Publicado por: Maurício Bardella | 31/março/2008

Turismo na Rua Javari

O futebol é bem mais que clássicos, times grandes e estádios gigantescos, ainda que mal tratados. No dia 10 de fevereiro passado aproveitei uma manhã ensolarada de domingo e fui assistir ao jogo entre Juventus e Barueri, com o objetivo de finalmente satisfazer uma velha curiosidade: conhecer o campo do Juventus, o antiqüíssimo Estádio Conde Rodolfo Crespi, inaugurado em 1929 e popularmente conhecido como Estádio da Rua Javari.

Rua Javari

                  Entrada do estádio Conde Rodolfo Crespi 

Confesso que foi uma experiência muito interessante. Fiquei de escrever algo nesse blog a respeito da empreitada e surpreso li, alguns dias depois – mais precisamente em 26/02 – coluna do excelente José Roberto Torero na Folha de São Paulo contando com toda sua categoria a experiência semelhante que ele tivera no domingo seguinte, assistindo na Rua Javari à partida entre o clube da casa e o Guaratinguetá.

Pois nesse último sábado resolvi repetir a experiência e fui assistir ao jogo Juventus e Guarani. Dois clubes que, perdendo o jogo, estariam condenados ao rebaixamento (com uma ínfima esperança de salvamento para o clube grená). Pois o jogo foi interessante e terminou em 2×2. O empate deixou ambos em maus lençóis… 

Mas por que eu fui à Rua Javari mais uma vez? Fui pelo gosto especial de vivenciar uma partida profissional em um ambiente quase amador. Assisti a boa parte do jogo encostado no alambrado, a uns dois metros da linha de fundo. Quem jogou futebol vai entender quando eu digo que dava até pra sentir o cheiro da grama… 

Jogo disputado na Javari

                     Juventus e Guarani vistos do alambrado

Mas o interessante mesmo na Rua Javari está fora das quatro linhas. 

Sempre imaginei que assistir a uma partida do Juventus fosse como ser uma das poucas testemunhas presentes ao evento, e que um público de mil pessoas fosse algo fantástico…pois o estádio, com capacidade declarada para 7.000 torcedores, estava muito cheio com 2.500 pagantes. Creio que com mais de 3.500 pessoas seja impossível caminhar pelos estreitos corredores. Os degraus das arquibancadas, em 60% do estádio, devem chegar no máximo a uns 20 centímetros de altura (se tanto…), o que funciona como um convite para que quase todos assistam ao jogo em pé – exceto os que conseguem se sentar nas poucas cadeiras do melhor setor das sociais.

Bom público na Javari

                            Estádio pequeno, porém cheio

Sim, assistir ao jogo na Javari é um sacrifício, como em quase todos os estádios brasileiros. Consumir os famosos canolis do seu Antônio, vendidos no corredor único de entrada no estádio, é entrar numa briga de foice, pronto para matar ou morrer…por mais que esse doce seja tradicional e valha a pena brigar por ele, não há mais quase nada para comer ou beber. Mas o curioso é que muitas pessoas levam suas câmeras para filmar e fotografar essa cena de luta por um mero acepipe, assim como fotografam tudo que for possível: as arquibancadas, os torcedores, o gandula apelidado de Maradona…ir à Javari é antes de mais nada um programa turístico. 

Muitas famílias, casais de namorados, adolescentes e senhores de idade presentes no estádio. Noventa por cento deles torce por um time grande da capital. Mas e o que representa o Juventus? Bem, o Juventus antes de mais nada representa a Moóca, um dos mais típicos e peculiares bairros paulistanos. Não são poucas as pessoas que vestem camisetas vendidas na porta do estádio com os dizeres “Eu sou da Moóca”, estampando as cores do time grená mas não necessariamente  o distintivo.

Em tempo, para os nossos leitores que não conhecem as intimidades da capital paulista: a Moóca é um bairro de tradicional imigração italiana que até hoje mantém um certo ar de cidade pequena, apesar de estar bem próximo do centro da cidade, no início da zona leste. O bairro foi sede de muitas indústrias que se estabeleceram em São Paulo na primeira metade do século passado (trazendo consigo os imigrantes operários) e ainda hoje oferece mais de 23.000 empregos na indústria, por mais que se avistem enormes galpões abandonados e fábricas (muito antigas) desativadas. Segundo o censo de 2000 a Moóca possuía nesse ano menos de 60.000 habitantes, mas sua influência cultural e econômica se espalha pelos bairros próximos do Ipiranga, Cambuci e Glicério, já na zona central. 

Pois para meu espanto o Juventus teve nesse campeonato paulista, nos jogos em que disputou em seu estádio, uma média de público semelhante à do Guarani de Campinas (se excluirmos o confronto no Brinco de Ouro com o São Paulo para tornar a comparação mais justa, já que o Juventus não enfrenta os grande em sua casa) e maior que a média da Portuguesa nas poucas partidas disputadas no Canindé.

Juventus_Paulistão

Fonte: borderôs da Federação Paulista de Futebol

Reparem que o Juventus em nenhum momento esteve próximo de disputar a classificação para as semifinais; pelo contrário, esteve em boa parte do torneio ameaçado pelo rebaixamento, que talvez se concretize na próxima rodada. Mas as pessoas lá estão, em um número surpreendente, independentemente da performance esportiva do time. Guardadas as devidas proporções (especialmente de receitas), o Juventus desempenha localmente um papel semelhante ao dos clubes londrinos, que são verdadeiros representantes de bairros ou regiões da cidade. 

Eu concluo esse texto convencido de que mesmo o Juventus, um clube famoso por ter uma quase invisível torcida, tem um potencial de crescimento de receitas interessante. Mantendo as tradições e o elo com a comunidade do bairro, mas ao mesmo tempo oferecendo uma estrutura de entretenimento mais adequada com melhorias no estádio e no espetáculo em si, e trabalhando com ferramentas de marketing para construir um relacionamento lucrativo com os torcedores da Moóca, o Juventus poderia reforçar ainda mais seu papel de segundo time no coração dos torcedores e obter receitas com isso. 

Ok, nem o meu lado mais otimista acredita que algo desse tipo venha a acontecer…especialmente porque o Juventus sempre foi um clube social de grande porte (e rico na época em que os clubes sociais eram auto-sustentáveis), enquanto o futebol foi relegado a um papel secundário. O estádio da Rua Javari sequer fica perto da grande e imponente sede social. Mas o fato é que o Juventus possui algo que muitos clubes novos demoram décadas para conseguir: a identidade com seu público. Assim como tantos outros importantes clubes de futebol do Brasil – Portuguesa, América do Rio e América Mineiro, para mencionar alguns exemplos – o Juventus está empacado em uma mentalidade fatalista, preso à vã expectativa de crescer com o surgimento fortuito e improvável de um time que lhe dê visibilidade no cenário esportivo. Uma pena, a Moóca e nosso futebol mereciam mais que isso.


Responses

  1. Olá Maurício. Em primeiro lugar, parabéns pelo post.
    Concordo contigo sobre o potencial do Juventus. Acredito que os jogos do time podem muito bem entrar em um dos roteiros turísticos de São Paulo, aliando esporte, gastronomia, compras e tradição para quem vem de fora e também para muita gente da cidade.
    O local, nada mais é que o palco de um dos lances mais geniais da carreira de Pelé – e que não foi documentado. Fato que poderia muito bem ser explorado comercialmente.
    Um outro ponto é sobre o uniforme grená do Juventus. É uma camisa bonita e de tradição, e acredito que seria muito bem vendida se confeccionada por uma das multinacionais de material esportivo.

    Oi, Eduardo, obrigado pelo comentário. Realmente pisar na Javari é sentir um pouco da história de nosso futebol, e enquanto eu estava lá na arquibancada também imaginei Pelé driblando todo mundo e marcando seu famoso gol…
    Muito legal sua observação sobre o uniforme do Juventus. De fato é marcante e muito simpático, e seria interessante para uma empresa interessada em trabalhar sua imagem de marca.
    Abraços,

    Mauricio

  2. Caro Maurício, obrigado pelo post e pelos sempre relevantíssimos convites à reflexão.

    Peço licença aos amigos e eventuais desculpas, mas para comentar esse post talvez eu não desempenhe o papel de pesquisador/professor e administrador, a história falam mais alto.

    Fui criado na Moóca, bairro para o qual voltarei nos próximos dias após um “exílio” de alguns anos, ainda que próximo. A Móoca tem um quê de “gueto”, daquela vizinhança próxima, solidária, fraterna e às vezes até MATERNA demais; pra quem viveu isso faz falta.

    Isso aparece nas pequenas atitudes do dia-a-dia, no comércio, nas ruas…talvez para perceber esse senso de comunidade seja necessário andar pelas ruas de casas mais antigas e conversar com as pessoas, essa característica está lá ainda e dá nome e sobrenome ao bairro.

    Lembro que Roberto Brida, técnico do Juventus umas quantas vezes, sempre fazia um sinal com o polegar para cima ou para baixo depois dos jogos quando passava em frente à uma loja de móveis em que meu tio trabalhava, era o jeito dele saber o resultado…..e que eu e meus amigos entravamos na dita loja de móveis após os jogos para pedir ao meu tio uma graninha pra tomar sorvete…coisas dos meus onze anos…pois é, foi na rua Javari que comecei a acompanhar futebol ao vivo entre uma corrida e outra, além de outras experiências do crescer…

    Como pessoa apenas, sem o viés do profissional que sou hoje, tenho imenso carinho pelo Juventus, o acompanho de perto e por vezes vou aos jogos….inclusive estive no jogo contra o Barueri…que pena que não nos encontramos. A identificação do clube com a comunidade é algo realmente interessante e que lembra os pequenos clubes ingleses sim, sem, é claro, o lado mercadológico.

    Hoje vejo um jogo no Juventus como uma volta ao passado, não só meu, mas do futebol, me sugere o romantismo dos anos 50,60 que eu não vivi; sei lá..como o Maurício disse, a coisa tem aspecto amador, tem sim. Independente de grande, pequeno, rebaixado, promovido, sinto aquilo como também algo meu, tem fragmentos de minha história pessoal lá e isso conta.

    Robert

    Robert, valeu pelo seu testemunho. Você descreve o espírito da Moóca e a relação do bairro com o Juventus de uma maneira que eu, um “forasteiro” criado no bairro vizinho do Ipiranga, posso apenas tentar captar em minhas visitas “turísticas”.

    Muito legal. Abraços,

    Mauricio

  3. Maurício , desculpe variar sobre o mesmo tema , essa vem de Ignácio de Loyola Brandão na Revista Época :

    “… No entanto, há um lugar de meus favoritos. Quando tem campeonato, vou às quartas-feiras ou aos sábados ao campo do Juventus, na Rua Javari, na Mooca. Imutável há décadas, Íntimo, acolhedor, aconchegante, você fica no alambrado e se estender a mão puxa a camiseta do jogador que vai bater lateral. Javari, som e fúria. O cheiro da grama pisada, os gritos dos jogadores, os palavrões, as ameaças dos zagueiros aos que entram na área, o apito do juiz em seu ouvido. O adorável Estádio Conde Rodolfo Crespi é como se fosse o fundo de nossa casa, ali jogam os amigos. Freqüento a Javari desde os anos 60 e vejo sempre os mesmo torcedores. Sim, uns envelheceram e morreram, outros, adolescentes, cresceram, se tornaram jovens, adultos, pais e avôs. Um pedaço de São Paulo, que se conserva, não corrompido. Sempre pergunto no meio da semana: essa gente não trabalha? Depois olho pra mim. Também faltei para vir aqui…”

    Robert, só para você ver…O Ignácio de Loyola Brandão e o Torero escrevem sobre a Rua Javari e a Moóca e eu me meto a descrever minha experiência no estádio! Aí é covardia…

    Apesar da minha pretensão, é legal perceber que todo mundo que vai ao estádio do Juventus (que eu prefiro chamar de “campo do Juventus”, como se fala no futebol de várzea) percebe a peculiaridade do ambiente, incluindo aí o estádio, o público, o bairro e o clube. Uma atração turística que eu recomendo a quem estiver interessado.

    Mais uma vez, obrigado pelos comentários, ou melhor, testemunhos.

    Mauricio

  4. Olá Maurício,
    Tenho acompanhado com bastante interesse seu blog que acho atualmente um dos mais originais por abordar tema por vezes relegado ao segundo plano.
    Muito interessante seu post sobre assistir ao jogo não pelo jogo e sim por outras coisas envolvidas e que não são exploradas.
    Veja só, na última semana estive a trabalho em Portugal e no domingo procurei me informar se teria jogo em Lisboa. O recepcionista do Hotel me informou que o Benfica jogaria às 9 e um quarto da noite (9:15h). Pensei por algumas horas e resolvi ir mesmo estando sozinho e não sabendo bem como chegar. Logo no hotel peguei as informações de preços dos ingressos e já descobri que teria que desenbolsar 2 euros a mais do que se tivesse comprado pela internet (já estava fechada à aquela altura), uma sacada interessante para evitar filas. Peguei o metro e saí na porta de um estádio maravilhoso (estádio da Luz), comprei o ingresso sem fila e fui conhecer o estádio. Aquela coisa toda, uma loja do Benfica com todo tipo de acessórios personalizados que é quase mandatório levar algo de recordação, além de uma loja espetacular da Adidas que vendia de tudo e não só artigos de futebol.
    Entrei no estádio, encontrei meu lugar sem problemas e como o jogo ainda não tinha começado fiquei perto de uma das televisões para ver o final do jogo do Porto.
    O jogo em si não foi lá estas coisas e só quando cheguei hoje ao Brasil descobri que o porto é lider disparado do campeonato, o adversário do Benfica (que juro não consego nunca lembrar o nome) está na zona do rebaixamento e o estádio estava com cerca de 20000 pagante sendo muitos deles pessoas como eu de passagem pela cidade e que querem além de futebol, entretenimento.
    O Juventus poderia aproveitar e capitalizar toda esta tradição.
    Abraços

    Marcelo, muito legal sua experiência! De fato um jogo de futebol é um atrativo turístico de primeira…claro que não estamos comparando assistir a uma partida no fantástico estádio da Luz, ou no Emirates Stadium, ou no Allienz Arena, com presenciar uma partida na Javari, mas guardando as devidas proporções o princípio é parecido: vivenciar o ambiente, divertir-se, conhecer coisas novas e, de brinde, assistir ao jogo!

    Agora, eu fico preocupado quando imagino um turista estrangeiro tendo a idéia de assistir a um clássico no Morumbi, com todos os problemas que nós temos em nossos estádios nos grandes jogos (mas não apenas neles). Enfim, temos que trabalhar muito para transformar nosso futebol em entretenimento.

    Um abraço,

    Mauricio

  5. Olá Maurício,

    Muito legal o seu post!

    Apenas para agregar uma informação adicional, a diretoria do Moleque Travesso dever ter ficado bastante contente com seu jogo em Riberão Preto contra o Palmeiras.

    Nesse jogo fora de seus domínios o clube da Móoca recebeu um total de R$ 417 mil em receitas líquidas, esse jogo ficou entre as 10 maiores receitas líquidas do Paulistão até o momento.

    Um abraço.

    Amir

    Amir, com números desse tipo é que a gente confirma a versão de que os clubes de menor porte realmente dependem de um ou dois confrontos com os grandes para terem algum retorno financeiro com bilheterias durante as competições. Como você demonstrou, o Juventus conseguiu só nessa partida mais de três vezes a recaita líquida de todos os jogos na Javari.

    Complementando sua informação com os dados que levantei para esse post, o Guarani teve no jogo com o São Paulo, no Brinco de Ouro, R$ 100 mil de renda líquida. Muito menos que o Juventus em Ribeirão Pretro, mas ainda assim um valor significativo se comparado à média de arrecadações do time campineiro.

    Abraços,

    Mauricio

  6. Mauricio,

    Muito bacana seu review na ida a Rua Javari. O Juventos é um time muito bem quisto até por torcedores que torcem pelos grandes da capital.

    Tenho simpatia por times assim, como a Portuguesinha(Santista), vulgo “Burrinha”, de Santos. Sou de lá, e passei muitas tardes agradáveis, cenas folclóricas e engraçadas no Estádio Ulrico Mursa.

    Esses times ainda mantém um pouco do charme e romantismo do futebol, uma pena que hoje são times de aluguem e formados por empresários e de pouca competitividade.

    Um abraço,🙂


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