Publicado por: Maurício Bardella | 29/janeiro/2008

Tese sobre estádios brasileiros

O site Terra divulgou hoje matéria a respeito de estudo elaborado na  faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, defendendo que os principais estádios do Brasil sejam demolidos, e não reformados, com o objetivo de atender às exigências da FIFA em relação à Copa 2014.

Trata-se de uma tese de doutorado do arquiteto Carlos de la Corte. Pelo que diz a matéria, o estudo abrange quatro entre os mais importantes estádios do Brasil: Morumbi, Maracanã, Mineirão e Pacaembu. Acredito que esse trabalho possua um foco eminentemente técnico, mas penso que do ponto de vista de marketing e negócios a solução de optar por novas arenas ao invés de reformas é, a princípio, igualmente recomendável.

No caso da cidade de São Paulo, eu sugiro cuidado para que não se envolvam paixões clubísticas tanto para os que defendem a reforma do Morumbi quanto para os que, como eu, defendem uma nova arena para a capital paulista. Essa nova arena poderia ser a casa, inclusive, do próprio São Paulo F.C., caso esse assumisse o papel de liderança em gestão que lhe é comumente conferido.

Para quem se interessar, segue o link da matéria:

http://esportes.terra.com.br/futebol/brasil2014/interna/0,,OI2288014-EI10545,00.html

Acima de tudo me parece que as novas arenas desempenharão um papel fundamental em um novo modelo de gestão do futebol, funcionando como uma fonte importante de receita, fidelização de torcedores/clientes e valorização do produto.


Responses

  1. Quando um levantamento destes é feito, assim como a análise do SINAEMCO publicada ao final do ano, sem paixões, ufanismos e sem os aspectos políticos que cercam a Copa de 2014 confesso que o pessimismo e os velhos fantasmas, que frequentaram o orçamento do PAN, tomam conta de mim, infelizmente.
    O velho discurso surge, de que a iniciativa privada constrói e explora as novas arenas e que assim não se onera o Estado e tudo mais; no final, o país já assumiu o compromisso e a iniciativa privada não vem e o final todos sabemos, só falta fazer um “bolão” pra saber em quanto vai se estourar o orçamento preliminar, é a farra de sempre.
    Com os atuais público e tíquetes médios alcançados no futebol brasileiro hoje, com a prática de naming rights engatinhando com dificuldades dentre outros problemas, será que alguém investirá em arenas esportivas no Brasil ? Será que o poder público e a população pensam que a iniciativa privada não sabe fazer contas ? Estudos feitos por mim, pelos donos do blog que apresentaram tal estudo como trabalho de conclusão (fui professor convidado nesta apresentação e foi muito legal) mostram que as receitas de bilheteria precisam crescer bastante para tornar esses investimentos viáveis, dentre outras iniciativas, claro. É a velha necessidade que se manifesta por outro meio, o futebol brasileiro precisa de um novo posicionamento, alcançar novos públicos com novos perfis de renda e de consumo….um fator chave para isso, CREDIBILIDADE.
    Por menos que pareça, sou alguém que acredita que novas arenas devam surgir, mas elas devem surgir de iniciativas de negócio planejadas, sustentáveis e rentáveis, para tal, muito mais que as novas arenas são necessárias, embora importantes.
    O que parece que veremos, se não transformarmos o produto futebol, são monumentos aos reinados dos políticos e a COPA 2014 como grande cabo eleitoral, e adivinhem quem vai pagar a conta.

    Robert, acho sua posição coerente e suas dúvidas pertinentes. Apenas observo que, no caso específico do Morumbi, que é um estádio privado, a conta da reforma ficará em grande parte para o poder público! E esse é um movimento inteligente do clube, que busca espaço através da cessão da praça Roberto Gomes Pedrosa, em frente ao Morumbi, e verba para a construção e a manutenção de um estacionamento com o governo do estado. O São Paulo alega (corretamente, por sinal) que esse investimento não obteria retorno, devido à grande ociosidade; no caso do Morumbi isso é rigorosamente verdadeiro, já que é impossível configurar o estádio como um empreendimento multiuso, capaz de gerar tráfego em dias sem jogos.

    Portanto, concordo plenamente que novos projetos de arenas devem ser pensados e configurados como empreendimentos auto-sustentáveis e rentáveis. A reforma de velhos estádios público e privados será, essa sim, uma forma de investir dinheiro público em estruturas economicamente pouco viáveis, e será essa na minha opinião uma das grandes fontes de desperdício que enfrentaremos.

    Quanto ao aspecto credibilidade, bem, aí de fato reside um grande empecilho para o processo. Porém observo com esperança que, ao menos dentro de campo, o produto futebol ganhou uma credibilidade que há apenas dez anos pareceria inconquistável, e isso se deu especialmente a partir da obrigatoriedade legal em se manter regulamentos por mais de uma temporada e com a obediência, por exemplo, ao rebaixamento. Lembro que nenhuma voz se ergueu para tentar salvar o Corinthians da série B, propondo uma virada de mesa…

    Portanto, credibilidade é sim um grande problema, mas tem que ser enfrentado.

    Mauricio Bardella

  2. É, infelizmente concordo com o Robert. Uma análise superficial nos balanços do SPFC mostra o Morumbi muito mais como um centro de custos do que como gerador de receitas.
    Isso ocorreu (ainda não tenho os dados de 2007) em 2005 e 2006, graças às finais da Libertadores e graças, em 2006, a um mega-show, que sozinho deixou 800 mil ou um milhão de receita.

    Nossos ingressos são muito baratos para gerar retorno do investimento necessário, e ao mesmo tempo são muito caros para: 1- o que é oferecido para quem pode pagar; e 2 – são absurdamente caros para o grosso da população.
    Ainda na linha do contraditório, são baratos para uma camada da população, mas para essa o futebol não tem apelo, não oferece nada, exceto o próprio jogo, em troca de um ingresso ainda mais caro.

    Fechando a contradição: o estádio lotado nas finais da LA, os preços majorados para esses jogos e mesmo assim a ação de cambistas vendendo ingressos de futebol a preços estupidamente altos, comprova que dá para pensar em retorno.
    O problema é: final de Libertadores, com muita sorte e competência, é uma só por ano. O ano tem 52 semanas de contas a pagar e um estádio precisa ter, pelo menos, umas 30 semanas de grande faturamento para se pagar e deixar dinheiro em caixa.

    Uma arena/shopping pode faturar 52 semanas por ano, mas, quem vai bancar?
    A que retorno?
    Por quanto tempo?

    Emerson, muito boas suas questões.

    Mais uma vez observo, porém, que o Morumbi não foi superavitário em 2005 e 2006 por causa da Libertadores, já que a receita desses jogos não entra na contabilidade do estádio, e a realização de um grande show em 2006 (este sim componente da receita) foi significativa, embora tão significativa quanto tenha sido a valorização dos camarotes corporativos.

    Não podemos fazer uma análise de negócio com base nas condições de custo e receita hoje existentes. Uma nova e moderna arena, capaz de gerar dinheiro 7 dias por semana com lojas, restaurantes, centros corporativos para reuniões, exposições e convenções, espaços de entretenimento e assim por diante, terá evidentemente uma estrutura de custos maior, assim como um potencial para atrair consumidores de outro perfil, e portanto capazes de prover um aumento nas arrecadações das partidas de futebol.

    A conta de fato não é fácil. Em nosso estudo acadêmico mencionado pelo Robert, o prazo de retorno era inferior a nove anos.

    Investidores potenciais como a construtora WTorre vem fazendo suas contas…penso que se projetos ainda não foram iniciados, isso se deve mais à dificuldade em se lidar com as arcaicas e viciadas estruturas administrativas dos clubes que por dúvidas quanto ao potencial do negócio.

    Mauricio Bardella

  3. O mal aproveitamento dos estádios brasileiros, mesmo o mais moderno e confortável, o Engenhão, exige medidas urgentes mas não tão complicadas como faz supor uma argumentação técnico-empresarial rígida.
    No caso do Engenhão, por exemplo, desde que o Botafogo assumiu o estádio, em 2007, é patente a subutilização do setor Oeste, reservado a um público VIP que simplesmente não comparece aos jogos. O setor comporta cerca de 17 mil lugares e nunca teve mais de 2 mil ocupados, na melhor das hipóteses. Em geral, o público ali não chega a 500 pessoas, enquanto o setor popular Leste comprime a massa da assistência.
    Se o jogo recebe 20 mil pagantes, no mínimo 16 mil estão na área Leste e pelo menos outros 3 mil se colocam atrás dos gols, nos setores Norte e Sul, restando apenas 1 mil no setor Oeste. São cada vez mais raros os jogos com público de 40 a 47 mil pessoas, que é a capacidade máxima do estádio, atingida apenas uma vez, na partida inaugural em agosto de 2007 (Botafogo 2 x 1 Fluminense).
    A solução parece simples: reduzir drasticamente o preço dos ingressos em todos os setores, sobretudo no Oeste, para que aumente de forma significativa a média de público do Botafogo em seu estádio. A permanente lotação máxima do Engenhão, mesmo com preços bastante reduzidos, daria, primeiro, retorno financeiro bem maior que a atual política de públicos minguados. Segundo e mais importante, possibilitaria ao clube negociar melhor seus contratos publicitários, não só com a TV e os anunciantes em uniformes, mas sobretudo a venda de espaços comerciais no campo, no centro de treinamento anexo, nos acessos ao estádio e nas outras sedes do Botafogo (General Severiano, Praia, Lagoa, Caio Martins e Marechal Hermes). Grande público com presença constante é garantia de faturamento e não apenas nem sobretudo com ingressos.
    Claro, a montagem de equipes sempre melhores e mais competitivas – o que envolve questões financeiras e administrativas complexas – é fator essencial para manter e ampliar o público. De qualquer forma, com a torcida de que dispõe, o Botafogo não poderia aceitar nada menos do que atrair a cada jogo no Engenhão um público de pelo menos dois terços da capacidade do estádio, ou 32 mil pessoas.
    O mesmo raciocínio pode aplicar-se ao São Paulo, que tradicionalmente leva públicos reduzidos ao Morumbi, como também ao Santos e ao Vasco, quase sempre com a Vila Belmiro e São Januário vazios. De modo geral, a política de ingressos e de atração do público é bastante fraca no futebol brasileiro – os clubes confiam apenas no sucesso momentâneo de grandes equipes para encher suas praças de esporte.
    Grandes torcidas podem participação mais atuante e permanente se receberem vantagens adequadas, que reverterão em lucros diretos e sobretudo indiretos para os clubes. E a principal vantagem que a massa de torcedores brasileiros espera e leva em conta é a vantagem do preço do ingresso.
    Se colocasse todos os seus ingressos a R$ 5,00 em cada jogo, o Botafogo teria um faturamento bruto de bilheteria de até 235.000,00 sempre que entrasse em campo, sem contar valores cobrados pelos inúmeros camarotes do Engenhão e o imenso retorno que se poderia gerar com negócios de publicidade. Hoje sua média – graças a partidas de grande apelo, que são exceção – não passa de R$ 140.000,00. Os ingressos médios atuais variam de R$ 5,00 a R$ 35,00 e o setor Oeste vive às moscas.


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