Publicado por: Amir Somoggi | 6/março/2008

Futebol como entretenimento

No último domingo (02/03/2008) dois eventos bem distintos movimentaram a capital paulista. No Morumbi se encontraram Corinthians e Palmeiras, grande clássico do futebol brasileiro. No mesmo dia a banda de heavy metal Iron Maiden fez um show no estádio do Palestra Italia. 

O concerto de rock, segundo informações da imprensa, recebeu 40 mil pessoas e nenhum incidente sério foi registrado, como violência ou briga de gangues.

 

 

 

 

Foto do show do Iron Maiden – Globo.com

 

 

 

foto-show.jpg

 

Já no estádio do Morumbi, segundo o borderô da partida, 48.930 espectadores compraram ingressos e como têm sido uma constante nos grandes clássicos em São Paulo foram registrados confrontos nas imediações do estádio entre policiais e torcedores. 

 

 

Foto fora do Morumbi – Corinthians X Palmeiras – Site Estadão

 

violencia-jogo-morumbi.jpg

Nos países que passaram por problemas de violência nos estádios e souberam solucionar definitivamente esse problema, os jogos de futebol começaram a se tornar verdadeiras atividades de entretenimento. Sempre cito como exemplo,  que para clubes como Manchester, Arsenal ou Chelsea, um jogo do clube em casa é tão rentável quanto um concerto de rock e os clubes chegam a realizar mais de 25 partidas no ano. 

O Brasil há muito tempo, já deveria ter criado um sistema de inteligência para acabar com a minoria entre todos os torcedores brasileiros, gangues uniformizadas, que têm conseguido acabar com nosso futebol como entretenimento, com total impunidade. No clássico, 40 mil pessoas compraram ingressos de arquibancada e não são todos esses torcedores integrantes de torcidas uniformizadas.

Já que somente se fala na construção de estádios novos, já não era hora de criar um sistema de controle e posterior punição severa para esses indivíduos violentos? Será que somente estádios novos resolverão esse problema crônico do nosso futebol?

 

 

 


Responses

  1. Caro Amir, respondendo sua pergunta, com minha modesta opinião…NÃO, novos estádios não resolverão o problema. Existem algumas soluções arquitetônicas que previnem a contaminação que um problema que ocorra dentro de um setor do estádio se propageue para os demais; problemas no entorno próximo já fica mais complicado.
    Essa violência das gangues uniformizadas, usando seu termo com o qual concordo, tem raízes mais profundas que passam longe dos estádios; a falta de cultura e a grande exclusão social, o que faz com que jovens satisfaçam suas necessidades de pertencimento entrando para as gangues torcedoras, traficantes, sequestradoras, etc….não explica nem justifica, quem se esforça para sair dessa espiral decrescente sai e obtém sucesso, caminhos para isso há, é só não optar pelo mais fácil, alguém aqui nasceu em berço de ouro ??
    A convivência democrática pressupõe direitos e tantos quantos deveres sendo a convivência pacífica com quem pensa diferente a maior das obrigações, mas é um luxo pensar nisso no Brasil, infelizmente.
    Há tempos tenho um pensamento em relação às torcidas organizadas, embora as reconheça como fenômeno social importante no esporte, o problema não é só policial, é econômico. Quando as receitas vinham de bilheteria majoritariamente, tais torcidas tinham importância pois abasteciam o clube com seus ingressos, atraíam público pois criavam grande atmosfera no jogo e tudo mais….porém, a partir do momento em que passam a ganhar dinheiro com a marca e identidade visual dos clubes que “representam” a coisa muda de figura, entra aí uma figura de propriedade intelectual, talvez, me parece, algo a se pesquisar….será que elas seriam viáveis tendo que pagar royalties ? Tendo que indenizar o clube ou pessoas quando aprontam das suas ??? Fica a pergunta…e em tempo, a quem elas servem ? Se causam tantos problemas por que existem ? Tá aí um eventual caminho pra identificar e punir tais pessoas como você pergunta no final….esse meu comentário não é conclusivo, claro, mas traz algumas outras vertentes pra análise, que acham ??

    Olá Robert,

    Você está certíssimo em suas colocações, mas sabemos que outros mercados conseguiram acabar com a violência, assim que foi decretada o fim da impunidade dos vândalos e claro a reforma dos estádios.

    Acredito que Ministério do Esporte, Poder Judiciário e polícias estaduais e o Legislativo poderiam instituir um controle rígido dos problemas que afetam o futebol brasileiro (atividade inexistente atualmente) e CBF, Federações e clubes deveriam criar uma nova política real de fim da violência nos estádios.

    Essa atitude poderia ter sido tomada em 2003 com a promulgação do Estatuto do Torcedor. Se os órgãos competentes se omitem, como exigir dos clubes alguma iniciativa concreta?

    Um abraço.

    Amir

  2. Amigos,

    Acho que há algumas questões aqui, ainda que relacionadas.

    Para que uma partida de futebol seja uma atividade de entretenimento, digo que sim: é absolutamente fundamental que haja uma reestruturação completa dos estádios atuais e, preferencialmente, a construção de novas arenas.

    Em segundo lugar, e intimamente relacionado com a questão anterior, está o público que deve ser foco dos esforços para aumentar a presença de torcedores no estádio: um público de maior poder aquisitivo. Não se trata de excluir o tradicional torcedor dos estádios, mas de incluir novos serviços capazes de atrair o torcedor com maior potencial de consumo – e com um padrão diferente de comportamento.

    Claro que muitos dirão que o futebol pertence ao povo, etc. e etc. Mas sabemos que essa visão não se sustenta do ponto de vista das receitas que os clubes precisam auferir.

    Em terceiro lugar, há a crônica questão da violência. Além de concordar com as observações do Amir e do Robert levanto um outro ponto: hoje muitos clubes se portam como reféns das organizadas por sua influência social, política e comportamental. Na medida em que se consiga atrair um novo público aos jogos aplicando os conceitos de eventos de entretenimento, a importância econômica desses grupos organizados diminuirá (e também as influências comportamentais). Isso não basta, mas é um fator a ser levado em consideração.

    Abraços.

    Olá Maurício,

    Você está certo quanto as novas arenas. Entretanto, assim como em relação ao marketing a ser criado em torno dos jogos dos clubes e também no assunto segurança, se somente formos fazer algo quando tivermos estádios novos, perderemos muito tempo, como desde 1993 com a Lei Zico, tem sido a nossa realidade.

    Um bom exemplo é o caso do Florentino Perez, que sempre é reconhecido como o presidente que globalizou a marca do Real Madrid. Mas uma de suas atitudes mais benéficas para o clube tomada no início da sua gestão foi acabar com o apoio que o clube dava aos Ultrasur.

    A partir de um dado momento os ultras foram obrigados a comprar o abono para terem seus lugares garantidos, como qualquer torcedor.

    Um abraço.

    Amir

  3. Olá amigos,
    Realmente esta questão futebol – entretenimento – violência, é muito polêmica e existem vários fatores a serem apontados como causa e solução.
    Concordo com absolutamente tudo que já foi colocado, pois existe o fator social-econômico, existe o fator novas arenas (sempre gosto de citar o exemplo dos passageiros que freqüentam o metrô de SP, que são os mesmos que depredam os ônibus), concordo ainda com o fator político existente há décadas entre diretoria dos clubes e torcidas organizadas.
    Mas na minha opinião o fator primordial é a questão de Política de Segurança, infelizmente enquanto os governantes não entenderem que esta questão não se reduz a brigas de torcidas, nada vai mudar, os atos praticados pelas torcidas são atos criminosos e merecedores de um tratamento policial e judicial condizente para tal.
    Política de Segurança, é tratar esta questão não com conscientização e campanhas fracassadas de “Paz nos Estádios”. Os governos Federal, Estaduais e Municipais devem urgentemente mobiliza-se para os próximos anos que antecedem uma Copa do Mundo para mudar esta triste realidade.
    Gostaria de mencionar apenas como um peque exemplo Política de Segura, no final dos anos 80 e inicio dos 90, em São Paulo existia a incidência de roubos a banco em números estratosféricos, tendo registros de 10 roubos em um único dia na cidade de SP, o que foi feito, o estado criou um departamento exclusivo na Polícia de São Paulo para este crime, hoje passados aproximadamente 20 anos esta modalidade de crime diminuiu drasticamente na capital.

    Portanto amigos, o ponto crucial é segurança, onde envolve vontade dos políticos, polícia e judiciário, o resto será um complemento.

    Abraços

    Olá Chico,

    Você está certo, não podemos colocar a culpa somente nos clubes pela violência nos estádios brasileiros. Os órgãos competentes têm se mostrado incapazes de mudar esse panorama. Um pergunta: Qual o resultado prático do trabalho do Ministério do Esporte para combater a violência do nosso futebol?

    Um abraço.

    Amir

  4. Amir e Maurício, os exemplos vindos de fora são muito bons e úteis mesmo; a iniciativa do Real Madrid em relação às “peñas” realmente “normalizou” a relação do clube com sua torcida e os resultados nem precisam ser comentados.
    Penso que o ponto do Maurício sobre o poder das organizadas, político e econômico, é importante também; as vejo como organismos que tem profundas raízes na política dos clubes (de novo a falta de profissionalização na administração aparece) e uma ruptura, necessária e fundamental, seria complicada, mas reforço que precisa ser feita, doa a quem doer. Minha proposta de ruptura seria pela retomada de controle das marcas e identidade visual dos clubes e pelo “estrangulamento físico” de seus espaços nas arenas, vai ter chiadeira, esperneio e tudo mais com aquele discurso populista bobo de sempre, mas é um caminho que a profissionalização tem que percorrer, precisamos devolver os estádios aos torcedores comuns.

    Olá Robert,

    Apenas para esclarecer as Peñas e os Ultras são coisas absolutamente diferentes. As Peñas existem há anos e são parte da cultura do futebol espanhol, e não são torcedores violentos, muito pelo contrário, elas são entidades cada vez mais importantes no futebol espanhol e os clubes fazem encontros periódicos em suas dependências, incluisive com Peñas internacionais.

    Os Ultrasur começaram a ser tratados como devem e para ingressar no estádio tiveram que se adapatar as regras.

    Isso é importante para não confundir os nossos leitores com informações erradas.

    Um abraço.

    Amir

  5. É Amir….. assunto complicadíssimo, muito debatido, estudado e comentado. Mas na prática….poucas coisas mudaram nos últimos 15 anos.

    Sou frequentador de Estádios de futebol desde muito cedo, vou ao Maracanã desde 1992 com muita frequência, e vejo, na prática, a imobilidade das melhorias no Estádio Mario Filho.

    E olha que as reformas desde 1992 foram muitas, e milhões foram gastos do dinheiro suado do contribuinte, apenas para maquiar o estádio e justificar a roubalheira de muitos.

    Quando garoto fui sócio da Torcida Jovem do Flamengo, a mais violenta do clube e talvez do Rio de Janeiro, vivenciei na prática o dia-a-dia das organizadas, é algo que o torcedor comum de futebol não imagina!!!!!

    Quero esclarecer que me associei à Torcida por ser desde pequeno um Rubro-Negro apaixonado, e por que na época não existia meia-entrada para estudantes no Estado do Rio de Janeiro, e a Organizada era uma forma mais barata, através dos ingressos credenciais (vendidos pela metade do preço) , para um adolescente acompanhar seu clube de coração.

    Grande parte dos integrantes das organizadas não tem o mínimo entendimento do futebol como esporte, desconhece as regras, os jogadores do seu clube e dos adversários; aliás nem sequer preocupa-se se o time vai ganhar ou perder o jogo.

    Os caras estão no estádio simplesmente para brigar com os “inimigos” das outras organizadas, que não necessariamente precisam ser do time adversário, e em muitas vezes roubar e agredir torcedores “comuns”, chamados por eles de “povão”, dos adversários e do seu próprio clube.

    Vamos falar da parte boa das organizadas: são elas que “comandam” as festas das torcidas nos estádios; são elas que não abandonam os clubes nos momentos mais difíceis; são elas que acompanham os clubes em suas viagens e incentivam o clube mesmo nas derrotas mais amargas.

    Como já disse, sou um apaixonado pelo futebol em geral, e está minha paixão inclui as organizadas (apesar de não ser sócio de nenhuma delas desde os 18 anos).

    O grande problema, no que tange a violência no futebol brasileiro, não é a organizada, mas sim a forma como as autoridades fiscalizam essas torcidas.

    O policiamento nos estádios tem que ser feito de forma mais eficaz, porém, menos violenta. Os policiais no Maracanã tratam todos os torcedores, todos mesmo, como inimigos, e acham normal dar pancada em cidadãos nos arredores do Estádio.

    A revista realizada na entrada do Maracanã é vergonhosa!!!! Caso um marginal queira entrar com uma arma no estádio ele consegue sem a menor dificuldade.

    Os serviços no estádio são péssimos, desde banheiros até as opções de alimentação, passando por estacionamento e distribuição de ingressos. Espantando as famílias e mulheres dos estádios.

    Vou parar por aqui para não me alongar, se já não o fiz, poderia passar um dia inteiro escrevendo sobre os dissabores dos torcedores nos estádios brasileiros, fatos esses que na minha opinião contribuem para o aumento da violência nos dias de jogos de futebol.

    Falta muito, infelizmente, para chegarmos a um nível mínimo de conforto e segurança no Estádio do Maracanã, tido como modelo para a Copa de 2014. E isso me assusta!!!!!

    Por fim, acho que depois de tudo o que escrevi, não precisava dizer, mas digo, sou totalmente contra o aumento do preço dos ingressos para jogos de futebol (visando “melhorar” o nível cultural dos frequentadores), por achar que os clubes não oferecem um espetáculo de qualidade para justificar preços mais altos; por achar que o conforto e a segurança oferecidas não justificam nem os preços atuais; e por fim, por ter certeza de que nível social é totalmente diferente de nível cultural e principalmente, não reflete, necessariamente, honestidade e educação.

    Desculpe o tamanho do comentário, e abraços !!!

    Olá Jorge,

    O seu comentário exemplifica muito bem a nossa precária situação. Esse torcedores uniformizados ( ou vândalos uniformizados) são um câncer para o nosso futebol.

    Não concordo que eles tenham esse papel de alegrar os estádios, já que com os mesmos objetos que eles fazem ” a festa” do futebol também agridem e matam.

    A questão não é discutir simplesmente o aumento do preço dos ingressos, que deve estar balizado na melhora substancial do serviço a ser oferecido e sim de um serviço de inteligência e punição severa para os envolvidos em atos de violência.

    Um abraço.

    Amir

  6. Amir, tem razão, desculpe.

    Ok Robert, um abraço.

    Amir

  7. Amir, a criação de novo estádios não bastam, mas sim condições para frequentá-lo.

    Criam-se depto. e esquemas especiais da polícia militar(que não deveria cuidar disso, deveria ser responsabilidade dos clubes e nao do governo por se tratar de um evento privado) para inibir a violência nos estádios mas falta punição. Claro que os fatores sociais-econômicos inflenciam mas não são determinantes a meu ver, uso como a exemplo a India, que trata-se de um país paupérrimo, menos desenvolvido que o Brasil, mas onde o indice de criminalidade é baixo, e um dos motivos disso são as leis severas para qualquer tipo de delito.

    Na Europa, tbm tem problemas de violencia, mas lá existe justiça e punição, os criminosos são punidos e de maneira severa. Aqui não, o vandalo disfarçado de torcedor, faz o que quer e nao é punido.

    Portanto, você está correto, sistema de controle e leis severas sanariam boa parte do problema.

    Abraços,

    Olá Sérgio,

    Na Inglaterra por exemplo, caso um torcedor invada o campo, além de uma multa pesada, o invasor recebe uma punição exemplar, já que é processado.

    Aqui no Brasil, infelizmente a impunidade tem sido a responsável pelo caos atual nos jogos de nossos clubes.

    Fazendo um link com o post “Pacote Verde”, no Brasil sempre que se cria um projeto de venda antecipada de ingressos, pensa-se somente no torcedor de alta renda. Será que carnês populares não ajudariam a controlar e conhecer quem são os torcedores que vão aos estádios? Na Europa, com os lugares marcados e season tickets com código de barra, os clubes sabem exatamente quem foi ao jogo e onde está sentado o espectador.

    Um abraço.

    Amir

  8. Amigos, o comentário do Jorge descreve fielmente a experiência de assistir a uma partida de futebol no Brasil.

    Faço uma observação: aumentar os preços dos ingressos tem que ser OBRIGATÓRIAMENTE acompanhado de uma substancial melhoria no nível de serviços prestados no estádio, dentre os quais se inclui a segurança, que como já dissemos em outro post, não pode ficar a cargo exclusivo da PM.

    Quanto aos resultados de levar um novo público aos estádios, com as condições que descrevi acima, pergunto-lhes: se em lugar do show do Iron Maiden no estádio do Palmeiras tivéssemos em um estádio 40 mil pessoas num show de rap, como muitos que já aconteceram em São Paulo, qual seria o resultado prevísivel ( a exemplo dos resultados que já tivemos em eventos desse tipo)? Desculpem, não quero ser preconceituoso, mas quero deixar essa constatação bem clara aqui.

    Outro reforço para esse ponto: lembram-se dos confrontos de organizadas (inclusive com mortes) nos jogos da Taça S. Paulo de juniores quando não havia cobrança de ingressos?

    Por fim, concordo que uma política de segurança pública mais severa e um aparato jurídico mais eficiente são fundamentais…Mas isso não pode ser o único foco de ação, pelo simples motivo de extrapolar o raio de ação dos clubes e dos promotores de eventos esportivos em geral. Sabemos por nossa experiência o que significa depender das ações do poder público, especialmente no quesito segurança…


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