Publicado por: Maurício Bardella | 23/janeiro/2008

Elefante branco

“Grandes estádios são elefantes brancos”. Ok, quem nunca ouviu essa frase? E vamos admitir, há um fundo de verdade nisso. Boa parte dos grandes estádios do Brasil foi custeada e erguida pelo poder público, obedecendo a objetivos políticos e com dimensões às vezes muito superiores ao potencial de consumo das cidades em que se localizavam.

Além disso, como bem percebemos observando a história administrativa de nosso país, verba para construir é uma coisa, e verba para manutenção e investimentos em melhorias é uma outra, muito diferente… Mesmo estádios privados, no entanto, muitas vezes não se mostraram viáveis economicamente, dependentes que sempre estiveram das arrecadações dos jogos de futebol para sua conservação.

Ouvi o conceito de “elefante branco” pessoalmente em uma aula de pós-graduação na ESPM ministrada por um conhecido ex-dirigente do São Paulo (por sinal, uma pessoa muito esclarecida e dedicada), que afirmava ser o Morumbi, a exemplo de qualquer outro estádio brasileiro, um empreendimento não-sustentável.

Esta opinião reforçava a voz corrente entre vários dirigentes são-paulinos, afirmando que seria inviável o rival Corinthians investir num estádio quando melhor seria continuar a jogar no Pacembu e, eventualmente, no Morumbi, mesmo pagando os aluguéis de praxe.

Hoje, no entanto, os tempos são outros e já existe uma grande tendência em ampliar as fontes de receita nos estádios, ao menos em dias de jogos. Observemos os dados retirados do balanço tricolor referente a 2006:

 SPFC –  Demonstração de Resultados 2006 
  R$ (Milhões)   R$ (Milhões)
Receitas de Estádio   Despesas de Estádio  
Camarotes e cativas 4.795 Pessoal (157)
Publicidade 2.327 Gerais (5.671)
Aluguéis 2.277  
Outras receitas 1.063  
Total-receitas de estádio 10.462 Total-despesas de estádio (5.828)
     
Receita Total 122.994 Despesa Total (120.507)
       
Rec. de estádio / rec. total 8,51% Desp. de estádio / desp. total 4,84%

Creio que os números falam por si. Observo, no entanto, que mais de 45% da receita obtida pelo estádio do Morumbi vem dos camarotes corporativos e das cadeiras cativas, sem relação com as características gerais do estádio quanto a conforto, acessibilidade, segurança e nível geral de serviços. Ainda assim é necessário admitir que o estádio do São Paulo F.C., com suas deficiências crônicas derivadas de um projeto elaborado há mais de cinqüenta anos, e mesmo estando muito longe de atingir um patamar aceitável qualitativamente para o público que o freqüenta, ainda é uma das principais referências no país (o paradoxo aqui é intencional…).

Mas elefante branco, definitivamente, o Morumbi não é, especialmente depois da descoberta relativamente recente do filão dos camarotes corporativos. Podemos apenas imaginar o quanto essa receita poderia ser maior se o estádio possuísse uma configuração arquitetônica que permitisse a instalação permanente de restaurantes e praças de alimentação, um bom estacionamento e espaços para realização de eventos como festas, reuniões de negócios, convenções, exposições e assim por diante, gerando tráfego de consumidores não apenas em dias de jogos. Enfim, configurado como arena multiuso o Morumbi teria uma participação ainda mais significativa no faturamento do clube, proporcionando uma melhor equalização das receitas auferidas e diminuindo a dependência das verbas de televisão e venda de atletas.

Isso seria possível dentro das restrições arquitetônicas impostas pelo projeto antigo do estádio? Quem tiver a oportunidade de obter algumas informações a respeito do projeto de reforma elaborado pelo arquiteto Rui Ohtake provavelmente acreditará que não. Mas isso é um assunto para um post futuro.


Responses

  1. Maurício,

    Parabéns pela exposição dos dados, sem dúvida esse é um dos assuntos mais interessantes para abordarmos: a geração de receitas dos estádios brasileiros.

    Somente acrescentando dados a sua análise, o SPFC em 2006 gerou com a bilheteria de seus jogos, R$ 18,5 milhões (apenas 28% proveniente da Série A), fazendo com que o Morumbi arrecadasse cerca de R$ 29 milhões para o clube, o maior valor gerado por um clube brasileiro com essa fonte de receita naquele ano.

    Um abraço.

    Amir

    Amir, obrigado por aprofundar a análise. Como você sabe o item “Arrecadação de jogos” é contabilizado como “Receita do Futebol Profissional e de Base”, e isso faz sentido na medida em que eventualmente o São Paulo pode mandar suas partidas em outras cidades ou outros estádios, embora isso seja tão raro que eu sequer me lembre de um exemplo para citar. Mas concordo que a arrecadação faz parte do que o clube aufere com seu estádio.

    Sem dúvida a bilheteria é uma fonte de receita fundamental e merece um destaque especial na análise de viabilidade econômica de uma nova arena, para que se possa determinar o pay back do investimento.

    Mauricio Bardella

  2. Maurício, em 2005 o São Paulo também obteve superavit no Morumbi. Todavia, o que levou a isso nos dois anos foi a presença do time na final da Libertadores, o que gerou rendas muito altas. Além disso, em 2006 houve uma boa alavancagem com um grande show de rock que deixou 1 milhão nos cofres.
    Em condições normais de pressão e temperatura, como em 2007, o estádio não terá números tão bonitos, infelizmente.
    Com as mudanças programadas, o bar temático, a consolidação dos camarotes, é provável que o estádio fique mais consistente como fonte de receita, no mínimo pagando-se. Mas, acredito, a grande diferença, ainda, e por mais um bom tempo, será ditada pela campanha do time na Libertadores.

    Emerson, obrigado por seu comentário. Creio que vc tem razão quanto à importância da Libertadores – e portanto da boa performance esportiva do time – no que se refere ao faturamento total do clube e conseqüentemente no superávit.
    Observe entretanto que o faturamento do estádio não inclui a arrecadação dos jogos. O Morumbi teve, em 2005, um superávit de 3,2 Milhões de reais (ante os 4,6 Milhões de 2006) e o faturamento do estádio – portanto, sem considerar as rendas dos jogos – aumentou de 7,8 Milhões para 10,5 Milhões. A receita com aluguéis de fato passou de 1,2 Milhões para 2,2 milhões em 2006, o que podemos considerar como um aumento de receita eventual com grande participação da realização de um grande show, mas a receita com camarotes corporativos também sofreu um aumento de mais de um milhão de reais (3,6 Milhões em 2005 e 4,8 Milhões em 2006), como decorrência da valorização desse espaços e da compreensão de que as receitas de estádio podem alcançar patamares cada vez maiores, dependendo, dentre outros fatores, da estrututa disponível.

    Mais uma vez obrigado e um abraço.

    Mauricio Bardella

  3. Maurício, o papo de que os estádios são “elefantes brancos” é uma tese antiga, que a exposição dos dados do SPFC no seu post leva ao fim de seu “prazo de validade”, embora o advento da Copa 2014 a tenha trazido de volta.

    Os estádios brasileiros, em sua maioria públicos, refletem que o esporte brasileiro, sobretudo o futebol, sempre tiveram um toque de funcionalismo ou de teoria marxista em sua administração pelo poder público, ou seja, do uso do esporte como plataforma política, como construção de um “panis et circensis” brasileiro, é a estória do “onde a arena vai mal, um time no nacional”. Futebol é visto como coisa pública, como uma obrigação do Estado em prover diversão para o “pobre”, para o qual, qualquer coisa em que se possa sentar ao invés de ficar de pé e qualquer coisa diferente de um buraco no chão de terra como banheiro já é o Nirvana, vivemos na época do Jeca Tatu ainda !!!!

    Quando o mencionado dirigente e professor diz o estádio ser um fardo para o clube, nada mais ele quer dizer que o clube participa desta política pública com seus próprios recursos, sem contrapartida aparente do Estado e essa é a “dor”.

    Outra coisa que evidencia o quanto o futebol serve, ou serviu o poder, é a intervenção da justiça quando um clube aumenta o preço dos seus ingressos ; alguns mais afoitos, tratam esses aumentos como “crime contra a economia popular” ao invés de deixar o mercado julgar pela pura e simples lei da oferta e procura, aula I de Economia I, pra quem estudou…

    Rompendo essa barreira da “coisa pública”, as administrações modernas tem que buscar em seus estádios um centro de receita, das mais diversificadas possíveis. Caso não tenham ou queiram um estádio novinho, devem considerar receitas extraordinárias à bilheteria dos jogos em seus business cases, diversificar e buscar outros públicos é fundamental para tornar viável um projeto de um novo estádio. Enquanto tratarmos o público como gado, seguiremos com as médias de público medíocres que temos.

    E cá entre nós, o SPFC dizer que é inviável ter outro estádio bom em São Paulo é pura proteção de market share.

    Caro Robert, eu não poderia concordar mais com suas palavras. Destaco especialmente sua observação a respeito das intervenções da justiça em relação aos aumentos de preços de ingressos, assumindo o papel de protetora do consumidor; infelizmente essas intervenções são bem recebidas por grande parte de nossa sociedade, influenciada pelo conceito de futebol como “patrimônio popular” e não como uma atividade empresarial cujo objetivo, naturalmente, é o lucro – ou ao menos o equilíbrio das contas para que seja possível a sobrevivência. Se existe uma correlação adequada entre os serviços oferecidos e os preços praticados cabe ao mercado julgar. Eu, em particular, já fiz meu julgamento há muito tempo e por essa razão tenho assistido à grande maioria dos jogos pelo pay-per-view.

    Noto no entanto que há pensamentos alternativos tomando corpo, ainda que timidamente, como no caso da área da Visa no estádio Palestra Itália, oferecendo melhores serviços e, naturalmente, preços maiores. Mas evidentemente que isso é muito pouco e os padrões adequados de conforto, higiene e segurança precisam ser oferecidos para todos os níveis de serviço que devem ser disponibilizados no estádio, com as diferentes classes de preço e respectivos públicos-alvo.

    Um grande abraço e obrigado pela colaboração enriquecedora.

    Mauricio Bardella


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