Publicado por: Amir Somoggi | 20/janeiro/2008

Experiências de consumo nos estádios ingleses

A recente publicação dos números financeiros do Manchester United na temporada 2006-07 e também o excelente resultado apresentado pelo Arsenal no mesmo período, demonstram como o futebol inglês conseguiu com a mudança em seu ambiente político e legal, principalmente em relação aos seus estádios, criar uma atmosfera de negócios única no mundo do futebol, graças a uma contínua melhora dos serviços oferecidos aos torcedores que freqüentam os jogos de seus clubes.

Nos últimos 15 anos, os clubes ingleses investiram mais de €3,2 bilhões em stadia facilities e suas receitas com seus estádios e arenas dobraram nesse período. Segundo dados publicados pela Premier League em uma pesquisa com torcedores que freqüentaram jogos de seus clubes na temporada 2006-07, cerca de 77% afirmaram que consomem dentro dos estádios. As oportunidades de consumo, descontado a compra do ingresso, apresentaram um ticket médio de €16 por torcedor, no gasto com apostas, refeições e bebidas, que representam 31% de tudo que é gerado com estádios pela Premier League, cerca de €200 milhões.

Além do consumo de catering nos jogos, uma outra receita cada vez mais representativa do gasto do torcedor inglês, é o consumo de produtos dos clubes na aquisição de réplicas da camisa oficial, outros uniformes e moda esportiva, agasalhos de treino e outros produtos como roupas em geral para adultos e crianças, conteúdos como DVD e publicações e outros produtos licenciados.

Manchester United
Na temporada 2006-07 o Manchester United obteve uma evolução em suas receitas de 27% em relação ao ano anterior e apresentou lucro antes dos impostos de €87 milhões e com esse desempenho financeiro figura na liderança em receitas e rentabilidade do futebol inglês, principalmente pelos seus negócios gerados com o estádio de Old Trafford. Os recursos provenientes dos jogos em casa dos Reds Devils atingiram €135 milhões, 44% do total gerado pelo clube e seu ticket médio foi €68 por torcedor, 18% superior ao ano anterior. Essa evolução foi ocasionada pelas receitas com season tickets e ingressos em dias de jogos, por suas áreas de hospitality e pelo alto consumo dentro do estádio com 100% de utilização. Nos últimos dez anos o investimento do clube em stadia facilities ultrapassou €360 milhões e suas receitas com o estádio cresceram mais de 120%.

Arsenal
Na temporada 2006-07 o Arsenal registrou uma evolução de 46% em seu faturamento em relação ao ano anterior. Esse resultado foi obtido principalmente pelo clube ter jogado 12 meses no Emirates Stadium, o que produziu uma evolução de 105% no faturamento com seu estádio, enquanto que o público total cresceu 54% em relação ao seu antigo estádio de Highbury. Os Gunners, a cada encontro em casa, geram €4,6 milhões por jogo, apresentando dessa forma um elevado ticket médio em dias de jogos de cerca de €77 por torcedor. Além do alto grau de ocupação do estádio, o clube londrino conseguiu obter um elevado ganho com o gasto do torcedor nos jogos, já que 900 mil itens de catering foram vendidos na última temporada e pelo oferecimento de serviços altamente qualificados no estádio para empresas e torcedores com alto poder de consumo nos premium seats e em mais de 300 eventos no novo estádio.

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Responses

  1. Amir, muito informativo seu post. Para iniciar a discussão, imagino que se possa dizer que o poder aquisitivo do público inglês é muito superior ao do brasileiro; pois eu penso que há uma proporcionalidade entre o poder aquisitivo e os preços cobrados. Mesmo para os ingleses não é barato freqëntar as arenas e consumir.

    A grande questão, me parece, é o tipo de público que é atraído aos jogos, um público com maior poder de consumo. Para que isso seja possível é necessário não apenas um nível de serviços (alimentação e bebidas, estacionamento, lugares marcados, etc.) muito superior ao que conhecemos, como fundamentalmente instalações físicas apropriadas, para dizer o mínimo. O nível de excelência das arenas está ligado intimamente à experiência de se assistir a uma partida de futebol, e é um elemento vital no “encantamento” do cliente/torcedor.

    É por esse motivo que vejo na reforma e, principalmente, na construção de novas arenas no Brasil um dos pontos nevrálgicos para a revolução que nosso futebol precisa.

    Certamente discutiremos muito sobre arenas nesse nosso blog.

    Maurício,

    Sem dúvida a realidade inglesa é absolutamente única no futebol global, nem mesmo países como Espanha, Itália, Alemanha ou França têm esse nível de qualificação de serviços nos estádios. Entretanto podemos aprender muito com essa realidade que foi construída ao longo de anos.

    Sem dúvida a perspectiva de construção de novas arenas e reformas de estádios pode ser utilizado para essa mudança no Brasil.

    Porém é necessário que além da discussão sobre a questão de infra-estrutura, os jogos contenham também um ingrediente mercadológico pouquíssimo utilizado pelos clubes brasileiros e de vital importância para nosso mercado, como apresentarei aqui no blog futuramente sobre projeções que tenho feito sobre as finanças dos clubes brasileiros com maiores receitas.

    Um abraço.

    Amir

  2. Amir, excelente texto, obrigado.

    A melhora da qualidade das instalações que recebem o torcedor/consumidor é uma das principais bandeiras,creio, de todos nós que resolvemos estudar o esporte, mais especificamente o futebol, de maneira estruturada. Nada mais natural, apenas estejamos prontos para ouvir algumas bobagens como resposta do tipo, o povo gosta de fila, de sentar no chão…e que nós, “burguesinhos” (como se fossemos!!), queremos é vida boa..dependendo de quem vem, a crítica é um elogio, certo ? Eu já ouvi umas coisas destas, mas vamos em frente.

    Trago algumas considerações que gostaria de dividir com os amigos e com os leitores do vosso blog.

    A melhora na qualidade dos estádios ingleses se deu por duas vertentes complementares entre si, a primeira foi a determinação governamental do relatório Taylor que criou a regra “all seated”, dentre outras medidas; outra vertente, foi o liberalismo econômico de Margaret Thatcher que, dentre outras medidas, classificou a relação entre clube/federação, futebol enfim, com seu público como uma relação consumidor/fornecedor qualquer. Para que os estádios fossem reformados ou construídos, houve uma renúncia fiscal do governo inglês dos tributos referentes às apostas no futebol de 3,5% por alguns anos.

    Os clubes, já com uma visão estratégica de crescimento diversificado, aproveitaram essa chance para construir verdadeiros centros de receita que são os estádios. Esta estória pode ser encontrada no livro do Giulianotti (Richard), A sociologia do futebol.

    Além das acomodações físicas, há de se investir em pessoas capacitadas para atender às demandas do público, em processos de compra simples, rápidos e fluidos além de serviços complementares, nisso os ingleses são realmente campeões ao passo que a negligência dos dirigentes brasileiros em relação à esta receita, anestesiados pelas receitas de TV e transferência de jogadores, faz com que a experiência de ir ao estádio seja cada vez mais sofrida.

    Nunca podemos esquecer que existem diferenças sociais entre a Europa e o Brasil, reconhecer isso, traz mais legitimidade às propostas, há de se fazer adaptações, mas isso não tira as lições que vem de lá. A grande lição, que vem dos ingleses, sem querer ser repetitivo, é a quebra da correlação positiva entre performance e público médio; Consegui provar que, após as medidas do relatório Taylor implantadas, o público médio do Everton FC se manteve em aproximados 95% de ocupação nos últimos 12 anos enquanto o clube ocupou posições de 4.o a 17.o.

    Enquanto isso no Brasil, por curva média, o público médio do Brasileiro cai desde 87, em primeira análise, seria pelo advento da televisão, porém, é a partir daí que se observa com mais clareza a deterioração da experiência de ir ao estádio motivada pela queda de qualidade destes, pelo agravamento do quadro social brasileiro e pela explosão de violência. Outra hipótese estatísticamente comprovada. A TV não chega a ser um “ladrão” de receita, se a experiência de ir ao estádio é boa, a TV não substititui, portanto, dirigentes, parem de reclamar, MEXAM-SE !!!

    Posso mostrar a vocês, amigos, este estudo, in loco, é só marcar uma noite no escritório de alguém ou na ESPM.

    Abraços a todos.

    Robert

    Robert,

    Obrigado pelo comentário que deixa claro como o futebol inglês soube utilizar o potencial gerado por uma nova Legislação e também regulamentação do negócio futebol no país, através de um novo modelo corporativo para a gestão dos clubes.

    Com relação ao seu exemplo sobre as médias de público e % de utilização do estádio crescerem, mesmo com um baixo desempenho do time em campo é um fenômeno que pode ser observado em muitos exemplos de clubes das principais Ligas da Europa.

    Os resultados mais expressivos dessa visão do estádio como alavancador dos negócios, pôde ser verificado em alguns clubes, com melhor estrutura como o caso do Arsenal, que fez com que suas receitas com jogos ampliassem seu ticket médio em um ritmo muito superior à evolução do público no estádio.

    Um abraço.

    Amir


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