuidade no poder dos presidentes de diversas entidades que administram os esportes olímpicos no Brasil, bem como a falta de políticas públicas para o esporte nacional e a evolução dos recursos destinados pelo setor público para o financiamento das atividades de diferentes projetos olímpicos. O programa traz entrevistas com dirigentes, jornalistas, atletas e ex-atletas.

 

A ESPN Brasil a princípio acertou no tema, já que em ano de Jogos Olímpicos sempre se levanta o mesmo questionamento: Porque o Brasil com grande potencial olímpico nunca conseguiu criar uma política eficiente para a conversão desse potencial em realidade e em todas as edições das Olimpíadas somos obrigados a conviver com o famoso “Choque de Realidade”.

 

Entretanto todos os entrevistados e a própria ESPN Brasil cometeram um grave erro, já que em momento algum se questionou porque as entidades que tem como obrigação desenvolver o esporte no país, implementaram uma profunda profissionalização de seus projetos, buscando recursos na iniciativa privada, como em tantos países do mundo.Todos nós sabemos que os esportes olímpicos no Brasil dependem em geral de repasses da União e de recursos provenientes dos patrocínios das empresas estatais.

 

Um bom exemplo citado na última reportagem foi o da Vila Olímpica de Manaus, cidade sede da Confederação Brasileira de Atletismo. Alguns entrevistados disseram que por problemas políticos o Centro de Excelência está sem recursos e praticamente sem atividade.

 

Vila Olímpica de Manaus, pouca atividade por falta de recursos

 

 

 

Ninguém questionou porque então os responsáveis pela Vila Olímpica não estruturaram projetos de marketing para atrair recursos da iniciativa privada, que a cada ano investe milhões de R$ no atletismo. Segundo publicado pela Máquina do Esporte o mercado de Running no Brasil movimenta mais de R$ 2 bilhões todos os anos.

 

E segundo a pesquisa do Ipsos Marplan/Sportv, somente em vendas de tênis o Brasil gera mais de R$ 4 bilhões ao ano.

 

Em minha opinião os recursos públicos devem obrigatoriamente financiar os esportes de base, alinhados com um projeto estratégico de uma política pública para o esporte nacional e os recursos privados devem ser os verdadeiros responsáveis pelo desenvolvimento do esporte de alto rendimento.

 

Será que não é hora dos veículos de comunicação começarem a pressionar os gestores das entidades que administram os esportes olímpicos que é hora de profissionalizarem seus departamentos de marketing e conseqüentemente seus projetos?

 

E principalmente pararem de implorar por recursos públicos e financiarem suas atividades através da iniciativa privada?

Anúncios

Responses

  1. O que eu espero ver do governo é colocar o esporte na escola. Usá-lo na educação e como maneira de atrair e manter as crianças no colégio.

    Se é impossível ter uma piscina, uma pista de atlestimo ou uma quadra de basquete em cada escola, que se fizesse convênios com os clubes que têm essa estrutura. Tanto clube devendo dinheiro ao Estado – oferece isenção de impostos ou abatimento da dívida em troca do uso das instalações e professores destes clubes em aulas para alunos da rede pública.

    Olá André,

    Você está certo, o problema é que o Governo está totalmente focado no esporte de alto rendimento e criou um ciclo vicioso de investimentos, já que será através do esporte de base forte que teremos a chance de ampliar nosso número de atletas medalhistas.

    Sem contar o grande benefício em termos de saúde pública que as políticas públicas esportivas oferecem.

    Um abraço.

    Amir

  2. Que o esporte no Brasil precisa profissionalizar não resta dúvida, mesmo assim evoluimos muito, é inegável. Concordo em gênero e grau que recurso público tem que financiar o esporte na base e na formação do atleta. Agora vá entender, a ESPN tá ficando chata com essa birra com o Nuzman, tudo bem que postura crítica e independente é fundamental num meio de comunicação. Quanto ao Nuzman, pode ter seus defeitos como todo mundo, más ele é muito melhor que o Ricardo Teixeira.

    Olá Filipe,

    Temos que considerar que o Nuzman tem um débito e tanto com a sociedade, já que até agora não publicou se quer um relatório sobre o Pan.

    Acredito que a crítica que falta aos dirigentes dos espotes olímpicos é a busca por recursos da iniciativa privada.

    Um abraço.

    Amir

  3. O grande confronto que encontro no curso de Educação Física é romper com a idéia que a escola é “fábrica de atletas”. Antes de produzir atletas a escola deve proporciona à criança e adolescente um mundo de conhecimento.
    O erro do Governo é inverter a lógica das coisas, priorizar o alto rendimento esquecendo da base, dando melhores condições de infraestrutura esportiva nas escolas e a valorização do profissional de Educação Física.
    O outro problema é a estrutura de PODER que existe na sociedade brasileira. As confederações e federações estaduais querem se perpetuar no poder mantendo seus privilégios e no amadorismo.
    O que interessa é as verbas estatais mantendo as confederações e por outro lados os clubes que são formadores de atletas vivendo à mingua e submisso a essa estrutura toda.
    Se os clubes fossem fortes (auto sustentável) e tivessem maior visibilidade na mídia não dependeriam tanto de CBV, CBB, CBJ e CBT´s da vida.
    Os clubes devem se organizar e se unir buscando na gestão profissional e no marketing atrair a iniciativa privada como parceira.

    Olá Cleber,

    Sem dúvida os clubes não devem ser enxergados como uma fábrica de craques mas é inegável que uma ampla base de esportistas ajudaria muito em um país da dimensão do Brasil.

    Um outro problema é que as verbas públicas para o alto rendimento quase sempre não chegam aos atletas.

    Um abraço.

    Amir

  4. Há várias coisas a comentar neste post do Amir, muito apropriado, além dos já comentários dos demais colegas.

    O foco do Estado em esporte de alto rendimento tem um viés de propaganda, no pior sentido da palava; o esporte sempre foi usado como pura propaganda, a polarização entre os blocos Ocidental e Oriental e suas tendências políticas nos mostra, sempre, que o investimento no esporte sempre teve a orientação de mostrar o “sucesso” de modelos sociais e econômicos em detrimento do outro, deixo bem claro que isso é uma prática de Estado, não de governo, ou seja, independente de partido, presidente, etc.

    O Estado brasileiro investindo no esporte de alto rendimento tenta vender para seus cidadãos e para o mundo externo um país que não somos, criando ícones, que são uns em milhões, que se sobressaem pelo esforço e talentos próprios, nunca por termos uma real política de esportes, enquanto isso, a base morre à míngua; no melhor estilo Goebbels, conte 10 vezes uma mentira que ela vira verdade.

    Quando se fala da educação física na educação de base, concordo que ela não deve ser encarada como “‘fábrica de atletas”, ela deve ser uma fábrica de cidadania, de conhecimento e de pessoas de melhores valores; é inegável que o esporte presta um serviço importante na formação nos aspectos de socialização, respeito à regras, etc., da massa de alunos sairão eventualmente alguns atletas, alguns terão interesse, outros não, e é assim que se forma base.

    Quanto ao Nuzman ser melhor que o Ricardo Teixeira, não sei não….vide o estouro de orçamento do PAN e pra que ele serviu no esporte brasileiro….

    Abraços,

    Robert

    Olá Robert,

    Concordo com suas colocações. Infelizmente investir em escolas e clubes não é uma política que garanta visibilidade e votos, mas sem dúvida é uma ferramenta para construirmos um país melhor.

    Agora muitas Confederações e Federações deveriam olhar para o mercado privada ao invés de ficar implorando recursos públicos.

    Sobre a comparação entre o Nuzman e o Ricardo Teixeira, temos que destacar que a CBF não recebe verbas estatais, pelo menos até agora, já que com a Copa de 2014 tudo pode acontecer.

    Um abraço.

    Amir

  5. Se a mentalidade estatal fosse orientada pela meritocracia eu até acreditaria na boa-fé dos dirigentes.
    Mas vemos que (assim como tudo que é público) o negócio descamba para a politicagem. E pior, ninguém quesiona ou cobra retorno (resultados) por cada real investido.
    Falta visão (ou apenas vontade de trabalhar) aos nossos dirigentes.
    Afinal, é melhor vender uma promessa a R$ 2 milhões do que trabalhar em seu desenvolvimento e ganhar dinheiro no marketing que esse atleta pode trazer.
    Tô cansado de ver Guga’s e Dayane’s aparecerem e esses párias não aproveitarem a chance de fomentarem seus esportes.

    Abraços,

    Olá Nicolas,

    Você está certo, os recursos públicos aqui no Brasil não têm o mesmo nível de payback exigido no mercado privado. O que é pior, muitas vezes o investimento é desproporcional a qualquer possibilidade de retorno.

    Muitos países adotam uma visão de efeito multiplicador dos investimentos públicos, algo que nunca vi acontecer no esporte olímpico brasileiro.

    Um abraço.

    Amir

  6. Participei desse material sobre a Vila Olímpica. Muita gente veio dizer que eu era “doida” em denunciar essa situação.
    Tá mais do que na hora do brasileira tirar o pandeiro do sofá e começar a agir… O que tem de atleta calado então, nem se fala… E dirigente pressionando-os a ficar de bico fechado então…
    Se tivermos a mesma euforia de Copa do Mundo para ir atrás dos nossos direitos, esse País teria outro rumo…
    Ainda é tempo de mudar…
    Abraços
    Babi

    Olá Babi,

    Obrigado pelo testemunho.

    Os esportes olímpicos no Brasil infelizmente vivem um péssimo momento, em termos de gestão.

    Há um mercado privado gigantesco que pode investir em alto rendimento e assim o Governo poderia focar seu investimento em políticas públicas no esporte para a população e na oportunidade de receber mega-eventos esportivos, com seus recursos disponibilizados em infra-estrutura.

    Um abraço.

    Amir

  7. vo6 sao uns viadinhos…


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: