Publicado por: Amir Somoggi | 14/fevereiro/2008

Premissas equivocadas – II

Como apresentei em meu último post, há um grande potencial a ser explorado em diferentes fontes de receitas no futebol brasileiro atualmente. Contudo a gestão do futebol no Brasil deve passar por uma profunda reflexão e principalmente mudança de direcionamento. As premissas escolhidas para fundamentar a gestão estratégica de todos os envolvidos com futebol no Brasil devem ser acertadas e esses sãos os outros players do mercado que podem modificar o nosso ambiente de negócios:

Entidades de administração do desporto 

O futebol na Europa para atingir um alto grau de profissionalização utilizou técnicas de gestão aplicadas nas Ligas Americanas. O resultado da adoção de uma gestão corporativa a partir da década de 90, trouxe um novo posicionamento para as diferentes entidades de administração do desporto como FIFA,UEFA,Confederações Nacionais e as Ligas Profissionais. 

No futebol brasileiro embora tenhamos além da CBF e Federações Estaduais o Clube dos Treze e FBA, nosso mercado não se modificou estrategicamente, o que resulta como mostrado em diversos exemplos pelo mundo, na transformação de suas competições em um produto com alto valor agregado e no fortalecimento do futebol como negócio. 

Os clubes, que são fundamentais nesse processo de mudança, devem compreender internamente como devem se reestruturar, mas também interagir corretamente com seu ambiente externo. O Brasil deve criar um modelo próprio de administração do desporto profissional, mas muitos mercados têm resultados a nos ensinar para a escolha da direção correta.  

Jogadores e seus empresários 

Os atletas e seus respectivos empresários são componentes essenciais para a maximização do negócio futebol. No Brasil desde o fim da Lei do Passe, os jogadores não perceberam qual deveria ser o seu papel e de quem comanda suas carreiras. Muitos atletas de futebol no Brasil poderiam ter construído, pelo menos parte de suas carreiras no mercado brasileiro. 

Infelizmente o Brasil não conta com empresas de representação de atletas que desenvolvam um plano de carreira de longo prazo para seus clientes, que além dos aspectos jurídicos e esportivos também cuidem do posicionamento do jogador no mercado de marketing e publicidade, treinamento e desenvolvimento de outras habilidades como media training e conhecimento de idiomas e também em consultoria sobre finanças pessoais, apenas para citar alguns exemplos.  

Fornecedores de serviços de marketing 

As empresas que criam e desenvolvem projetos nas diferentes disciplinas de marketing e comunicação têm papel fundamental na criação de valor para o mercado esportivo no Brasil, principalmente no futebol. As agências e consultorias devem oferecer a seus clientes projetos cada vez mais elaborados e focados nos negócios dos anunciantes e patrocinadores. 

A adoção de conceitos novos e mais eficientes de marketing esportivo com amplo ROI, através da utilização de diferentes indicadores, somente serão uma realidade no Brasil quando fornecedores de serviços de marketing no esporte utilizarem o mesmo nível de criatividade e rigor estratégico das ferramentas tradicionais como a propaganda e promoção de vendas. 

Mas como o esporte pode ser utilizado como uma plataforma muito mais completa de marketing, comunicação e promoção que qualquer outro segmento, quem cria os projetos pode desenvolver inúmeros showcases no mercado. 

 Poder Legislativo e Judiciário 

O Poder Legislativo tem papel preponderante na gestão esportiva de um país, através da fiscalização do trabalho do Governo, atuação de entidades esportivas profissionais e de outros players do mercado. Os senadores, deputados e vereadores devem fomentar o debate nacional sobre os temas mais relevantes para a profissionalização do esporte no Brasil, através de seu desenvolvimento econômico e social. 

O Poder Judiciário, como comprovado na Europa foi um dos principais responsáveis pelo processo de mudança ocorrido no futebol do Velho Continente. As punições para torcedores violentos e a nova regulamentação do esporte europeu, transformando especialmente o futebol em um estrutura empresarial, colocou o Judiciário como parte essencial para a mudança ocorrida a partir da década de 90.  

Meio acadêmico 

Com a evolução do esporte como negócio no Brasil, muitas Faculdades já oferecem variados cursos de especialização, pós-graduação e MBA em Administração Esportiva e Marketing Esportivo. Entretanto, muito diferente dos principais mercados do mundo (EUA e Europa), os cursos no Brasil têm severas falhas em aspectos relacionados à qualificação acadêmica e vivência profissional de seus professores.

Muitos professores dos cursos aqui no Brasil possuem formação muito mais esportiva que nas áreas da Administração, mas ministram aulas sobre diferentes assuntos relacionados à gestão do esporte. Um outro ponto muito preocupante é que muitos cursos utilizam a força de trabalho de professores com altíssimo nível acadêmico, mas com nenhuma experiência profissional real e cotidiana na gestão do esporte, fazendo com que o meio acadêmico se distancie de seu principal papel, qualificar profissionais e propor soluções reais para o esporte do país.  

Mas talvez o problema mais grave que enfrenta o meio acadêmico relacionado aos cursos em Administração Esportiva é a falta de alunos matriculados que atuem na gerência e diretoria de entidades desportivas profissionais.  

No meu próximo post vou apresentar uma análise sobre os números publicados pela empresa Deloitte a respeito dos clubes com maiores receitas do futebol europeu na temporada 2006-2007.  


Responses

  1. Amir, obrigado pelo excelente texto. Eu consideraria a imprensa como um eventual player também neste ramo de atividade, com sua função de informar e problematizar o esporte com sua cobertura e comentários a imprensa desempenha papel importante no todo como grande influenciadora no processo de adesão e abandono do produto esporte, mas enfim, é só uma sugestão.
    Penso que sua abordagem em relação aos itens descritos e discutidos é muito interessante, como uma modesta opinião ante tanto conteúdo, apenas pontuaria o prevalecer de questões políticas e interesses individuais em muito do comportamento desses players, do futebol ainda se guarda um pouco da visão de que ele é uma espécie de “política pública”.
    Quanto ao papel do meio acadêmico tenho algumas considerações a fazer: a administração do esporte tem suas idiossincrasias sim e muitas vezes elas são a desculpa para a criação de uma espécie de reserva de mercado que evita que profissionais mais capacitados, vindos de outras áreas, exerçam atividade profissional nela, já ouvi de um professor da UnB que o esporte deve ser administrado apenas e tão somente por profissionais de Educação Física pois o esporte é “diferente” e a administração geral não cabe….nada a comentar, apenas lembrar que a VARIG era gerida por um conselho que representava os funcionários dela (pilotos, comissários, pessoal de back office, front desk, etc.) e vimos no que deu, enfim…
    A formação de um curso de administração esportiva é complicada, existe uma carência de material pedagógico brutal e de professores devidamente capacitados como você mesmo diz, ok, porém, as teorias de administração geral, finanças, marketing e outros temas convergem para o mesmo construto teórico usado para explicar a administração de qualquer tipo de atividade econômica, para isso, é que temos a necessidade de utilizar professores que sejam os guardiães desses construtos para criar a base de um curso destes; do outro lado, temos os profissionais já do esporte que, se deixados tocarem um curso destes sozinhos, apenas serão os propagadores dos vícios existentes e o curso vira uma grande “chapa branca” .

    Em resumo, um pouco de cada um é necessário, teoria, conceitos aplicados e relatos práticos; lembre-se que a própria administração, em termos acadêmicos, nasceu do hábito de empresários relatarem suas experiências. Eu tenho mais medo do já profissional em sua propagação de vícios do que o só acadêmico,precisamos de um equlíbrio dos dois tipos.
    Quanto ao papel da academia de propor soluções para o esporte e formar profissionais tenho mais uma reflexão; a academia, em pesquisa, encontra um problema e o investiga por fundamentação teórica, testes de hipóteses dentre outras atividades podendo propor soluções ou criando modelos de administração específicos, isso é pesquisa e geração de conhecimento, isso não dá “IBOPE” no meio acadêmico, só eu sei os risinhos de canto de boca que vejo na PUC quando apresento meu tema de pesquisa, parece que estou convidando as pessoas pra uma partida de botão.

    Acredito que, a grande missão da academia quanto à formação de profissionais passa por ensinar metodologias de análise do ambiente de negócios e ferramentas de formulação de estratégias, além de corrigir vícios e ensinar conceitos. O profissional formado tem que sair com o aporte teórico e ferramental para resolver problemas, enquanto que a academia os investiga mais profundamente.

    Concordo que temos inúmeros problemas, que é uma área nova sendo isso não uma desculpa, mas se fossemos montar um curso de administração de empresa da indústria do plástico, acredito que os problemas seriam os mesmos.

    Robert,

    Concordo com você quanto ao papel da imprensa como player importante no mercado.

    Entretanto tenho que discordar totalmente de você com relação aos cursos existentes no Brasil. Você me desculpe mas reserva de mercado fez o Brasil ficar 30 anos atrasado frente aos mercados desenvolvidos do mundo e isso está se repetindo com o esporte e pior com o meio acadêmico.

    Como já atuo no mercado há alguns anos posso te afirmar que conheço pessoalmente dezenas de profissionais de altíssima qualificação acadêmica com vasta experiência real em gestão esportiva, que muito poderiam contribuir para que os alunos dos cursos de gestão esportiva no Brasil fossem qualificados não somente com sólidas teorias mas principalmente com uma visão prática fundamentada em conceitos extremamente modernos, não aplicados em cursos no Brasil.

    Entretanto esses profissionais não são professores dos cursos aqui, por essa reserva de mercado citada por você.

    Pela dinâmica e características particulares da Indústria Esporte, tenho plena convicção que um curso de Gestão Esportva é bem diferente de um curso da indústria do plástico ou de qualquer outro setor, somente para usar o seu exemplo.

    Um abraço.

    Amir

  2. Amir, ao contrário do que parece você ter entendido em sua resposta eu considero a reserva de mercado como um grande mal e acredito que todos nós somos vítimas dele.

    O meio acadêmico também tem uma o que faz com que profissionais de vida executiva, como eu, que resolvam ter vida acadêmica tenham, por esta reserva, que cumprir uma série de exigências curriculares que, provavelmente, impede os profissionais que você conhece de adentrar nele e contribuir. Temos que lutar contra isso e acredito que estamos do mesmo lado, talvez eu tenha me expressado mal.

    Reforço, no entanto dois pontos, o papel da academia em investigar problemas e criar modelos de administração e ferramentas de controle e diagnóstico, coisa que nós, no dia-a-dia empresarial não temos tempo de fazer e que cada ramo de atividade tem suas características sim, que a indústria do plástico tem as suas, a aero-espacial também e a do esporte também, o que a diferencia, mas não a mistifica nem a super-qualifica.

    Robert,

    De maneira alguma eu super-qualifico a Indústria Esporte, até poderíamos, já que o esporte como Indústria é algo ainda recente e já movimenta mais de US$ 1 trilhão anualmente no mundo.

    Mas diversos acadêmicos internacionais têm criado ao longo dos anos novos conceitos de marketing que somente podem ser aplicados ao segmento esportivo, dadas as características particulares do setor esportivo, principalmente do consumidor final de esporte.

    Por isso, todos os jovens interessados em se qualificar academicamente que me procuram semanalmente, recebem como conselho buscar um curso no exterior, já que pelo menos nos EUA e Europa, os cursos são ministrados por quem realmente vive e respira esporte e em inúmeros casos com uma bilhante carreira acadêmica. E mutos desses cursos têm preços inferiores aos cursos medianos ofertados atualmente no Brasil.

    Um abraço.

    Amir

  3. Amir, concordo que exista literatura mui específica da área do marketing do esporte, a maioria é estrangeira e tem qualidade; tenho encontrado bastante literatura boa na Austrália como por exemplo , David Shilbury, tenho o livro se quiser dar uma olhada.
    Os novos conceitos de marketing, como a multidimensionalidade dos patrocínios ingleses por exemplo, não só estão na literatura como já aplicados e é legal ouvir falar disso pelos caras que administram isso, sem dúvida alguma, embora não espero dos cursos no exterior ter aulas com o gerente de marketing do Manchester United. Eu mesmo, fiquei maravilhado quando estive em Liverpool, quem sabe eu não emende algo por lá, apesar da minha vida executiva.
    Que os cursos de fora também estão a frente ,acredito que é uma consequencia natural pois são mercados mais maduros, com gente mais madura que começou a investigar o tema antes e com viés mercadológico devido; o Brasil está meio incipiente nisso, na teoria e na prática embora, na sociologia haja material bem interessante “made in Brazil” e você há de concordar comigo, não há como estudar marketing mais sem o aporte da sociologia e da psicologia social, ficar só com o conceito de desejo do Porter é pobre e reduzido; é isso que estou tentanto trazer como contribuição, por exemplo, as resistências são imensas por conta das coisas que estamos discutindo nesse post que virou uma partida de xadrez entre eu e você.
    Pra que encerremos esse assunto, senão vamos fazer esse post virar uma tripa, te peço pra entender que :

    1. Eu não sou adepto da reserva de mercado, tanto na administração esportiva quanto na academia, que nos condena à mediocridade; sou mais vítima dela que beneficiário.
    2. Acredito que podemos, no Brasil, abrir espaço pras pessoas que querem contribuir para o melhor aproveitamento de todas as oportunidades que o negócio esporte traz, é uma bandeira minha isso e é nesse rol que nos inlcuo.
    3. Existem conceitos recentes que precisam ser aportados ao ensino da administração esportiva no Brasil, eu tento, mas é complicado vencer o “status quo”, ajuda é bemvinda.
    4. Não sou defensor dos cursos brasileiros, embora lecione em um, sei que precisamos melhorar muito e que o mercado pros alunos também precisa melhorar.
    5. Embora eu não milite na área do esporte, tenho uma trajetória no esporte que não é a do futebol mas já é algo. Meu trabalho nesta área, minhas pesquisas e tudo que eu fiz até agora não me transformam no dono da verdade, nem tenho essa pretensão, mas me credencio como alguém que quer ajudar e tenho repertório pra isso.
    6. É na discordância que se cresce, que se gera conhecimento, a consideração pelo amigo em nada se abalou neste nosso bate bola de alguns rounds, peço desculpas, no entanto, se se sentiu atingido por algum comentário meu.

    Abraço,

    Robert

    Robert,

    De maniera alguma me senti atingido por qualquer comentário seu. Apenas discordo de alguns pontos defendidos por você.

    Como venho repetindo aqui no blog nosso objetivo é trazer uma nova realidade para a administração de nosso esporte, que infelizmente está fundamentada em premissas equivocadas. Se conseguirmos mudar alguma coisa, já nos sentiremos felizes.

    Com relação ao meio acadêmico, realmente tenho severas críticas, mas são muito menores, que a insatisfação de muitos alunos desses cursos aqui do Brasil, já que muitos já falaram comigo e se disseram irritados com a falta de vivência no esporte por parte de muitos de seus professores.

    Um abraço.

    Amir

  4. Amir, recentemente estive na Itália e pude acompanhar os canais 24h dos clubes AC Milan e Juventus. Fiquei maravilhado pela forma que é feita a cobertura dos bastidores com entrevistas descontraídas sem aquelas perguntas repetitivas e com debates de jornalistas especializados. Não sei se você concorda mas fiquei com a sensação que esse formato é um tipo de imprensa do torcedor e não uma imprensa torcedora como é o caso de alguns veículos de comunicações daqui que não fazem a mínima questão de esconder para quem torcem. Eu penso que seria a melhor forma para o torcedor se informar sobre seu time de coração com muita objetividade e sem ficar esperando os programas esportivos que depois de falar meia hora de um só clube gasta mais meia só pra fazer merchan, isso para quem não tem TV por assinatura.

    Abraços.

    Olá Ricardo,

    Obrigado pelos exemplos. Os clubes devem ter seus canais ou programas próprios e vejo para o Brasil a realidade de TV aberta absolutamente viável para projetos dessa natureza.

    Todos os casos de canais próprios dos clubes (rádio, TV, internet) têm como objetivo oferecer um perfil focado nas expectativas máximas do torcedor, pois acima de tudo é um projeto de marketing. O jornalismo praticado, embora de muita qualidade como você citou é feito para atingir o coração da audiência do time, com um narrador-tocedor, comentarista-torcedor, etc. Além disso, o canal consegue cativar a audiência através do oferecimento de uma série de conteúdos exclusivos.

    O melhor dessa realidade é que os veículos de imprensa independentes tomam uma dimensão ainda maior, já que muitos torcedores vão buscar as informações imparcias e livres de qualquer aspecto clubístico.

    Um abraço.

    Amir


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