Publicado por: Marcos Silveira | 12/fevereiro/2008

“Reinventores” do futebol

Na semana passada a Premier League voltou a mostrar porque a Inglaterra é o país que mais fatura com o futebol. Os inventores do esporte podem não ser os melhores dentro das quatro linhas, mas são imbatíveis no extracampo.

O novo plano dos ingleses, que ainda está sendo discutido e valeria a partir de 2011, consiste em levar jogos da liga para outros países. Nesse caso a temporada teria uma rodada a mais (39 ao invés das 38 convencionais) e cada um dos 20 clubes faria um jogo extra fora da Inglaterra. Seriam 10 partidas – provavelmente em Janeiro – para aumentar ainda mais a penetração do já popular campeonato inglês em outros mercados.

A idéia é tão ousada quanto polêmica. Jogadores e técnicos não entram em acordo. Torcedores criticam e até o governo tem reservas em relação a essa possibilidade, como você pode ler, em inglês, na matéria do Guardian.

Torcedores do Liverpool em Hong Kong

A foto acima, também retirada desse link do Guardian, mostra fãs do Liverpool em Hong Kong. Possivelmente eles estariam entre os beneficiados pela proposta da Premier League.

O interesse por outros mercados é uma tendência crescente. Não é de hoje que os principais clubes europeus (e não apenas ingleses) fazem excursões e até mesmo a pré-temporada em países como China, Coréia, Emirados Árabes Unidos etc. Mas a Premier League quer ir além (literalmente) e se espelha nas ligas profissionais dos Estados Unidos.

Um exemplo muito bem sucedido vem da National Football League (NFL), a liga de futebol americano. Em outubro do ano passado o New York Giants, recém-campeão da NFL, enfrentou (e venceu) o Miami Dolphins no remodelado estádio de Wembley, em Londres.

NFL em Wembley

Foi a primeira vez que uma partida da temporada regular da NFL foi disputada fora da América do Norte. Os mais de 80 mil ingressos se esgotaram em menos de 2 horas. De tão bem sucedida, a experiência vai se repetir este ano: San Diego Chargers e New Orleans Saints jogam em Wembley em 26 de outubro.

Enquanto o futebol inglês traça planos ousados e pensa em ultrapassar suas fronteiras, os clubes brasileiros parecem se contentar com suas realidades domésticas. Com exceção do Internacional, que iniciou o ano ganhando um título em Dubai (além de visibilidade e prêmio em dinheiro), e do Vasco, que também foi para os Emirados Árabes, todos continuam se exibindo apenas por aqui.

E não adianta reclamar da falta de datas. Por mais que os clubes sejam reféns do calendário, eles poderiam se unir para propor alternativas e exigir mudanças. Um bom começo seria repensar os cada vez menos interessantes (e muito longos) campeonatos estaduais. A CBF também poderia colaborar, abrindo um espaço para os times excursionarem, como acontecia antigamente.

Enquanto nada disso acontece, o jeito é tentar adaptar a idéia da Premier League ao cenário atual. Já que estamos num país de dimensões continentais, que tal fazer uma rodada do Campeonato Brasileiro em lugares que dificilmente recebem um jogo de primeira divisão?

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Responses

  1. Caro Marcos, penso que todas as contribuições, sugestões e propostas para chacoalhar o mercado com inovações são bem vindas, porém, minha visão a respeito dessa idéia de alguns ingleses é carregada de reservas.
    O futebol inglês é extremamente eficiente em fidelizar seu público por meio de mecanismos sólidos de identificação, inserção e participação social. É a antítese da lógica moderna, de relacionamentos superficiais e efêmeros, o torcer e acompanhar um time que é do seu bairro ou que represente sua origem, classe ou todos juntos vira um compromisso “com rosto”, o rosto é do seu vizinho, de rua ou de cadeira, ou da sua vida.
    O efeito prático dessa minha sociologia de botequim são os já conhecidos: uma liga de credibilidade, estádios cheios, lojinhas cheias e sustentabilidade financeira, apesar dos preços altos que dificultam a renovação da base de torcedores ingleses.
    Como tantos clubes ingleses estão sendo adquiridos por investidores, a maioria estrangeiros, eventualmente volta a lógica moderna das relações modernas: tomado o mercado interno, vamos tomar outros mercados para crescer; qualquer coincidência com a Telefonica é mera semalhança.
    Clubes como o Arsenal e o Everton, que conheço bem, tem bases de fãs consideráveis na Ásia, o patrocinador publicitário do Everton, por exemplo, é uma marca de cerveja que não se vende na Inglaterra e sim na distante Malásia, funciona ? Parece que sim, o contrato foi renovado recentemente por três anos por singelos 8 milhões de libras. O Arsenal caiu nas graças dos jovens tailandeses há tempos e até desenvolveu uma linha de steetwear produzida localmente para atender a esse público.
    De todo esse caldeirão vem um dilema complicado, “abandono” meu torcedor/consumidor fiel algumas vezes ao ano para buscar novos mercados ou sigo fomentando essa relação umbilical com a minha “comunidade” ? Como vai se sentir um torcedor que ao invés de ir ao estádio verá, se pagar, seu time fazer um jogo em “casa” em Hong Kong; poderão haver problemas de credibilidade na Liga ?
    Minha opinião é de que jogos da Liga não deveriam ser jogados no exterior, talvez de competições menores como as Copas inglesas, um ou outro jogo; a Liga pode ter prejuízos esportivos, técnicos e mercadológicos.
    Quanto ao Brasil, nós mal ocupamos 30% de nosso mercado potencial, 26% dos estádios. Antes de explorar o mundo, ou mesmo outros rincões abandonados do Brasil, precisamos arrumar a casa , por hora, a solução está em penetrar nosso mercado ainda, depois, na lógica do capitalismo do mundo plano, sair para conquistar.

    Olá Robert! Obrigado pelo comentário.
    Entendo que a proposta da Premier League não configura um “abandono” do torcedor local e sim uma aproximação do fã que mora longe. Por isso a idéia é fazer uma rodada A MAIS. Eu pessoalmente aprovo a iniciativa, mas concordo com você que talvez fosse melhor fazer um piloto nas competições menores.
    Abs, Marcos

  2. Marcos, certamente você viu que esse tema foi abordado ontem no programa do Galvão com seus convidados, na Itália.

    Assim com o Robert, eu acho que há um custo grande (e não apenas financeiro) em se procurar a internacionalização dos campeonatos locais – nesse caso o inglês – dessa maneira.

    O Leonardo, ex-jogador e dirigente do Milan, acredita que no futuro possa haver uma grande Champions League internacionalizada, com partidas em outros continentes.

    Abraço.

    Infelizmente não assisti ao programa, Mauricio.
    O Leonardo é o melhor (e talvez único) exemplo de jogador brasileiro que soube tirar proveito da carreira para se transformar num verdadeiro gestor de futebol.
    E concordo com a análise dele. Nesse caso a UEFA poderia aumentar o número de times nas fases eliminatórias fazendo jogos únicos ao invés de ida e volta. Enfim, é para se pensar…
    Abs, Marcos

  3. Marcos e amigos,

    Em agosto de 2007 foi publicada uma matéria escrita pelo jornalista David Conn na revista mensal do The Observer com o título ” How foreign tycoons bought football´s soul”.

    Na matéria é abordada a entrada de muitos investidores estrangeiros, muitos deles norte-americanos, que consideram a gestão dos negócios da Premier League segundo o jornalista: ” An unsophisticated Third World mentality”.

    Real Madrid e Barcelona, por seus aspectos políticos na relação com seus sócios, puderam globalizar suas marcas, sem perder sua identidade regional e sem correr o risco de cairem nas mãos dos magnatas do esporte global.

    Um abraço.

    Amir

  4. Achei muito interessante esta idéia da Premier League.

    Penso que os torcedores locais são seriam deixados de fora, afinal seria criada uma rodada a mais e a marca do clube seria fortalecida e expandida interncionalmente, gostei!

    O Milan tbm recentemente lançou site exclusivo para o torcedor brasileiro, com informaçoes, produtos do clube, e até pacotes especiais para os fãs brasileiros poderem acompanhar na Italia, claro que eles nao pensam em substituir o clube de coraçao do brasileiro, mas por que nao ser o segundo clube?Uma boa oportunidade de negócio.

    Sem querer desviar do assunto mas esse post me levou a pensar sobre a recente criaçao da Super Liga Fórmula, que é competição automobilistica entre clubes do futebol mundial. Já tem 2 clubes brasileiros, Flamengo, Corinthians, além do Milan, Sevilha e outros. Os clubes de futebol percorrerão o mundo trocando a bola pelos carros na disputa..o que vcs pensam disso? Acho que valeria um bom topico de discussao.

    Grande abraço,

    Olá Sergio! Obrigado pelo comentário.
    Você captou exatamente o espírito da idéia inglesa. Por ser polêmica e enfrentar rejeição (inclusive aqui nos comentários! hehe), pode ser que a Premier League tenha de frear seu ímpeto. De repente eles começam internacionalizando apenas um jogo para depois ampliar para uma rodada inteira.
    Sobre a Fórmula Superliga, em princípio eu considero uma boa idéia, já que os clubes não gastam nada (pelo que se comenta) e ainda ganham visibilidade internacional. Por outro lado, alguém vai lucrar com as imagens dos participantes… Sem dúvida vale um post exclusivo, que será feito brevemente por um dos participantes do blog.
    Fique a vontade para sugerir temas!
    Abs, Marcos

  5. O Brasil vai na contra-mão. “Promove” Barueri, Rio Claro, Rio Preto e outros afluentes.
    No futuro, do jeito que está, teremos excursões do Guaratinguetá e seus craques. Tomara que não seja tarde quando abrirem os olhos no Brasil.

    É verdade Cesar…
    Enquanto os dirigentes dos clubes grandes não abrem os olhos, o Guaratinguetá aumenta a vantagem na liderança do Paulista. Já são sete vitórias consecutivas em oito rodadas. E os gestores do time do Vale do Paraíba, fundado há menos de 10 anos e administrado como uma empresa, estudam a possibilidade de comprar uma equipe na segunda divisão da Espanha. Loucura? Em princípio seria uma forma de se defender do assédio dos chamados grandes aos seus jogadores. Mas pode ser o passaporte para começar as excursões…
    Abs, Marcos

  6. Amir, excelente sugestão de artigo, já salvei a “printable version”; em tempo, conversei há alguns dias com o professor Rogan Taylor, da Universidade de Liverpool. Como vocês devem saber, ele lançou um projeto de juntar 100.000 pessoas que contribuiriam com 5.000 libras (fácil, né ?) cada uma para comprar o Liverpool FC dos investidores americanos que hoje o detém. Ele me disse saber que não é uma tarefa fácil, mas que o projeto pode acender a discussão sobre o modelo de propriedade dos clubes ingleses, que como diz o artigo, viraram empresas que se compra e vende como outra qualquer sem levar os aspectos de herança, tradição e origens.

  7. Concordo com o Amir, Real e Barcelona estão ilhados nesse mundo dos grandes.

    Oi Ricardo,
    Estive recentemente em Madrid e Barcelona e pude comprovar in loco o que é uma gestão estratégica de marketing. O maior mérito de Real e Barça, na minha opinião, é conseguir resultados tão relevantes mesmo estando numa economia modesta como é a da Espanha.
    Os principais clubes ingleses (principalmente Manchester United e Arsenal) também apresentam ótimos números. Nesse caso estar na mais rica e bem sucedida liga de futebol da Europa ajuda bastante.
    Abs, Marcos

  8. Pra mim é novidade essa idéia dos ingleses. Nunca parei p/ pensar em uma forma de divulgação dos times e também de expandir uma torcida para outros países colocando uma rodada a mais no campeonato, é claro que treinadores, jogadores e talvez até mesmo a imprensa não teriam muito interesse em ter um jogo a mais no ano e em um país diferente, pois com isso o cansaço seria maior e a reclamação também, mas com o tempo essa idéia seria acatada de uma forma melhor quando os times vissem o aumento da torcida, aumento de vendas de produtos dos times, aumento de patrocínio, de divulgação e tudo isso para levar o nome dos times para todos os cantos do mundo. Sei que aqui no Brasil com esse calendário ridículo, seria mais difícil criar essa rodada a mais, mas seria muito interessante para o crescimento dos times em todos os aspectos. Enquanto isso está sendo pensado apenas na Inglaterra, fica aí o nosso desejo de receber em 2011 um Chelsea e Manchester United no Morumbi, hehe
    Abraços

    Pois é, Eduardo. Enquanto os clubes brasileiros não fazem nem o mínimo necessário, que é atender o torcedor/cliente daqui, os times ingleses preparam uma forte investida aos países que já consomem a Premier League, principalmente na Ásia. Pode até ser que o Brasil receba alguma partida, mas não acredito que seja no Morumbi e sim numa possível nova e moderna arena que deve ser construída visando a Copa de 2014.
    O mercado externo é tão importante que até a Heineken trouxe a taça da Champions League para cá. A ação da cerveja que patrocina a maior competição de clubes do mundo faz todo sentido já que o Brasil é o país com mais jogadores no torneio. Vou tentar escrever um post sobre isso ainda esta semana.
    Abs, Marcos

  9. Apenas pra “encerrar o assunto”, acaba de sair no Soccer Investor que a idéia foi abandonada, em parte por pressão do presidente da FIFA.

    Obrigado pela notícia, Robert. Vou dar uma olhada lá.
    Mas você sabe melhor do que eu que esse assunto não se encerra! hehe
    A internacionalização dos clubes e campeonatos de futebol é uma necessidade.
    Sem descuidar dos aspectos regionais, que são importantíssimos, é claro.
    Abs, Marcos

  10. Beleza, Marcos, é uma típica saída de quem precisa crescer e já não encontra espaço no mercado interno.
    Aguardemos os próximos passos da FAPL, sempre aprendemos algo com eles.

    Eu diria que os ingleses são os únicos que analisam o cenário futuro e se preparam para ele. Ao menos no futebol…
    Abs, Marcos

  11. Em 2006 o Paraná mandou seus jogos contra os grandes de SP aqui em Maringá. Foi um sucesso, casa cheia (em torno de 20.000) em todos os jogos, com ingresso mais barato a R$20,00. O Paraná foi mal nos jogos, mas arrecadou líquido o equivalente a umas 10 partidas em casa.

    Apesar de ter um estádio médio, e ser centro de uma região com 2 milhões de habitantes, a cidade não tem uma equipe forte. Ficou sem futebol profissional por muitos anos, e agora está com um time de novo. Até bem gerido por sinal, mas que ainda não conseguiu corresponder em campo.

    Como a região foi colonizada no século XX por paulistas, todo mundo torce pelos grandes de SP.

    Até se aventou a possibilidade do Paraná mandar seu jogo contra o Internacional em Cascavel, cidade de uns 200.000 habitantes no Oeste, centro de uma rica região produtora de soja, que foi colonizada por gaúchos, e onde todo mundo torce pelo Inter ou pelo Grêmio. O estádio lá tem capacidade pra 40.000 pessoas (digamos 30.000 com segurança).

    Onde eu quero chegar: há todo um potencial dentro do Brasil para os clubes explorarem. Já seria de bom tamanho os grandes fazerem excursões e pré-temporadas nesses mercados nacionais que são carentes de futebol de qualidade, onde o brasileiro vive da cobertura dos grandes centros.

    Se fosse na Inglaterra ou na Espanha, cada cidade dessa teria pelo menos um time médio.

    Seja bem-vindo, David! E muito obrigado pelo excelente exemplo!
    Quando eu soube da idéia da Premier League pensei exatamente nesse tipo de aplicação que você lembrou muito bem. E o Paraná Clube nem precisou sair de seu estado para provar a viabilidade. Num país continental como o Brasil, os clubes precisam aprender a conquistar e cativar públicos fora de sua cidade.
    Como você mesmo falou, há muitos mercados carentes que estariam dispostos a ver e consumir os jogos e produtos de equipes como Corinthians, Cruzeiro, Flamengo, Internacional, Paraná, São Paulo, Vasco etc.
    Os chamados clubes grandes, que têm torcida no país inteiro, precisam ser criativos e ousados para aproveitar oportunidades, assim como o Paraná em 2006.
    No Campeonato Paulista deste ano o Palmeiras tem jogado em várias cidades do interior por conta da reforma do Palestra Italia. Resultado: estádios cheios, dinheiro no cofre do clube e milhares de torcedores satisfeitos! Imagina se isso fosse feito com critério e planejamento e não somente pela necessidade momentânea…
    Fique a vontade para comentar e exemplificar. A participação das pessoas que passam por aqui é que faz o blog valer a pena!
    Abs, Marcos


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