Publicado por: Robert Alvarez Fernández | 5/abril/2010

Horários dos Jogos em São Paulo – Interesses e Desdobramentos

A Cidade de São Paulo, por meio de sua câmara de representantes, aprovou uma lei que limita o horário de término de espetáculos esportivos às 23h15min, era 23h00 no original, mas houve uma acomodação de quinze minutos. Após a aprovação, de forma incomum, houve audiência pública e tudo mais onde vários interessados manifestaram suas opiniões e defenderam seus interesses. A audiência teve pontos saudáveis e muitos pontos patéticos.

Alguns pontos não podem passar desapercebidos; a participação do diretor da Globo, Marcelo Campos Pinto, foi tão rasa quanto descarada. Seu prinicipal ponto é de que os jogos realizados às 21h50, 22h00 ou, na prática, depois da novela tem maior média de público; algo como sete mil contra dois mil e oitocentos pagantes. O que ele esconde neste seu ponto é que os jogos pós-novela são sempre de times grandes, ou seja, times de maior torcida que levam, naturalmente, mais gente aos estádios, isso ele omitiu. A pergunta que fica não vai além desta comparação, ela deveria ser : em um horário mais confortável para o público estes sete mil não poderiam ser mais? Não poderíamos ter quinze ou vinte mil pessoas em um Morumbi, Palestra Itália e Pacaembú? Certamente que sim; se vamos para as teorias mais fundamentais do marketing vemos que temos mercado potencial, temos mercado disponível porém o diminuímos com o qualificador horário do jogo. Pesquisa da Golden Goal chamada “É disso que o povo gosta” dá conta que uma grande parcela de torcedores tem no horário de jogo um fator de decisão de compra, e o horário tardio influencia sim. O argumento global é pobre e raso, só cola para quem não sabe fazer conta nem pesquisa de mercado.

Alguns outros discursos, como o do presidente da Federação Paulista, sinalizavam até a possibilidade de punição aos clubes paulistas, ameaças até de eiliminação da Libertadores; segundo especialistas não há base jurídica para tal, não vou me concentrar nessa seara, que domino pouco.

De tudo isso, o resultado até agora, é que a lei foi vetada pelo prefeito da cidade. A alegação é que o município não tem competência (autoridade, no caso; não é falta de conhecimento) para legislar nesta matéria. Saída jurídica simples para não ficar em má situação frente ao maior grupo de mídia do país, que já fez estragos na vida de muita gente que se meteu em seu caminho, gostemos de lembrar disso ou não.

Vereadores que ouvi hoje no rádio, vindo para o trabalho, levantavam a possibilidade de derrubar o veto; vejo isso como possível uma vez que até membros da base governista falaram abertamente nesta possibilidade. Aí a porca vai torcer o rabo pornograficamente.

Minha opinião pessoal é que o principal negócio do futebol é prover entretenimento in loco ao seu público. Este é o core business do futebol, complementado em seu cerne no prover um mecanismo de identificação e de pertencimento ao seu público, inserção social (não confundir com inclusão) pela associação do torcedor com a história dos clubes, seus símbolos, sua tradição, seus ídolos e por aí vai. A pobreza administrativa do futebol gerou um desvio de finalidade econômica que faz com que a aberração da venda de jogadores e as receitas de televisão sejam as predominantes; a televisão, sabedora disso, exerce seu poder de negociação a seu favor, não é um pecado fazer isso, pecado foi deixar isso acontecer sem perceber os riscos disso. Agora estão os clubes de calças na mão e o torcedor relegado à terceiro ou quarto plano. Esta posição minha não é nova, está refletida em vários textos que aqui já escrevi.

Outra posição minha, que também não é exatamente novidade, é minha contrariedade quanto à figura do Estado interventor. Não creio que o Estado deva intervir na economia pois ele, normalmente, é ineficiente, caro e corrupto. No entanto, nunca abri mão do Estado regulamentador, aquele que intervém, por meio de legislação, no sentido de harmonizar as relações econômicas no sentido de preservar o melhor interesse de todos, neste caso o que necessita de proteção é o torcedor. A cidade de São Paulo assim agiu, talvez não da melhor forma, mas é o que lhe cabe. Se o futebol não tem competência administrativa e mercadológica para cuidar de seu público, que alguém o faça.

Naturalmente mudar o horário dos jogos não alterará o quadro completamente; todos os serviços que vão desde a compra do ingresso até o fim do espetáculo precisam melhorar muito. Tais melhoras passam pelos estacionamentos, transporte público, segurança, bilheterias, banheiros, alimentação, acomodação, limpeza, cortesia dos pontos de contato com o torcedor e assim por diante; porém, mudar o horário dos jogos para algo mais civilizado é um começo.

Projetando um cenário que, depois do que ouvi, me parece possível : caso a Câmara derrube o veto e a Lei passe a valer teremos quartas e quintas feiras de futebol sem os times grandes de São Paulo na TV aberta; cidade esta que tem três dos cinco clubes de maior torcida do Brasil; com isso, os anunciantes vão minguar, as cotas de televisão tendem a cair; todos perdem, ganha o torcedor e ganha a cidade. Se desta ruptura nascer uma relação mais harmônica com o futebol, terá valido a pena a ruptura, que será temporária pois todos os modelos econômicos se ajustam, as pessoas também.

É pena que um problema de mercado e de estratégia (ou falta de) precise ser resolvido por meio de lei, mas por vezes essa intervenção é necessária. Vamos ver o que dá.

E o leitor, que pensa disso? Quem ganha essa queda de braço?

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Responses

  1. todos perdem, ganha o torcedor e ganha a cidade

    Paradoxo?

    ****
    Imensa frescura. Por mim, além de ter jogo todos os dias (segunda e sexta incluso), ainda não veria problema se metessem um jogo de madrugada.

    Tanta celeuma como se todos os jogos fossem às 22:00.
    Tem tanto jogo 19:30 e 20:30 para ir (e durante o ano, todos os times jogam nesse horário), mas os chatos que não tem o que fazer querem regular para que todos os jogos sejam antes desse horário.
    Isso sem contar jogos de final de semana, teoricamente, ideais para levar-se as crianças.

    Adeque-se os preços dos ingressos à oferta e procura e verão estádios cheios.

    Victor, grato pelo comentário. Em parte concordo com você mas realmente creio que a questão é menos simples. Pesquisas mostram que o horário do jogo afasta público sim, mesmo que poucos jogos sejam deste horário, os clubes mais populares acabam sendo impactados em sua receita matchday.

    Discordo que apenas o preço sirva para gerar demanda, afinal, se esta é a única possibilidade, é porque o produto é ruim.

    Abraços,

    Robert

  2. jogo 22h00 são ruins porque se chega tarde em casa e são ainda piores porque não existe transporte público decente depois de meia-noite… e pra resolver isso, são os vereadores que podem ajudar.

    André, obrigado pelo comentário. Concordo com você, é mais uma dificuldade que se impõe ao torcedor; os vereadores também podem ajudar a destinar mais recursos ao planejamento do transporte, não?

    Abraços,

    Robert

  3. Robert, concordo plenamente com a sua posição. Tenho acompanhado diariamente a campanha da Rádio Jovem Pan, que julgo um tanto exagerada e passional, mas ainda assim correta. Sem dúvida os jogos mais cedo atrairiam mais público sem a necessidade de qualquer esforço por parte do clube e isso representaria um acréscimo de receita. A Rede Globo pode e deverá protestar em um primeiro momento, o que deve inclusive ocasionar perda de receita aos clubes, mas o tempo adequará as coisas, inclusive abrindo a possibilidade para outros grupos de comunicação interessados entrarem na briga pelos direitos de transmissão. Dessa forma haverá aumento de receita nos estádios e o patamar atual de direitos de transmissão deverá ser retomado.
    Um abraço.

    Carlos, obrigado pelo comentário. Também creio que o tom da campanha da Pan está um pouco “populista” demais, o horário é só mais um dos problemas. O ajuste do modelo econômico não se dá sem dor, mas pode ser que seja preciso.

    Abraços,

    Robert

  4. Olá Robert, acho que se deve ter bom senso, não faz sentido no começo e no meio do campenato um jogo as 10 da noite, mas numa semifinal ou final, um jogo um pouco mais tarde até cabe, como excessão e não como regra.
    Mudando um pouco o foco, tenho ouvido comentários que aqui em SP não existe lugares para novas arenas, não concordo e coloquei isso no meu humilde blog (http://arenadotimao.wordpress.com/2010/04/01/arena-do-timao-na-regiao-da-av-do-estado-sera-que-alguem-pensou-nisto-antes/) como voce é um especialista nestes assunto, te pergunto:
    Será que estou certou ou errado????
    ABRAÇO

    Josué, obrigado pelo comentário. Acredito também não haver problema em um jogo por rodada ter horário deslocado, afinal, também se tem que ceder um pouco.

    Indo para o foco proposto : essa conversa de que não há espaço para novas arenas em SP é simplista demais, também não concordo. Arenas tem que caber no plano de negócio de um clube ou de quem quiser investir nela. Se um clube, por exemplo, é capaz de gerar receitas suficientes para pagar o investimento em tempo razoável com sua torcida e com suas propriedades de marketing não há problema algum em ter outras arenas na cidade; claro que haverá competição entre elas quando de um grande show, pela verba de camarotes e por aí vai, mas a concorrência é que dita o tom do mercado. Aí quem tem competência é que se estabelece, quem não tem chora ou fica alardeando factóides para manter sua “reserva de mercado”, que é o abrigo dos incompetentes.

    Abraços,

    Robert

  5. Robert,
    Não vejo o risco de os clubes de São Paulo não terem seus jogos transmitidos. É o maior mercado do Brasil. Se a Poderosa não der um jeito, perderá boa parte de seus anunciantes.
    Abraço.

    Pois é, também penso assim, mas a Poderosa também não quer mexer na grade, coisa de quem tem o maior poder de barganha, não?

    Abraços,

    Robert

  6. Tenho a impressão de que a TV Globo não quer que os jogos de futebol tenham grandes públicos. Para ela interessa que as pessoas fiquem em suas casas, assistindo o jornal, a novela, o programa do Jô, e todos os comerciais dos respectivos intervalos. Não interessa para ela que o sujeito vá ao estádio, pois a TV perderia a audiência desses torcedores. Não são muitos, mas um pacaembú cheio representa quase 1 ponto de aundiência.
    Além disso, quanto menos renda houver para os clubes, mais eles dependerão da verba da TV. Mantendo os clubes asfixiados, a TV garante que seus presidentes aceitem qualquer imposição que vier de cima.

  7. Olá!

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  8. Embora tardio, acho que ainda vale comentar. Acho a “dona” do futebol brasileiro totalmente intransigente. Seria muito mais inteligente e menos beligerante que nas 4ªs feiras, único dia com jogos transmitidos ao vivo pela TV aberta, ela, “dona do futebol” deveria inverter os horários de novela e futebol. O jogo começaria imediatamente após o seu principal jornal e a novela viria depois. Com certeza isto criaria um clima de calmaria em todos os sentidos, e acho que em pouco alteraria os índices de audiência. Ao contrário o “canal carioca” com o intúito de mostrar força, bate pé e não arreda de sua posição intransigente. Burrice total. Mais cedo ou mais tarde este horário ruim terá de ser alterado. Agora, o outro lado é que esta discussão só tomou corpo após a proibição dos tais “inúteis” repórteres de campo que até algumas décadas atrás acrescentavam alguma coisa. Hoje, são um bando a proferirem besteiras. Cada um querendo ser mais esperto do que o outro e embora a tecnologia tenha melhorado muito, continuam a embolarem-se em fiações dentro do gramado. Posto isto, a “horrível, velha e fruto da postura ditatorial dos tempos da ditadura” rádio Jovem pan am de São Paulo, sentindo-se prejudicada, abriu guerra contra os “donos” do futebol. Intermináveis discussões, ameaças a vereadores que se posicionassem contra, longos editoriais repetidos à exaustão… E tudo isto porque?… por um projeto que dormia no legislativo municipal que altera o horário do futebol na capital paulista em alguns poucos minutos. Se fosse sério mesmo o projeto, este horário proposto seria jamais além das 20,30 hs. Tudo isto não passou de uma birra de pessoas que tiveram seus “pitis” por causa de interesses contrariados. Pobre Jovem Pan. Age como uma ditadura: “se não estão conosco, são nossos inimigos” e o pior é que eles se “acham”. A mudança deste horário medonho se faz necessário e urgente. Porém com seriedade nas propostas e não tão somente por “birras”.

  9. Palhaçada o horário do jogo, mesmo com a redução esta muuito longe do ideal.

  10. A candidatura Morumbi-2014 era uma aberração, concebida para perpetuar o estádio sãopaulino (um desastre arquitetônico) como única opção na cidade de São Paulo para abrigar grandes eventos de futebol ou artísticos.

    Nos últimos três anos, o povo paulistano foi ENGANADO pelas atitudes protelatórias e dissimuladoras do SPFC e do comitê organizador paulistano, com a participação cúmplice (ingênua em alguns casos, dolosa em outros tanto) de grande parte da imprensa.

    Agora que essa FARSA GROTESCA chegou ao fim, não se pode aceitar que os seus protagonistas, candidamente, saiam de fininho, dizendo: “fiz o que pude”, “a decisão foi política”, “alguém, ou o Corinthians, que construa então o estádio da Copa”…

    NÃO.

    A desonestidade que, criminosamente, colocou em risco a própria participação da cidade de São Paulo na Copa de 2014 não pode ficar impune. Alguém vai ter que pagar por tudo isso.

  11. Essa vai ser uma briga que ainda vai dar muito o que falar. A rede Globo vai defender os seus interesses até o fim , mas o torcedor tem que ser colocado em primeiro plano. Não aguentamos mais jogos nesses horários.

  12. Olá!

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