Publicado por: Amir Somoggi | 15/janeiro/2008

Brasil: mercado exportador ou consumidor de futebol?

Atuo como professor e consultor de marketing e gestão no esporte e realizo há anos análises sobre as finanças dos clubes brasileiros e europeus e a aplicabilidade de um modelo de gestão corporativa em clubes de futebol no Brasil.

Desde 2000, com a acentuada ampliação das receitas dos grandes clubes europeus, o mercado brasileiro vem sofrendo com a saída prematura de seus maiores talentos, minimizando muito o potencial mercadológico de nosso futebol. A justificativa sempre está relacionada à necessidade de transferir seus atletas para o exterior para poder encerrar o ano no azul, ou porque o poderio econômico dos clubes do Velho Continente inviabiliza negociar possíveis renovações antecipadas de contratos com seus jogadores.

Sem dúvida é cada vez mais difícil comparar o ambiente de negócios de clubes como Real Madrid, Barcelona, Manchester United e Arsenal com os líderes em geração de receitas de nosso mercado de clubes como São Paulo, Internacional, Corinthians, Palmeiras e Flamengo. Entretanto é possível realizar diferentes comparações entre as receitas geradas pelos grandes clubes brasileiros e clubes de menor expressão da Europa.

Essas comparações demonstram que nossos clubes, mesmo com gigantesco potencial de novas receitas a explorar, têm perfeitas condições de figurar à frente de tradicionais clubes de Portugal, da Escócia e de outros mercados menos desenvolvidos. Se os clubes brasileiros adotarem nos próximos anos um amplo projeto de maximização de suas fontes de receitas poderão, caso desejem, fazer frente aos clubes europeus e manter seus talentos por mais tempo no mercado doméstico, fator indispensável para a construção de um modelo de negócio fundamentado no ciclo virtuoso de geração de receitas.  

Para confirmar essa possibilidade, fiz uma análise sobre o histórico recente das receitas geradas pelos grandes clubes portugueses Benfica, Porto e Sporting em comparação com os recursos gerados pelo São Paulo, clube com maior receita do futebol brasileiro em 2006.

comparativo-receitas-clubes2.jpg

O São Paulo em 2005 e 2006 com suas receitas de US$ 49 milhões e US$ 58 milhões, respectivamente, ficou à frente da geração de recursos do Sporting. Em relação aos dois principais clubes de Portugal, Porto e Benfica, o clube do Morumbi em 2006 apresentou uma diferença de US$ 16 milhões a menos que o Porto e US$ 25 milhões inferior ao Benfica. As demonstrações contábeis do São Paulo, referente ao exercício de 2007 ainda não foram publicadas, mas segundo informações do clube, as receitas do tricolor podem ter ultrapassado US$ 65 milhões em 2007. Caso esse dado se confirme, o clube terá gerado valores abaixo dos três clubes portugueses. Mesmo com a ampliação da diferença das receitas entre os clubes analisados, sem dúvida o São Paulo tem potencial para em poucos anos ultrapassar o atual líder em faturamento do mercado português, Benfica.

O São Paulo e os outros grandes clubes do Brasil têm condições de desenvolver profundamente os seus negócios e gerar receitas superiores a US$ 100 milhões ao ano, sem originar um único centavo com transferências de atletas. Para isso, é preciso estruturar um projeto estratégico de ampliação de suas fontes de receitas, convertendo torcedores em clientes através da exploração do conceito experiencial de seus jogos e de novos projetos de marketing para o incremento dos negócios atrelados a sua marca e suas diferentes plataformas de mídia. Com esse desenvolvimento da demanda doméstica de consumo de futebol no Brasil, os clubes poderão deixar de ser exportadores de matéria prima para se tornarem unidades geradoras de consumo, entretenimento e conteúdos, tanto para o mercado consumidor doméstico como para o mercado internacional.

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Responses

  1. Gostei muito de ver pela primeira vez uma análise de clubes europeus com um brasileiro num mesmo gráfico, isso demonstra que dá pra fazer muita coisa, bastam os clubes brasileiros começarem a pensar e trabalhar corretamente.

    Olá Suzi fico feliz que tenha gostado das análises, espero que você acompanhe nosso blog sempre e indique aos amigos. Um abraço Amir

  2. É uma honra para o Futebol & Negócio contar com a participação do Amir.
    A presença dele por aqui é certeza de sempre encontrar análises boas e inéditas.

  3. Concordo plenamente que os clubes brasileiros têm potêncial para segurar seus jogadores, impedindo que eles sejam transferidos para Portugal, Escócia, Turquia, Ucrânia, Rússia e afins.

    Mas acho difícil fazer este planejamento, quando colocamos na ponta do lápis quantos US$/ torcedor o clube consegue levantar.

    Não dá para esperar que um torcedor brasileiro gaste 80 reais por jogo. Como gastam os ingleses(no caso deles, 80 libras).

    Como fazer para ter este rendimento, cobrando um ingresso de 15 a 20 reais e com a pirataria que temos?

    Olá Vinicius,

    Você está certo em suas colocações quanto a dificuldade de comparação no poder de compra dos dois mercados. Entretanto os grandes clubes do Brasil têm condições de criar projetos concretos e rentáveis para a ampliação de seu ticket médio no estádio. No mercado europeu de futebol há uma oferta de serviços e produtos muito mais qualificados e muitas vezes a preços menores que no Brasil. Há jogos em grandes estádios da Europa que se consegue ainda pagar 15 -20 euros por exemplo, menos que uma numerada coberta em um de nossos estádios nos grandes centros. Há produtos oficiais como camisas de treino com preços próximo de 20 euros, por exemplo. Infelizmente o mercado brasileiro ainda não despertou para a realidade de qualquer bom negócio: oferta de produtos de qualidade, para diferentes segmentos, com preços justos e com seu grande diferencial possíveis experiências de consumo memoráveis.

  4. Amir. Parabéns pelos seus conhecimentos que vão além das 4 linhas e que, um dia espero, salvarão o futebol do Brasil de um futuro medíocre como mostram os números em que o Sporting de Portugal (clube 3 ou 4 de um país nível C do Futebol) é mais rentável que o SPFC (clube número 1 do Brasil – país nível AA do futebol mundial). É chegada a hora das cabeças pensantes – como as dos blogueiros deste canal – assumirem a gestão do nosso mercado da bola. Chega dos Euricos, Teixeiras, Onaireves, Dualibs, etc. O futebol precisa de gente que saiba promovê-lo no mesmo nível em que é praticado no nosso país – o país da bola.
    Serei um leitor assíduo desse canal. Felicidades!

    Olá Rodrigo, obrigado pela visita e fico feliz em saber que contaremos com sua participação e seus comentários. A idéia do blog é essa, apresentar análises realistas de como o futebol brasileiro pode se transformar em um dos principais mercados do futebol mundial fora das quatro linhas. Um abraço, Amir

  5. Amir, muito interessante esse trabalho. Tenho uma dúvida a respeito, mas antes dela há um caso concreto que é exemplar de tudo que você falou acima.

    (“Patamar europeu” – Olhar Crônico Esportivo – 06/11/2007)

    Os novos contratos de patrocínio da Nike para o Porto e da Reebock para o São Paulo mostram nosso potencial. O contrato do SP, considerando, é claro, o atual câmbio, é bem superior ao do clube português, o dobro, na verdade. E olhe que o Porto disputa regularmente a Champions League.

    Um problema, porém, nos números dos clubes europeus e dos brasileiros, é que os europeus não incluem as receitas de transferências de atletas nesses números. Elas compreendem o Matchday, Marketing/Promotion e TV. Já de nossa parte…
    Sem as receitas de transferências, nem o São Paulo se salva do vermelho.

    O caminho a percorrer é longo, mas não impossível.
    Melhorar o “ver o jogo” é fundamental para isso, por sinal, esse assunto já foi abordado aqui nesse blog.
    Licensing – mesmo com a pirataria, dá para gerar receitas.
    Segmentação – o Andrés Sanches, por exemplo, ouviu o Ferran Soriano e não entendeu patavina desse conceito aplicado ao futebol (minha opinião baseada no que li).
    E por aí vai…

    Muito bom ter esse canal para discussão desses tópicos.

    Olá Emerson, Tinha lido no seu blog a comparação entre as cotas de patrocínio do Porto e SPFC. Realmente você está certo quando fala que muitos clubes europeus não registram seus ganhos com a transferências de atletas como receitas. Esse não é o caso dos três portugueses, visto que nesse total apresentado no gráfico há também as receitas com transferências de seus jogadores, conforme publicado no Annual Report dos cluibes. Vale destacar que o São Paulo, embora um grande gerador de receitas com atestados liberatórios, gera muito mais recursos hoje com Bilheteria+Morumbi, TV e Marketing (que engloba patrocínios, publicidade e royalties). Os jogadores foram a sua 4ªfonte de receita, com cerca de 17,7% do total gerado pelo clube. O ideal é que esse percentual esteja abaixo de 10% e que o clube invista pesado em suas principais fontes de receitas operacionais. Obrigado pela mensagem e contamos com sua participação no Blog. Um abraço, Amir

  6. Legal essa matéria de voces comparando o são paulo com clubes da europa.O são paulo tem uma boa receita economica só falta contrar alguém que venha dar lucro em campo.
    Diego Souza,dudu cearence,Conca,Ibson e outos os caras só falam e não consegue trazer ninguém,tá na hora de mudar essas situação.
    fernandinho e jadson ex-atletico pr são uma boa opçao principalmente porque ja jogaram com Dagoberto e os tres são velozes

    Olá Rauene,

    Obrgado pelo comentário.

    Um abraço.

    Amir

  7. Amir, muito interessante esse trabalho. Gostaria de saber o que você sabe sobre o Spot Club Internacional ??? Tenho uma dúvida a respeito, do Flamengo como ele se mantem,se a anos não ganha nada .E suas dividas quem paga?

    obrigado!

    Olá Vivaldo,

    O Flamengo, como grande parte dos clubes brasileiros, tem grandes dívidas com órgãos públicos, que são atualizadas monetariamente. Com a Timemania a tendência é que essas dívidas se reduzam.(ou não, dependendo como a Loteria caminhar nos próximos anos).

    Outros débitos que o clube tem, ele acaba quitando com a venda dos atletas e antecipações de receitas futuras.

    O Flamengo tem tantas dificuldades financeiras quanto muitos outros clubes do Brasil, que utilizam as mesmas “ferramentas de gestão” para tentar equilibrar suas contas.

    Um abraço.

    Amir

  8. Amir Somoggi

    Muito interessante essa postagem.

    Sou formando de economia e estou muito interessado em fazer minha monografia sobre os clubes brasileiros em relação aos clubes europeus.
    Tenho vontade de relacionar a economia de cada país, o poder da moeda e os resultados em competiçoes e financeiros dos clubes.

    Se puderes me fornecer algumas fontes de pesquisa para conseguir valores de finanças tantos de clubes brasileiro quanto europeus.

    Obrigado

    Prezado William,

    Pesquise na Internet o Deloitte Football Money League, que você encontrará os dados refetentes às receitas dos grandes clubes europeus.

    Um abraço.

    Amir

  9. Creio que analisar o São Paulo em relação aos clubes Europeus e tirar conclusões sobre a viabilidade do futebol Brasileiro (clubes) e sobre o êxodo dos atletas é, de certa forma, precipitado. O São Paulo Futebol Clube e a cidade de SP vivem realidades completamente diferentes da grande maioria dos clubes e cidades do Brasil. Concordo que o São Paulo e os outros grandes clubes do Brasil têm condições de desenvolver profundamente os seus negócios. Contudo não creio que a análise feita (no texto apresentado) permita que tiremos quaisquer conclusões.


    Olá Luiz,

    Minha intenção foi somente mostrar que na conjuntura atual nossos clubes já têm um negócio que pode ser comparado a alguns mercados da Europa.

    Obviamente que a realidade do futebol brasileiro é outra, mesmo quando comparamos o SPFC com boa parte do futebol brasilerio, mas os 20 clubes com maiores receitas do Brasil, representam mais de 80% dos recursos gerados e esses estão com seus negócios absolutamente desvalorizados e sub-aproveitados e dependendo da venda de jogadores para gerar recursos e financiar sua atividade.

    Não podemos esperar que clubes pequenos resolvam essa falta de inovação na gestão de seus negócios, em minha opinião quem deve indicar o caminho são os grandes…

    Um abraço.

    Amir

  10. Acho que os Estádios brasileiros são maiores do que deveriam ser e com qualidade muito inferior do que deveriam ter. Banheiros sujos, comida ruim… e a lista segue. Só dá para ir se o time estiver ganhando.

    Luiz,

    Concordo com você, mas por exemplo gastaram R$ 350 milhões com o Engenhão e por que ele segue o mesmo princípio?

    Será que não é hora dos clubes compreenderem que é papel de cada um mudar esse cenário?

    Um abraço.

    Amir

  11. O Engenhão é uma obra política… Não foi feito para o Botafogo… Tem graves problemas de Estacionamento… Como muitas obras políticas… quanto mais grandiosa for a obra… melhor. Tanto pelo impacto quanto pelo valor a ser superfaturado.

    Olá Luiz,

    Sendo essa a justificativa o que esperar então da Copa do Mundo…

    Um abraço.

    Amir


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