Publicado por: Maurício Bardella | 8/maio/2008

Fluminense e seu balanço

Chegou a vez de falarmos sobre o balanço do Fluminense, mais um dos grandes clubes do Brasil a publicar suas informações contábeis. Para os torcedores do tricolor carioca, no entanto, as notícias não são nada animadoras…

 

Quem ler o balanço do clube provavelmente será levado a fazer a mesma pergunta que eu me fiz: como um clube com a tradição esportiva e a torcida de expressão nacional do Fluminense chegou a uma situação financeira tão desastrosa? Uma das respostas, eu creio, está na absoluta impunidade fiscal que privilegiava os clubes e, principalmente, seus dirigentes até a entrada em vigor da Lei Pelé.

 

O déficit do Fluminense em 2007 foi monumental: R$ 139,4 Milhões! OK, vamos considerar que a grande maior parte desse déficit é contábil, e portanto não representou volume de dinheiro saindo do caixa do clube no exercício. Mais de R$ 100 Milhões foram provisionados contabilmente para contingências fiscais, trabalhistas e cíveis, e nesse valor se encontra parte da dívida fiscal assumida com a Timemania, que totaliza R$ 114,6 Milhões. Ainda assim, descontando-se as provisões e os altos valores de depreciação (que também não representam dinheiro saindo do caixa do clube), o déficit alcançou os R$ 24,5 Milhões.

 

Veja abaixo o resultado do Fluminense em 2007 e sua comparação com os números de 2006:

 

  

 

 

Em empréstimos de curto prazo o Flu deve nada menos que R$ 12,7 Milhões. Com relação à Unimed (questão levantada por vários leitores) a dívida é de 1 Milhão de reais, aproximadamente.

 

Em um cálculo aproximado, a dívida total do Fluminense supera os R$ 200 Milhões.

 

Para piorar a situação, o Flu antecipou mais de R$ 8 Milhões em receitas no ano de 2007 (R$ 4,5 Milhões apenas com a TV Globo), e sobre todas as suas rendas a partir de 2008 serão descontados 22% para pagamento de dívidas trabalhistas no valor de R$ 38 Milhões, cumprindo acordo firmado em dezembro do ano passado através do TRT do Rio de Janeiro, com o compromisso de que sejam pagos através desse mecanismo, no mínimo, dez milhões anuais. Até a assinatura desse acordo o clube tinha 15% descontados em todas as suas rendas, cumprindo acerto anterior.

 

Para que se tenha uma idéia da magnitude desse compromisso, lembro que as receitas totais do tricolor em 2007 não chegaram a R$ 40 Milhões.

 

Abaixo apresento a composição de receitas do departamento de futebol do Fluminense e, separadamente, do depto.social e esportes amadores:

 

 

  

 

 

    

Observem que as receitas de direitos de TV representam quase 60% de tudo que o futebol auferiu em 2007. E o que é pior: o Flu não contou com a tábua de salvação utilizada pela maioria dos clubes brasileiros; o dinheiro conseguido com a venda (e empréstimos) de jogadores foi muito pequeno, não chegando a um milhão e meio de reais. Para que se tenha uma idéia, o jogador Lenny foi emprestado ao Sporting de Braga por um ano – até 30/06/2008 – pela quantia aproximada de R$ 250 mil.

 

As receitas de bilheteria são muito pequenas em valores absolutos e os valores de patrocínio bastante baixos, ainda que tenham crescido 21% em 2007.

 

Para esse ano, espera-se que o Fluminense ao menos tenha melhores resultados com a bilheteria, em função da boa campanha que vem tendo na Taça Libertadores da América. Por outro lado, aparentemente o custo com o futebol está aumentando em 2008.

 

Interessante notar que o clube declara em seu balanço um patrimônio que chega a quase R$ 320 milhões, sendo R$ 257 Milhões em imóveis da sede social – a reavaliação a preços de mercado foi feita e aprovada pelo conselho do clube em 2005. Em outras palavras, o Flu, ao menos em seu balanço e a despeito de variáveis de mercado imobiliário e liquidez, possui um patrimônio que lhe dá suporte para tomar decisões estratégicas que lhe permitam sobreviver.

 

 

 


Responses

  1. Acabo de descobrir este blog. Pela primeira vez encontro uma analise séria sobre a situação dos clubes de futebol. Parabens, adicionei aos meus favoritos.

    Paulo, seja bem-vindo. Contamos com sua participação.

    Mauricio Bardella

  2. Agora, analisando melhor os numeros acima, pode-se chegar a uma triste conclusão: o clube só consegue equilibrar suas contas com a venda de direitos federativos de jogadores. Algo que deveria ser uma receita extraordinária, tornou-se uma fonte de renda. As receitas correntes que deveriam cobrir os custos da atividade futebol são absolutamente deficientes. Em outras palavras, os clubes deixaram de ser entidades esportivas para se tornarem entrepostos de compra e venda de jogadores. Está correta minha visão ou isso só acontece com o Flu? Abraços.

    Paulo, infelizmente essa é a regra na imensa maioria dos clubes brasileiros, e é por exemplo a explicação do superávit do São paulo, clube brasileiro que mais faturou no ano passado. O déficit operacional do Fluminense em boa parte se deve à quase ausência de jogadores negociados em 2007, como você bem notou.

    Por esse motivo temos insistentemente pregado em nosso blog a respeito da necessidade de gerar novas e consistentes receitas através, para citar alguns exemplos, de carnês de ingressos, ações de marketing bem estruturadas e investimento no chamado “matchday”, que envolve não só a bilheteria como tudo que é vendido no estádio em dias de jogos, de refrigerantes a camisas oficiais.

    Um abraço,

    Mauricio

  3. Muito boa análise, bem detalhada. Infelizmente a situação do Fluminense atual é caótica. Se não fosse a Unimed, provavelmente já teríamos falido.

    O problema maior é que a diretoria atual é inepta para tomar decisões que poderiam garantir a sobrevivência do clube, tais como cumprir acordos de parcelamentos já firmados, enxugar a folha de funcionários e trazer gestores financeiros capacitados.

    Administrativamente, o clube é tocado da mesma forma que na década de 80, por exemplo. Pra completar, o quadro social é excessivamente conservador e tem muitos torcedores de outros clubes, que estão preocupados apenas com a sauna e a piscina.

    Convido a todos a conhecer o site http://www.flusocio.com.br/blog. É leitura diária e obrigatória para quem se interessa pelos reais problemas que impedem o Fluminense de crescer e se organizar.

    Sds Tricolores

    Danilo, valeu pelo seu testemunho como torcedor do Flu. Vou visitar o link que você indicou.

    Abraço,

    Mauricio

  4. Muito boa a análise, objetiva, concisa e focada nos pontos principais.
    Infelizmente, com a recém exclusão do clube do Ato Trabalhista, o que sujeita o caixa do clube a penhoras de R$ 37 milhões, valor superior às receitas de 2007, parte da análise e a conclusão ficaram prejudicadas.
    Hoje, o cenário está muito pior. O clube está insolvente, a despeito de seu patrimônio imobiliário.
    O Fluminense ainda é viável somente por um elemento, que não é contemplado na análise por se tratar de um ativo intangível, que é o valor de sua marca.
    Mas não por muito tempo, pois a gestão financeira a tudo compromete.

    Olá, Cláudio. Realmente as receitas do Fluminense em comparação com sua dívida – e especialmente em comparação com os compromissos de curto prazo – são incompatíveis.

    A exclusão do Ato Trabalhista – informação que não tinha até redigir esse texto – é uma tragédia para a administração das finanças do clube.

    A mim pareceu, de fato, haver uma sobrevalorização do patrimônio, mas não tenho elementos mais concretos para tecer um comentário a esse respeito. Só me cabe citar os números apresentados no balanço que, afinal, são auditados e desempenham o papel de um documento legal.

    Concordo com você que a situação é crítica e que o Fluminense, como outros grandes clubes, tem sobrevivido por ter uma marca forte.

    Abraço,

    Mauricio Bardella

  5. Ola…gosto muito do blog…gostaria de saber quando voce vai comentar do balanço muito confuso do Vasco….abraço a todos!!

    Carlos, assim que for possível a gente vai falar algo sobre o Vasco, certamente. Valeu pela participação.

    Mauricio

  6. É simplesmente assustador o paradigma dos clubes brasileiros, não sabia que o Fluminense estava nessa situação. Já passou da hora de nossos dirigentes mandarem um contingente de profissionais para estagio nos clubes europeus. Profissionalismo hoje, aliais, pra ontem!

    É, Ricardo, os números são reveladores e explicam muits dos problemas de gerenciamento do nosso futebol.

    Abraço,

    Mauricio

  7. Prezado Mauricio, meus parabéns pelo excelente trabalho. Por favor me mande um e-mail para que eu possa te informar sobre a ação judicial da Associação de Torcedores do Fluminense – FLUTURO – em parceria com o Ministério Público – visando uma administração moderna e responsável no Fluminense. Saudações Tricolores, Daniel HP.

    Valeu, Daniel. Será interessante conhecer o conteúdo dessa ação. Abraço,

    Mauricio

  8. Parabéns pelo Blog. Já adicionei aos favoritos.

    O pior é que a análise do imobilizado prevê umvalor de mercado teórico par aos imóveis, já que o tombamento da sede e de várias partes do clube torna inviável uma venda do mesmo.

    Saudações.

    Pedro Abad

    Então piorou a situação, Pedro…esse é um aspecto que realmente interfere na análise.

    Um abraço,

    Mauricio

  9. Tá certo, Maurício, agora, ações de marketing bem estruturadas? Os caras são incapazes de organizar uma simples venda de ingressos. Desesperador.

    É, Paulo, uma coisa é o que poderia (ou deveria) ser feito, outra é a realidade…embora essa inoperância não seja uma exclusividade dos dirigentes do Fluminense, a situação financeira do clube torna o problema ainda mais grave e visível.

    Mauricio

  10. Me chamou a atenção o valor do patrocínio que está nesse balanço…

    Tenho certeza que a Unimed investe muito mais do que 6 milhões por ano no Flu. Por que esse valor está tão baixo? Estão escondendo dos credores?

    Abraço!

    Rodrigo, a meu ver é possível que a Unimed invista mais no Flu, mas se o fizer será “por fora”, ou seja, pagando contratos de imagem e/ou prestação de serviços de atletas, através de contrato direto com eles.

    Dinheiro entrando no caixa do clube, mesmo, apenas o declarado no balanço.

    Mauricio

  11. Eu de novo, Mauricio! Nos meus comentários estou me referindo aos clubes de futebol de modo geral, não apenas ao Flu. Só mais uma pergunta: se a Cessão de Direitos Federativos é apresentada como receita, onde estaria sua contra-partida, a Aquisição desses mesmos direitos? Pois o clube tb. “comprou” jogadores durante o ano, não? Ou isso é um resultado líquido?

    Paulo, os salários, o pagamento de direitos de imagem e o dinheiro gasto com contratações aparecem na demonstração de resultados como despesas de pessoal no depto. de futebol. Pode até haver outras classificações contábeis para o dinheiro efetivamente gasto com contratações, mas sempre será uma despesa.

    Abraço,

    Mauricio

  12. Sou torcedor do fluminense e sou leigo no assunto. o risco de fecharem o fluminense ou leiloarem nosso patrimonio é grande?

    Olá, Lucas. É difícil responder à sua pergunta, mas acho muito pouco provável que um clube tradicional e representativo como o Fluminense seja fechado, por uma questão que chega até mesmo a ser política. Quando ameaçou-se fazer algo do tipo na Argentina com o Racing, quase aconteceu uma revolução…(exageros à parte).

    O que pode acontecer com maior probabilidade, na minha opinião, é um comprometimento financeiro tão grande que comprometa o patrimônio (confirmando o seu temor) e torne inviável ter um time minimamente competitivo, por muitos e muitos anos. Mas acho que antes disso há muito que o Fluminense pode fazer, e sua marca forte poderá atrair patrocinadores e investidores desde que haja alguma confiabilidade financeira e uma administração realista dos problemas do clube. Ou seja, é preciso trabalhar profissionalmente.

    Abraço,

    Mauricio

  13. Excelente blog, parabéns… não o conhecia… e parece bem democrático – no quesito regional – não prevalece um lado paulista etc, como de costume.
    Parabéns, add aos favoritos, lerei sempre…

    Falando do Fluminense agora, Sei que dá um trabalho fazer isso mas vai uma sugestão…
    Ao final de sua avaliação fazer uma ”sugestão” ou algo do tipo, como uma saída para o clube… ”O que fazer para melhorar” etc…

    mais uma vez, Parabéns…

    Saudações Tricolores

    Obrigado pelos elogios, Pedro. A gente tenta apresentar os textos de uma maneira imparcial, buscando informações do futebol de uma maneira ampla. Seu reconhecimento nos anima a tentar sempre melhorar.

    Quanto às sugestões, a gente sempre tenta indicar alguns caminhos, que não necessariamente são os únicos. Várias vezes nossos leitores nos questionam, debatemos e todos aprofundamos nossos conceitos e tiramos nossas conclusões. Melhor ainda seria se tivéssemos também dirigentes debatendo conosco nesse espaço…

    Abraços,

    Mauricio

  14. Blog muito informativo. Frenquentarei a partir de hoje.
    Mauricio, parabéns pelo esforço que me agradou muito, além de ter colocado em evidência fatos do F.F.C me proporcionou (acredito que a todos que leram também) uma ampla visão sobre o que ocorre nos clubes brasileiros. E sabemos que, o Corinthians foi o primeiro, o próximo começa a revelar-se se a diretoria não trabalhar para reverter tal situação.
    No entanto, Mauricio, não sei se conhece nossa torcida mas digo-lhe que nosso amor vai além disso. Digo-lhe que, não somos tão grande quanto as duas outras torcidas do Rio de Janeiro, vasco e flamengo, porém somos muito mais apaixonados.

    Carelli, obrigado pelo elogio ao texto. Eu tenho certeza que a força da marca do Fluminense (traduzida inclusive pela paixão dos torcedores) é realmente um grande patrimônio. O Fluminense precisa se valer disso para reconstruir-se financeiramente.

    Um abraço,

    Mauricio

  15. A situação finaceira do Fluminense é preocupante. As causas deste problema estão bem identificadas: administrações ineptas e irresponsáveis que se sucederam ao longo do tempo.
    A dívida acumulada corresponde a aproximadamente seis anos de receitas brutas (ao nível atual – sem considerar a parcela indireta da UNIMED). É o mesmo que um cidadão que recebe mil reais por mês e deve aproximadamente R$ 65.000,00. Uma parte desta dívida (algo em torno de 70% deve ser quitada em 20 anos, sendo parte do recurso necessário para quitá-la proveniente da Timemania).
    Da composição da receita atual, é possível incrementar a parcela da bilheteria, contratos de publicidade, licenciamento e (com um pouco de sorte) transferências de jogadores. No ano de 2006 a trasnferência do Marcelo produziu algo em torno de 14 milhões de reais.
    O que fazer neste caso? Do ponto de vista da gestão do clube um programa efetivo de geração de superávits primários (numa analogia com o conceito do estrito campo de setor público), de outro lado, um plano de amplianção das receitas correntes. É difícil?! Sim. Mas não é impossível. A marca é forte. Paralelamente as despesas devem ser reduzidas.
    Não acredito que o Fluminense deixe de existir. A história do futebol brasileiro registra casos de clubes que sucumbiram à crise financeira, nenhum deles, porém, eram clubes com grande contingente de torcedores. Isto não significa, no entanto, que nada deva ser feito.

    De qualquer modo, outros clubes passas por situações semelhantes. Parabéns pela iniciativa.

    Sds Tricolores

    Alexandre, achei seu comentário excelente e preciso. Nem precisava das retificações ortográficas que você fez em seguida, seus conceitos foram muito claros.

    O desafio, como no caso de vários clubes geridos, digamos, de maneira questionável, é a ruptura com as velhas práticas para que se inicie um processo de reformulação e profissionalização administrativa.

    Um abraço,

    Mauricio

  16. Retificando

    De qualquer modo, outros clubes passam por situações semelhantes. Parabéns pela iniciativa.

    Sds Tricolores

  17. A pressa é inimiga da perfeição. Retificando II.

    Não acredito que o Fluminense deixe de existir. A história do futebol brasileiro registra casos de clubes que sucumbiram à crise financeira. Não eram clubes com grande contingente de torcedores. Isto não significa, no entanto, que nada deva ser feito.

    De qualquer modo, outros clubes passas por situações semelhantes. Parabéns pela iniciativa.

    Sds Tricolores

  18. A pressa é inimiga da perfeição. Retificando III.

    Não acredito que o Fluminense deixe de existir. A história do futebol brasileiro registra casos de clubes que sucumbiram à crise financeira. Não eram clubes com grande contingente de torcedores. Isto não significa, no entanto, que nada deva ser feito.

    De qualquer modo, outros clubes passam por situações semelhantes. Parabéns pela iniciativa.

  19. Ótimo blog, adorei as considerações. Muito explicativa e sem rodeios.
    Com uma administração séria e profissional, o Fluminense teria, na figura de seus diretores, teria mais credibilidade diante de sua torcida.
    Há algum impedimento legal para que o clube faça uma campanha do R$ 1,00?
    Eu sempre digo que se cada torcedor do Fluminense, que segundo pesquisas são em aproximadamente 9 milhões, desse apenas R$1,00 em doação ao clube, essas dívidas seriam quitadas num prazo de tempo bem curto.
    Pode parecer surreal, mas tudo depende de uma política correta e um marketing bem feito e a transparência no manuseio dessa verba.
    É assustador ver o estado em que meu clube do coração de encontra. É muito triste.

    ST

    Priscila S. Silva

  20. flusão e100% campeão

  21. AGENTE SAMOS 100% FLU
    AGENTE Não DECISTIMOS
    DE VENCER
    PORQUE
    SAMOS CAMPEAS


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