Publicado por: Marcos Silveira | 18/janeiro/2008

Oportunismo barato (ou caro demais)

Fazia tempo que os times cariocas não apresentavam resultados tão positivos dentro de campo. No último Campeonato Brasileiro, os quatro clubes do Rio ficaram entre os 9 primeiros colocados, sendo dois deles (Flamengo e Fluminense) na zona de classificação para a Libertadores. E olha que o Flu já estava garantido pelo título da Copa do Brasil! Além disso, pela primeira vez na era dos pontos corridos, nenhuma equipe do estado correu risco real de rebaixamento.

A presença de dois clubes cariocas na principal competição sul-americana não acontecia desde 1985, quando Fluminense e Vasco foram eliminados na primeira fase. Vinte e duas edições depois, Flamengo e Fluminense prometem uma participação muito superior, já que ambos reforçaram os já qualificados elencos.

Outro sinal evidente do bom momento do futebol do Rio foi dado pela torcida do Flamengo, que produziu uma média de público pagante de quase 40 mil pessoas (39.221) no Brasileiro, combustível essencial na campanha de recuperação do time rubro-negro. A maior torcida do país voltou a fazer diferença e foi um dos pontos altos de 2007, que terminou com perspectivas de um 2008 ainda melhor.

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Esta semana, no entanto, o cenário de otimismo sofreu um revés. Quatro dias antes do início do Campeonato Carioca o torcedor ficou sabendo que vai pagar mais caro se quiser ver o time do coração no estádio. E não é “um pouquinho” mais caro não! Apesar de uma inflação anual inferior a 5%, os dirigentes anunciaram um reajuste de até 50% no preço dos ingressos. Além disso acabaram com a diferença de valor nos jogos de clubes grandes contra pequenos e clássicos, como ocorreu no ano passado com enorme sucesso.

Quando eu soube do aumento, pensei em algumas justificativas:

  1. Devem ter criado setores especiais, com lugares numerados e mais conforto para o torcedor.
  2. Estão oferecendo transporte e/ou estacionamento para a comodidade de quem comprar ingresso.
  3. O preço mais caro inclui um sanduíche e um refrigerante.

Obviamente que nenhuma das três possibilidades é verdadeira. A hipótese que infelizmente me parece mais provável é inaceitável: os dirigentes estão sendo gulosos e querem aproveitar a época das vacas gordas no futebol do Rio para lucrar um pouquinho mais. Gulosos, aliás, foi o termo escolhido com precisão pelo Lédio Carmona, num post sobre o mesmo tema do ótimo blog Jogo Aberto (que está indicado na lista ao lado).

O reajuste do preço dos ingressos só seria justificado por algum benefício que fosse oferecido ao torcedor-consumidor. Infelizmente os clubes (não só do Rio) teimam em não perceber a quantidade de clientes desperdiçada pela falta de um plano de marketing concreto e sustentável. Como já foi dito aqui mesmo neste blog, a ida ao estádio precisa se transformar numa experiência inesquecível, num entretenimento semelhante a uma peça de teatro ou a um show. Isso inclui investir em melhoria de serviço e conforto que, aí sim, justificariam um valor mais alto.

Não me parece ser o caso do Campeonato Carioca que começa neste fim de semana e tinha tudo para atrair bons públicos, aproveitando o momento dos clubes do Rio. Mas o oportunismo barato dos dirigentes pode sair caro demais…

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Responses

  1. Olá Marcos,

    Parabéns pela precisão da análise, o seu comentário representa exatamente a radical mudança que o mercado brasileiro terá que passar, principalmente em relação à questão do oferecimento do estádio como unidade de entretenimento para seus torcedores.

    O comentário do Fernando Galvão no Blog é o exemplo do que são as atividades de ócio e consumo em torno dos jogos dos clubes atualmente em muitos países do mundo.

    Um abraço.

    Amir

  2. O que só agora alguns clubes começam a perceber é que é possível atrair pessoas de vários níveis de poder econômico, proporcionando serviços diferenciados. São Paulo e Palmeiras, por exemplo, já criaram locais chamados VIPs para, oferecendo muito mais, cobrar muito mais. Pena que para os que só podem pagar menos, não se ofereça nada. Nem o essencial: banheiros limpos e cadeiras limpas.

    Olá Milton,
    Você lembrou muito bem as iniciativas de São Paulo e Palmeiras.
    Ainda não pude conferir pessoalmente, mas o setor vip do Palestra tem até lugar numerado.
    Parece pouco e deveria ser o mínimo, mas como ninguém faz vira um diferencial e tanto.
    O Botafogo, que agora tem um estádio novinho em folha, vai ter a chance de fazer algo semelhante.
    Sobre cadeiras e banheiros limpos, você foi perfeito! Pena que a maioria dos dirigentes não liga pra isso…
    Abs, Marcos

  3. Marcos,
    Excelente texto e colocações!
    Eu não me importaria em pagar mais pra ver meu time do coração com conforto e algumas facilidades (estacionamento, por exemplo).
    bjs,

    Pois é Silvana…
    E tem o outro lado: quantas vezes você deixou de ir ao estádio pela falta de segurança e comodidade?
    Bjos, Marcos

  4. E aí meu querido, realmente esse é um problema enorme que enfrentamos no Brasil e continuamos bem distantes da organização lá da Europa por exemplo, o torcedor que ama o clube é fiel e até toparia pagar mais, mas se fosse tratado melhor e tivesse diferenciais como estacionamento, segurança, comodidade, limpeza, alimentação…mas o que os cartolas vêem hoje em dia é isso mesmo que você falou, ingressos caros para se aproveitar dos momentos bons dos times. Tenho certeza que esse blog é um dos diferenciais que podem ser utilizados para que no futuro, nós possamos levar nossos filhos para ver um espetáculo nos estádios, não só pelo belo futebol e sim pelo evento, pela estrutura, com a expectativa de como você mesmo falou, ter uma experiência inesquecível em cada jogo!!!

    Abraços, Edu.

    Realmente estamos beeeem longe do ideal, Edu.
    Mas acredito que a situação dos estádios deve melhorar a médio prazo.
    Ou seja: a tempo de levarmos nossos filhos num espetáculo (espero!).
    Acredito que a primeira experiência bem sucedida nesta área vai ser copiada pelos outros.
    Continue prestigiando o blog!
    Abs, Marcos

  5. Grande Marcos,

    nao que eu queira ser do contra – pois isso nao e’ do meu feitio – mas sera’ q eu sou o unico que ouviu se dizer da ‘lei’ economica da oferta e procura (demanda)?

    Sem levar em conta a qualidade do produto ou servico, e’ natural que se a procura e’ grande o preco suba… Saber quanto ja e’ mais complicado. Mas pode ter certeza que se o torcedor nao comparecer o preco vai baixar novamente.

    Isso nao quer dizer que o produto nao deva ser melhorado. Ao se melhorar o produto ou servico a demanda tende a aumentar e portanto o preco tambem.

    Enfim o preco de alguma coisa pouco tem a ver com a sua qualidade, mas simplesmente com a demanda existe por essa coisa.

    Abs,
    o polemico!

    ps. parabens pelo site!

    Seja bem-vindo, “polêmico” João! ;-)
    E obrigado por prestigiar o blog!
    Lamento informar, mas dessa vez você não foi tão “do contra”…
    Eu não citei a lei da oferta e da procura porque acredito que seja óbvia até para os dirigentes mais amadores.
    Concordo que tudo seja uma questão da demanda, o que justificaria o aumento dos ingressos.
    O problema é que aparentemente o reajuste foi feito sem critério. Tanto que o Eduardo Paes (secretário de Turismo, Esporte e Lazer do Rio) reclamou dos preços abusivos e ameaçou não renovar o convênio com Flamengo e Fluminense para jogar no Maracanã com custo reduzido. Clique aqui para ler sobre isso.
    Continue polemizando!
    Abs, Marcos

  6. caro Mito,
    nao discordo nem condordo. muito pelo contrario.
    Mas atencao ao se deixar levar por depoimentos d politicos (como o tal eduardo paes – q nao sei quem e’ e nem quero saber): politico e’ populista e so quer saber de jogar para a galera.

    Muito bem lembrado, João.
    É muito comum as declarações de políticos terem fins políticos.
    Neste caso do Eduardo Paes, no entanto, mesmo que haja um caráter populista (que deve ser considerado) o aumento foi abusivo. O Bernardo Gleizer, do Lance/Rio, comentou no outro post sobre este assunto: “Acho um absurdo cobrar R$ 40 para um ingresso de arquibancada branca para um Fluminense x Duque de Caxias, por exemplo, ou Flamengo x Cardoso Moreira, jogos que ocorrem neste fim-de-semana”.
    Muito bom ter seus comentários críticos, pertinentes e “do contra”.
    A sua visão e experiência são muito importantes aqui no blog! ;-)
    Abs, Marcos

  7. Os clubes deveriam analisar a elasticidade-preço da demanda que mede a reação dos consumidores às mudanças no preço. Estas(estímulos) provocam alterações no comportamento de compra (resposta).
    Não creio que essa análise seja feita…

  8. falam se muito em pratica de esporte evidentimente e o melhor caminho pra nossa juventude fugir das drogas Mais e aquele que e sem duvida o maior incentivador o torcedor deveriam ter o minimo de respeito


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