Publicado por: Maurício Bardella | 3/junho/2008

A regra dos 6+5

A medida vinha sendo objeto de especulações há algum tempo. Na semana passada, durante o 58º Congresso da Fifa, realizado em Sidney, a entidade confirmou o que se esperava: seus dirigentes aprovaram com 155 votos a favor e apenas 5 contrários a regra do 6+5, segundo a qual todos os clubes deverão atuar com ao menos seis atletas nascidos em seu país, e portanto só poderão contar com cinco estrangeiros em campo. Cabe lembrar que hoje em dia os jogadores com passaportes de países que participam da União Européia não são considerados, para efeitos legais, estrangeiros.

 

A União Européia, no entanto, já se posicionou de maneira contrária a essa medida e seus deputados decidiram recentemente vetar a nova regra da Fifa, sob o argumento de que não sejam introduzidas entre os países do bloco europeu discriminações baseadas em nacionalidade.

 

Os clubes europeus, em especial os grandes e ricos clubes, também são opositores ferozes do 6+5. Afinal, especialmente os clubes de maior capacidade financeira montaram, nos últimos anos, verdadeiras legiões estrangeiras. Todos nos acostumamos a ver, por exemplo, o Arsenal atuar sem ao menos um jogador nascido na Inglaterra; com a nova regra o clube londrino teria que obrigatoramente contar sempre com pelo menos seis atletas ingleses em campo, sendo os comunitários contabilizados como estrangeiros.

 

 

O presidente da Fifa, Joseph Blatter, quer combater a falta de competitividade entre os clubes

 

 

A Fifa enxerga nessa situação uma forte ameaça à competitividade nas disputas interclubes e conta com o apoio de Michel Platini, presidente da UEFA. Há também uma preocupação com o enfraquecimento das seleções nacionais, conforme expressou nesse congresso Franz Beckenbauer, ao lamentar a ausência da Seleção Inglesa na Euro 2008, quando exatamente na Inglaterra se pode observar com maior clareza o predomínio de atletas nascidos em outros países.

 

A título de argumentação para defender a legalidade da medida a Fifa evoca o Tratado de Lisboa, que reconhece as especificidades do esporte, de suas estruturas e organizações, e que entra em vigor em 1º de janeiro de 2009, segundo as palavras de Joseph Blatter. A adoção do 6+5, no entanto será feita de forma gradual, para permitir a adaptação dos clubes:

 

a) 4 (atletas nacionais) + 7 (estrangeiros) na temporada 2010-2011;

b) 5 + 6 na temporada 2011-2012;

c) Finalmente, 6 + 5 a partir da temporada 2012-2013.

 

Outra medida importante aprovada nesse evento foi a determinação de que um atleta somente poderá adotar uma nova nacionalidade, ficando apto para defender a seleção de seu novo país, quando completar cinco anos de residência nesse país, tendo início a contagem desse tempo somente quando o jogador completar 18 anos de idade. Assim, atletas naturalizados somente poderão atuar por suas novas seleções a partir dos 23 anos.

 

Essa medida tenta combater mecanismos hoje utilizados pelos clubes que importam jovens atletas menores de idade e dão aos pais desses atletas qualquer tipo de vínculo empregatício, para que logo se possam comprovar os dois anos de residência da família no país, requisito legal hoje exigido para a adoção da nova nacionalidade.

 

Os países exportadores de jogadores, em especial os filiados à Conmebol, apoiam integralmente a regra dos 6+5, enxergando uma oportunidade de minimizar a sangria de jogadores para o exterior. Sindicatos de atletas na Espanha e na França também vêem com bons olhos a medida, já que percebem cada vez menos oportunidades para a atuação de jogadores nascidos em seus países.

 

 A Fifa comprou uma briga bastante difícil de ser vencida. Veremos muito em breve os próximos capítulos dessa novela.

  

 

 

 

 

 

 


Responses

  1. Após a lei em que qualquer europeu que morasse num país da UE poderia viver em qualquer outro do mesmo bloco. Houve um boom de jogadores trocando de clubes e um boom de imigrantes africanos, latinos e, recentemente, do leste europeu. Isso deixou os clubes, principalmente os ingleses, com seus jovens nativos desvalorizados. E no caso dos sul-americanos, começaram a sair de seu país cada vez mais cedo. Messi e Pato são exemplos claros.
    Eu concordo com essa medida. E tudo ficaria mais “fácil” para FIFA se essa nova medida não esbarrasse nesses princípios da UE.
    Ela é válida e benéfica ao futebol sul-americano. Mas para o maior centro financeiro do futebol é uma perda muito grande e tenho certeza que farão de tudo para que isso seja derrubado o mais breve possível. Mesmo que continuem com suas seleções enfraquecidas e velhas. Vejam a Itália!
    Porém, pensando como o Kaiser, seria ótimo para os clubes se dedicarem à suas bases e “fabricar” talentos. Coisa que é feita aqui na América do Sul. De um jeito meio que peculiar, mas não deixa de ser o maior antro de craques do Mundo do Futebol.

    Abraços

    Ricardo, olhando pelo lado da formação de talentos no futebol local, me parece muito negativo que os grandes clubes europeus importem adolescentes promissores e os “nacionalizem”, matando no nascedouro a possibilidade de gerar talentos locais.

    Os grandes clubes assumem uma postura completamente independente da formação de talentos locais, com conseqüências negativas para as seleções de seus países. Em uma visão mais ampla, seria interessante para as próprias federações nacionais incentivar a formação de talentos localmente.

    Um abraço,

    Mauricio

  2. Criticamos a Fifa muitas vezes, más dessa vez ela está de parabéns por essa medida, que é pelo bem do futebol, todos ganham (clubes sul-americanos pois pode diminuir o exôdo e seleções europeias o que ajuda no fortalecimento das equipes). As duas últimas Copas (2002 e 2006) foram dentro de campo, as piores da história (somente a de 1990 conseguiu ser pior ainda), se a FIFA não tomar uma medida, os próximos mundiais (2010, 2014 e etc) estaram condenados ao fracasso. A Eurocopa é um exemplo, o campeonato de 2004 foi chatíssimo, em 2008 vai ser igual, escrevem o que eu falo.
    Como é cínica essa UE, a discriminação tão condenada já existe de fato, basta lembrar dos estrangeiros barrados no Aeroporto de Madrid, onde está a livre circulação?

    Pois é, Filipe, a livre circulação se limita aos cidadãos de países formadores do bloco. Com isso temos, por exemplo, um futebol fraco na França, já que a maioria de seus talentos atua em outros países da União Européia.

    Quanto ao nível técnico das seleções, realmente não é de estranhar que cada vez mais se vejam brasileiros naturalizados – portanto cidadãos europeus, já que recebem passaportes comunitários – atuando por seleções desse continente. Essa é uma das grandes preocupações da Fifa, que deseja manter a representatividade das seleções nacionais.

    Mauricio

  3. Primeiramente gostaria de salientar que eu sou a favor dessa regra e acho que os torcedores de alguns países europeus também. Acho importante que tenha mtos jogadores domésticos nos principais times de um país. Corre o risco de perder um aspecto da cultura local.

    O caso da Inglaterra é o mais recente, mas isso já aconteceu na Italia, qdo ainda estrageiro era qq não-italiano, e na Espanha, onde o reserva do roberto carlos no Real Madrid era o titular da seleção, e acabou receebendo mais atenção pelo sucesso das equipes inglesas na Europa. Mas se analisarmos bem o caso inglês, o q mta gente critica de haver mtos estrangeiros, o time base da Inglaterra conta com 7 jogadores que atuaram como titulares na final da Liga dos Campeões e outros como Gerrard e Beckham que são gdes jogadores.

    A Inglaterra deixou de se classificar não por causa do excesso de estrangeiros, mas por pura incompetência.

    A questão entre UE, FIFA e UEFA vai acabar sendo resolvida da seguinte maneira: como a UE não pode mandar em campo, a FIFA manda usar o 6+5, o clube pode contratar quem ele quiser de qq país, mas só vai poder escalar 5 “gringos”, ou seja, não vai impedir a livre circulação de trabalhadores pelo bloco, afinal não é apenas jogar que defini o trabalhador, quem treina tb é trabalhador.

    Abs

    Carlos, você tocou em um outro ponto importante, que é a concentração de jogadores de talento em alguns poucos clubes fortes economicamente. Esse fato é incentivado ao se permitir a contratação de jogadores estrangeiros (incluindo os chamados comunitários) ilimitadamente. Com isso vemos destaques de seleções nacionais que sequer atuam regularmente como titulares em seus clubes.

    A solução a ser adotada pela Fifa, como você bem mencionou, me parece ser o que de fato acontecerá, segundo os planos da Fifa: os clubes poderão contratar comunitários e estrangeiros sem limites, mas apenas cinco deles poderão atuar a cada partida, e essa é uma determinação esportiva e independente que me parece dentro do espírito do chamado Tratado de Lisboa. Na prática isso inviabiliza a contratação de comunitários nos níveis atuais.

    Abraço,

    Mauricio

  4. Muito boa a medida, em tese isso poderá fortalecer nosso futebol. Com essa limitação, a disputa pelos craques brasileiros será bem mais acirrada, inflacionando ainda mais as negociações dos atletas que já estejam “prontos”, diminuindo a necessidade de transferir atletas(em numero de atletas), e não deixando espaço para tantos jogadores se transferirem. Com menos atletas atuando no exterior, o campeonato brasileiro tende a crescer como produto, e finalmente começariamos a vender futebol e não atletas.

    Lógico que isso só na teoria, tem que ver como funcionará na pratica, afinal seguem as nacionalizações, os grandes clubes podem achar clubes que funcionem como barriga de aluguel, podem criar também times b ou “filiais” para disputarem competições menores em seus países, fugindo um pouco da limitação da Fifa.

    Lógico também que não só isso nos impulsionará, mas a medida poderá ser bem proveitosa mesmo.

    Alcindo, nesse ponto me pareceu importante que a Fifa, em complemento aos 6+5, adotasse restrições à nacionalização de atletas, aumentando a idade mínima para contagem de tempo de residência e também o período deste tempo (que passará a ser de cinco anos).

    Para os países exportadores, acho que de fato será muito positivo.

    Um abraço,

    Mauricio

  5. Caro Maurício, há tempos sinalizei esse tema ao Marcos por e-mail e por conversas que tivemos como sugestão de pauta pro BLOG e pra ele na Globo Esporte.

    Confesso que minha 1.a análise foi a de um fechamento de mercado e que reduziria a exportação de talentos, prontos ou em estado bruto ainda, dos países menos desenvolvidos; ainda penso que é isso, no entanto, voltaríamos à exportação de maior valor agregado caso isso venha a ser oficializado, ou seja, menos transações porém de maior valor, retendo os atletas a ponto de se desenvolverem e se tornarem ídolos no Brasil.

    Fiquei surpreso com a reação dos dirigentes, que viram isso como ponto positivo, abrindo mão do imediatismo da receita fácil e entendendo dos benefícios mercadológicos da retenção do atleta.

    A UE realmente tem legislação, que se sobrepõe à esportiva, que impede a discriminação por nacionalidade no mercado de trabalho, havia uma saída na lei que reconhecia que o mercado esporte teria suas próprias idiossincrasias, porém, com a monção votada que você cita cai essa tese de diferenciação, por essas acredito ser improvável que vá vingar pois caso a FIFA tente passar por cima da UE haverá uma enxurrada de novos “Casos Bosman” nas cortes européias, vai faltar hotel em Bruxelas.

    Abraços,

    Robert

    Robert, também acho que será uma luta árdua e talvez inglória. Mas a Fifa me parece determinada e para tomar tal atitude deve estar armada juridicamente, acreditando na força do chamado Tratado de Lisboa, como mencionou Joseph Blatter.

    Mesmo assim a reação será fortíssima, e os interesses dos grandes clubes europeus vai se manifestar de maneira muito hostil. Aliás, você se surpreendeu com a posição favorável dos dirigentes à medida (e eu também), mas acho que os dirigentes de clubes brasileiros (especialmente os bons vendedores) devem estar bastante descontentes, assim como os empresários que enriquecem às custas da exportação de talentos.

    Um abraço,

    Mauricio

  6. Muito boa essa iniciativa..

    Há tempos deveria ter sido tomada..

    Isso ajuda inclusive nós..

    Nem todos os craques poderão ir..

    Ajuda, com ctz..

  7. Maurício,
    sendo franco e até meio pessimista, a posição dos dirigentes deve advir do fato da “ficha não ter caído”, creio eu.

    Quanto aos empresários, sinto muito, vão ter de trocar quantidade por qualidade, trabalhar em planejamento de carreira e imagem, ou seja…trabalhar, aí é que eu quero ver.

    Abraços,

    Robert

  8. Olá Maurício!
    Acredito que essa medida da FIFA foi muito boa, porém o processo será gradativo, caso essa medida se torne real os clubes brasileiros terão que se adaptar, ou seja, parar de pensar em receita apenas com vendas de jogadores. Acredito que terão que buscar novas receitas através de novos contratos de televisão, patrocínios, entre outros, enfim, quem sabe pode surgir grandes planos de marketing esportivo nos clubes, que tão pouco existe no Brasil. Todos ganham, os clubes, o campeonato brasileiro e os seus clientes: os torcedores. Abraços!

    Anderson, possivelmente os clubes continuem a ganhar dinheiro com a venda de bons e consagrados jogadores. A princípio deve haver uma redução nas transferências de jogadores medianos e até de bom nível técnico mas que ainda não se afirmaram no próprio país de origem, ao contrário do que hoje acontece. Sem dúvida isso será positivo para nosso futebol, analisando localmente.

    Um abraço,
    Mauricio

  9. Olá Maurício,

    Ótima essa nova lei, espero que a ‘Pifa’ ganhe, mas ainda estou esperando aquela lei de que o jogador só pode atuar em outro país quando completar 23 anos, para melhor formação do mesmo aqui no Brasil e, respectivamente, os clubes Brasileiros brasileiros se beneficiarem.
    Principalmente o meu Gremio, que é O MAIOR CLUBE FORMADOR DE CRAQUES DO BRASIL.

    Abraços

    Matheus, ao menos de acordo com as regras propostas pela Fifa so que see pretende é acabar com as exportações de atletas menores de idade, que já começam suas carreiras no exterior tendo passaportes comunitários. Esses jogadores só poderão ser “naturalizados” cinco anos após completarem dezoito anos de idade, ou seja, aos 23.

    Isso não é o mesmo que impedir que um atleta com menos de 23 atue “em” outro país (a Fifa quer impedir que ele joge “por” outro país), mas já é alguma coisa, não acha?

    Um abraço,

    Mauricio

  10. Olá Maurício,
    Primeiramente parabéns pelo post e pelo blog.
    Vou discordar um pouco da opinião geral e me explico.
    A FIFA sofre, é verdade, uma pressão enorme de federações da América do Sul (menos do Brasil, na minha opinião) para restringir os estrangeiros em clubes mas a pressão maior, ao meu ver, é sobre a própria FIFA e seus produtos. Se não vejamos; antigamente a seleção de seu país era uma vitrine para transfrência pro exterior e uma vez transferido o jogador precisava continuar atuando pela sua seleção para se manter valorizado ganhando títulos. Com o futebol altamente globalizado jogadores se transferem para a Europa antes mesmos de atuarem por seleções de seus países. Vão inicialmente para equipes médias e caso se destaquem são contratadas por equipes maiores e só então vão para a seleção de seu país de origem ou não (veja o Deco). Sendo assim eu vejo que cada vez mais os produtos da FIFA (torneios entre seleções) vão perdendo valor e os torneios entre clubes vão ganhando.
    Eu vejo esta atitude da FIFA como uma atitude para se preservar e não para preservar países exportadores.
    No caso da CBF eu vejo que esta situação está boa para ela pois a mesma tem como produto mais valioso a Seleção Brasileira e a vende muito caro. Caso esta regra da FIFA entre em vigor, os clubes ao meu ver vão segurar um pouco mais seus jogadores e o campeonato brasileiro será melhor aumentando seu valor e o poder dos clubes locais para não liberarem seus jogadores para amistosos aumentará.
    Essa é a minha visão dos fatos.

    Olá, Marcelo, obrigado pelos elogios e por trazer um novo ângulo para a discussão.

    Acho que você está certo; há de fato uma disputa feroz entre a Fifa e os grandes clubes do futebol europeu, e a Fifa quer mesmo fortalecer as disputas internacionais de seleções.

    O que me surpreendeu foi o apoio da Uefa com Michel Platini, pois até há pouco tempo a entidade caminhava de mãos dadas com os clubes grandes da Europa.

    Obrigado pelo comentário e continue participando. Um abraço,

    Mauricio


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