Publicado por: Francisco Ortega C J | 24/janeiro/2008

O País do Futebol

Pois bem, os brasileiros estão acostumados a anunciar aos quatro ventos que este é o país do futebol, fato de muito orgulho para a grande maioria. Não é difícil escutarmos que aqui nascem craques todos os dias, e é assim que os torcedores brasileiros enxergam o futebol do Brasil. Por ironia e azar de todos, também é a forma que os dirigentes e profissionais do futebol o enxergam.

O que vemos são clubes investindo em seus departamentos de criação de talentos. A preocupação primordial dos dirigentes é revelar jogadores e vendê-los para times no exterior, e premidos pelas necessidades urgentes de caixa, o fazem cada vez mais cedo.

O negócio futebol se restringiu nas últimas décadas à atuação exercida séculos atrás pelos colonizadores, que vendiam seus escravos em troca de dinheiro. Isso é o que vemos hoje em dia, com a venda de meninos, novos talentos, para fora do país. O passe acabou e os clubes se apegam a isso para justificar sua penúria financeira, mas mesmo assim a mentalidade permanece e o comércio de atletas continua a ser o objetivo maior para auferir receita.

Percebemos assim que o país do futebol não sabe negociar um dos seus principais ativos, e que não temos qualquer tipo de posicionamento estratégico para alavancar os negócios futebolísticos, exceto pela exportação de seres humanos.

Admiramos eternamente o trabalho feito pelos americanos no basquetebol com a NBA, mas imaginemos se os americanos, apenas pelo fato de saber que em cada esquina de suas cidades nasce um novo Michael Jordan, resolvessem investir apenas no material humano, apostando em estruturas para a revelação de novos talentos e comercialização destes para fora do país; será que os EUA teriam o basquete tão forte esportiva e economicamente, com receitas milionárias e transmissão por TV para mais de 100 paises do mundo? A resposta parece óbvia.

Apostar apenas no talento e no resultado esportivo é uma visão tacanha e minúscula do negócio futebol. O Brasil infelizmente não acordou para o profissionalismo administrativo, apenas comercializa atletas pensando fazer negócios no esporte.

O mercado esportivo brasileiro está simplesmente intacto, aberto para ser explorado, e os dirigentes precisam urgentemente acordar para a realidade comercial do esporte. Aí, no entanto, reside a grande e inegável contradição, pois são estes mesmos dirigentes que mantém esse mercado fechado para profissionais e estudiosos dispostos a investir seus esforços na modernização e profissionalização da gestão esportiva.

Infelizmente ainda somos obrigados a ouvir comentários como o que tive o desprazer de escutar nesta semana com a Copa São Paulo, quando dirigentes e jornalistas afirmavam que um bom resultado nesta competição poderia salvar o clube financeiramente por todo o ano. Em outras palavras, o clube só ganhará dinheiro para sobreviver se tiver revelações e conseguir comercializá-las.


Responses

  1. Caro Francisco, realmente o que se observa é a criação de estruturas para a formação e comercialização de atestados liberatórios de atletas, e os clubes julgam esta ser a salvação, mas será que vai ser sempre assim ?

    Antes de me aprofundar nesta análise e pontuar seus riscos, comento um de seus parágrafos, aquele que fala da comercialização de escravos no período das colônias….creio que a similaridade da época colonial é outra, a de que vendemos matéria prima e compramos produto acabado de volta….algumas reflexões, quanto valia uma camisa do Kaká e do Robinho em seus clubes de origem ? Quanto valia o direito de transmitir uma partida do São Paulo ou Santos e quanto custa, em direitos de TV, um jogo do Milan AC ou Real Madrid? Certamente, os produtos vindos da metrópole, cercados de uma roupagem mercadológica robusta valem mais; apenas para materializar, é só ver quanto vale a multa rescisória destes dois atletas.

    Quanto à exportação de jogadores jovens; vejo como a sórdida junção dos interesses dos empresários em realizar lucros o quanto antes e dos clubes europeus em comprar mão-de-obra pelo menor valor, terminando de formá-la já na Europa e sonhando com os milhões advindos da segunda transferência.

    Os clubes que apostam nisso, correm alguns riscos a meu ver. No seu boletim de 18 de Janeiro, o Soccer Investor traz a repercussão na Inglaterra de uma proposta de Joseph Blatter e Michel Platini a respeito da introdução de cotas para estrangeiros nas ligas européias; a Liga Inglesa se manifesta contrária com muita energia com suas justificativas que não importam agora, no entanto, pode ser um sinal que essa “indústria” de venda de atletas, para simplificar, pode sofrer alguns sobressaltos por questões regulatórias.

    O mundo se aproxima de um período de desaceleração econômica e isso leva, normalmente, a que os países busquem proteger suas economias e mercados internos com medidas protecionistas e trabalhistas, o futebol não pode estar alheio a isso.

    Se isso acontecer, já que a FIFA deve insistir nisso, aqueles clubes que se preocupam apenas em revelar e repassar atletas terão, por um erro de julgamento estratégico violento, seca a fonte de Euros e dólares, ou a verão bem menos jorrante, é um risco.

    É preciso, como é proposta deste blog, olhar o negócio fora das quatro linhas, assim como é preciso ver o mundo de forma mais ampla e geral.

    Olá Robert,

    Temos aqui dois pontos distintos quanto à venda de jogadores, entendo mesmo ser a época da escravidão, pois vendemos os nossos atletas e não temos condições de recontratá-los até o fim de suas careiras, quanto aos produtos que estes acabam valorizando como (camisas, transmissão de jogos e etc) acaba sendo uma conseqüência natural pelo valor intrínseco destes atletas, ou seja, se estivessem hoje em dia nos seus clubes de origem, tais produtos, também estariam valorizados no mercado a cada ano. Assim podemos dizer que vendemos o “pé de obra” e compramos espelhinhos, sendo que fazemos espelhinhos, mas sem brilho.
    Quanto ao fechamento do mercado mundial através de imposição da FIFA é uma questão que vem tomando força a cada ano. Mas o cerne da questão é, mudança de postura dos dirigentes brasileiros e não aguardarmos uma imposição externa para melhora, até porque sem mudança de pensamento estamos cansados de ver ao longo do tempo, criam-se maneiras de modificá-las ou burlá-las.

    Abraço
    Francisco Ortega

  2. Ótimo post, Chico!
    O Brasil precisa se transformar no “país do futebol” de verdade. Infelizmente hoje somos apenas o fornecedor de matéria prima. Para essa mudança acontecer, as pessoas precisam entender que futebol é muito mais do que um jogo de 90 minutos. O pior é que está cheio de gente que faz curso de MKT esportivo para “cuidar da carreira” de jogador com o objetivo de ganhar em cima de uma eventual transferência. Para essas pessoas, a “realidade comercial” do futebol é vender o atleta rapidinho, antes mesmo de se firmar, a qualquer custo e pra qualquer mercado. Infelizmente a visão minúscula que você citou continua se espalhando.
    Abs, Marcos

    Legal Marcos,

    Como você bem colocou, é essa a grande preocupação, pois tem muita gente achando que esta se preparando para trabalhar no mercado do futebol, mas apenas esta pensando neste minúsculo horizonte.
    Temos que insistir neste ponto, pois como já comentei, hoje em dia os clubes não possuem ídolos, não se consegue trabalhar mercadologicamente produtos por falta de ídolos, quanto estaria valendo o campeonato Paulista com a presença de Robinho, kaká, Vagner Love, William, Diego, ………….

    Abraço
    Francisco Ortega

  3. Perfeito o artigo.
    Nosso maior problema, não só do esporte, mas da sociedade em geral, é que pensamos só no curto prazo.
    Investir dinheiro alto pra só ter retorno daqui a 10 anos? Impensável.
    Pior, pra ter retorno eu precisarei fazer um planejamento estratégico? trabalhar em cima de uma marca? Ahhh,vendo logo a “promessa”. Dá menos trabalho.
    O pior é que poucos percebem o mal que isso traz.
    Os clubes ingleses só contratam jogadores que tenham jogado por suas respectivas seleções. Aí você vê convocações das mais estapafúrdias de jogadores que nunca mais vestirão a camisa da seleção. Dos 20 jogadores que são convocados sempre encontramos umas 3 ou 4 bastante questionáveis sob o aspecto técnico. Só vamos entender quando a janela de transferências é aberta.
    Com isso cai a qualidade e a credibilidade do produto que deveria ser a nata do nosso futebol. A Seleção Nacional e, à reboque, da entidade que deveria zelar pelos clubes.
    Abraços,

    Olá Nico,
    Muito bem observado, você infelizmente tem toda a razão, no Brasil o mal começa de cima para baixo, ou seja, a CBF nas últimas gestões não tem demonstrado qualquer interesse em melhor o cenário do futebol.
    Abraço
    Francisco Ortega C J

  4. queria fazer uma pergunta…se um time de futebol representa uma cidade e a empresa de futebol nao paga os salarios dos jogadores posso entrar contra a cidade como co responsavel?ja q eu a represento no estadual?


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