Publicado por: Marcos Silveira | 16/dezembro/2009

A Vez do Leitor: Quando o planejamento dá errado

Infelizmente o Futebol & Negócio segue com poucas atualizações. Apenas o bravo professor Robert (a quem agradeço publicamente) continua alimentando o blog nos últimos tempos.

Mesmo assim o F&N ultrapassou 500 mil acessos no último fim de semana, uma marca considerável para um blog independente e tão segmentado. Números que não me permitem jogar a toalha, apesar da falta de tempo. Agradeço a cada pessoa que colaborou para esse resultado.

Hoje temos mais um quadro A Vez do Leitor. O post que você lê abaixo nos foi enviado pelo Felipe Demarqui. Recém-formado em Economia pela Unicamp, ele nos traz uma interessante reflexão:

Quando o planejamento dá errado

Por Felipe Demarqui*

O São Paulo Futebol Clube foi muito elogiado no meio de 2008 ao não vender um de seus principais jogadores, o volante Hernanes, para o mercado europeu, durante a janela de transferências. Foram recusadas propostas do CSKA e do Barcelona.

Risco calculado? SPFC segurou Hernanes e faturou tri do Brasileiro

Além do fato das propostas terem sido muito distantes da multa rescisória do jogador (especula-se que as ofertas giraram em torno dos €15 milhões, enquanto a multa era de € 25 milhões), os dirigentes são paulinos tinham outro argumento: a manutenção do jogador na equipe seria fundamental para que o time conquistasse seu tricampeonato brasileiro consecutivo e, consequentemente, a vaga na Copa Libertadores, torneio adorado pelos torcedores e muito rentável para os dirigentes.

A diretoria afirmava que a conquista do título geraria efeitos positivos (leia-se, maior faturamento) para o clube, fazendo com que o “buraco” deixado pela não venda do jogador fosse tapado. Além de fatores intrínsecos ao campeonato (premiação, maior arrecadação em jogos devido à disputa do título), a grande visibilidade obtida através dos meios de comunicação (TV, internet, jornais, blogs) faria com que o clube tivesse sua marca fortalecida, podendo explorar novos produtos de marketing em torno do feito inédito. Além disso, todos os jogadores do elenco (inclusive Hernanes) seriam valorizados para possíveis futuras negociações.

Eis que chega o final do campeonato, o São Paulo é campeão, lança as tradicionais camisas comemorativas e também o DVD Tri-Hexa, um dvd duplo, com imagens de bastidores do título de 2008 e todos os gols dos três campeonatos brasileiros consecutivos. A conquista não trouxe o aumento substancial de patrocínio esperado pelo clube, mas ajudou a aumentar o interesse de patrocinadores/parceiros na reforma do Morumbi para a Copa 2014. Em termos gerais, analisando o balancete de 2008 do São Paulo e comparando com o ano anterior, podemos destacar os seguintes números:

Futebol Profissional e de Base 2008 2007 % 2008/2007
Licenciamento e Franquias 6.001 5.174 15,98%
Arrecadação de Jogos 16.760 12.464 34,47%
Premiações em Campeonatos 1.966 1.650 19,15%

 

Números como esses fizeram a receita do clube (excluindo repasses de direitos federativos) aumentar 12,5% em 2008 (de R$70.320 mil para R$79.093 mil). Obviamente, seria ingenuidade creditar todo esse aumento apenas ao fato da conquista do campeonato brasileiro; ingenuidade também seria acreditar que todo o aumento da demanda por artigos do clube, resultante do título, cessou ao final de 2008 (não sendo assim computado nos números acima).

Sendo assim, é possível afirmar que o São Paulo foi bem sucedido na sua estratégia de manutenção de um dos principais jogadores da equipe. Mas, e quando a estratégia não sai exatamente de acordo com o esperado?

Manter Diego Souza não garantiu nem a Libertadores ao Palmeiras

É exatamente isso que o Palmeiras está vivenciando no momento. O clube e seu principal investidor, a Traffic, chegaram a um acordo, antes da janela de transferências, no qual os principais jogadores (principalmente Diego Souza, Cleiton Xavier e Pierre) não seriam vendidos para clubes estrangeiros, visando a manutenção do time (até então líder do campeonato e com grandes chances de título) em busca da conquista do Brasileiro 2009. Da mesma forma que o São Paulo em 2008, o clube alvi-verde apostava no título e na vaga para a Libertadores como formas de aumentar a visibilidade de sua marca e suas receitas.

Apesar de diversas propostas, o acordo foi mantido, e o time não sofreu nenhuma baixa considerável. Porém, por infortúnios do futebol, o Palmeiras começou a apresentar uma queda de rendimento tremenda, o time não se encontrava dentro de campo, o que acabou culminando na derrocada na tabela, na perda do título e, também, da vaga da Libertadores na última rodada. Diego Souza, apesar de um belo gol do meio de campo e de ter recebido o prêmio de “Craque do Campeonato”, apresentou na reta final do torneio um futebol bem abaixo do que vinha jogando; Cleiton Xavier e Pierre tiveram contusões e ficaram de fora de boa parte do final do Brasileiro. Assim, possivelmente, os olhos dos clubes europeus começam a desviar desses jogadores.

Da mesma forma que a conquista de um campeonato valoriza todos os jogadores do elenco, a derrota traz o efeito contrário. Ficam assim as perguntas:

  • Qual o impacto da não liberação dos atletas na receita do clube para 2009?
  • Será possível contornar a falta de visibilidade e dinheiro da Libertadores, jogando a Copa do Brasil?
  • Futuras negociações dos atletas citados serão tão volumosas como as apresentadas no meio do campeonato?

*O artigo acima foi enviado pelo leitor Felipe Demarqui, de São Paulo. Ele é economista formado pela Unicamp.

Quer escrever um post no Futebol & Negócio? Mande um e-mail para futebolnegocio@gmail.com.

E siga o administrador do F&N no Twitter: www.twitter.com/silveiramarcos.

About these ads

Responses

  1. Primeiro às perguntas:

    1. O impacto a olho nu é a perda de dinheiro pela não venda do produto quando ele estava valorizado. E agora, além de depreciado e com queda no valor. O lucro será bem menor. Não esquecendo, que o Palmeiras recebe uma porcentagem do lucro do jogador, que pertence a parceira.
    Sendo uma das principais receitas do clube (e de todos no país) o impacto é grande. Pois, nem todos serão vendidos.

    2. Com relação a premiação, o valor será baixo comparando a Libertadores. Já a arrecadação com bilheteria, o próprio Corinthians é exemplo de faturamento este ano. Mas não podemos esquecer que na Libertadores são jogados 7 jogos em casa -caso chegue a final-, enquanto a Copa do Brasil varia entre 7 a 5. Dois ou um jogo podem fazer faltas aos cofres.
    Já a visibilidade é perdida, pois, fica dependente de boas campanhas dos rivais na Libertadores. A TV dá preferência aos competidores do torneio sul-americano.

    3. Respondi um pouco na primeira. As negociações não terão o mesmo volume. Pois, o Palmeiras só ganha sobre o lucro da venda de certos jogadores (coincidentemente os mais votados pra sair). E este lucro não será tão alto hj como seria na janela do meio do ano (mesmo com a crise). A não ser que um Xeque ou bilionário russo/turco queira dar muito dinheiro.

    É isso, parabéns pela análise!

    Abs

  2. O texto aborda com muita clareza os episódios distintos vividos por São Paulo e Palmeiras, onde, apesar de terem sido adotadas as mesmas estratégias, os resultados foram diametralmente opostos. Dentro de qualquer planejamento estratégico, além do acompanhamento sistemático, há de se calcular todos os riscos envolvidos, de forma a reformulá-lo a tempo de se evitar o comprometimento do plano. No caso do Palmeiras, até pela “necessidade” de se ganhar um título, foram cometidas falhas ( contratação do Wagner Love, reajuste de apenas alguns atletas pertencentes à Traficc, premiação do Murici, etc,…)que impactaram negativamente no grupo, a ponto de “rachá-lo, e aí, sem uma imediata revisão do planejamento pela diretoria, todo planejamento ficou comprometido e o resultado não poderia ter sido outro.

  3. Ricardo, obrigado pela sua contribuição ao tema.

    Realmente, a não venda dos jogadores agora causa, economicamente falando, impactos inversíveis para o clube em termos de:

    a) Desvalorização do produto: esse é o ponto mais claro, como muito bem apontado por você

    b) Custo de Oportunidade: supondo que a numa negociação futura, os valores oferecidos pelos jogadores sejam os mesmos apresentados nessa janela de transferência de 2008; muitos poderiam argumentar que, então, o Palmeiras não foi prejudicado (visto que obteu o mesmo valor). Porém, caso tivesse recebido o dinheiro antes, poderia ter investido (seja em infra estrutura do clube, seja em novos jogadores para reforçar o elenco, seja financeiramente – na bolsa, por exemplo – obtendo assim outros lucros “extras”.

    Em relação à disparidade entre as competições (Libertadores x Copa do Brasil) também é claro ser impossível a comparação de premiação e visibilidade. Acredito que a questão do faturamento seja subjetiva: temos exemplos como Corinthians e Vasco em que as torcidas, efetivamente, apoiaram e lotaram os estádios na campanha da série B. Porém, será que a torcida palmeirense agirá da mesma forma? A torcida palmeirense parece ser mais crítica que as outras citadas e pode agir de forma contrária. É esperar para ver!!

  4. 1- de acordo
    2- idem e não tinha pensado no custo de oportunidade. Realmente, deixou de ganhar bastante dinheiro.

    3- Entendi oq vc quis dizer, há inúmeras possibilidades como os brasileiros (paulistas em si) serem eliminados cedo, o Palmeiras campeão ou vice versa. Falei superficialmente, pois o Corinthians foi um bom exemplo neste ponto – claro que atrelado ao bom planejamento pro time que deu certo- com bilheteria.
    Já a torcida do Palmeiras, ela comparece, isso eu posso afirmar. Mas se não chutarem ao gol até os 5 min, todo mundo reclama! Conheço bem as arquibancadas e numeradas do Palestra hahhaha
    E concordando pela ultima vez, é esperar pra ver.

    abs

  5. Esse Felipe não sabe de nada

    uahhahahaha

    Boa Felipe

    abs

  6. Felipe, parabéns pelo artigo! Está muito!

    Abs

    Tomás 01

  7. BOAAA PEREIRA!

    Muito bem questionado… parabéns pelo artigo!

    Abs

  8. A questão do planejamento no futebol na questão de compra e venda de jogadores é muito relativo e complicado para o Clube.
    O Inter por exemplo, vendeu o Nilmar e o Alex – estes dois jogadores não jogaram as finais da Copa do Brasil – e a torcida e parte da imprensa credita o vice do brasileiro na venda do Nilmar na metade do campeonato. A torcida não gostou da venda, mas o clubne precisava para não perder o jogador de graça em 2010. E hoje credita-se o vice do brasileiro à venda do Nilmar.
    No momento em que decisões sobre a venda ou não de um jogardor são analisados certos parâmetros naquele momento histórico que o Clube está vivenciando, não há como prever o futuro.
    O clube pode não vender um jogar valorizado e após o encerramento da janela ele pode se lesionar e ficar até 1 ano sem jogar futebol e quando voltar não apresentar o brilhante futebol que teve antes da lesão.
    Não hé um bola de cristal para os dirigentes se precaverem.
    O que o clube deve fazer é controlar as finanças e analisar estas no momento históriuco em que se encontra. Se o caixa está bom, não se vende jogador, se está começando a ficar comprometido há necesidade de fazer d inheiro e a forma mais rápida de fazer isso é vender um dos grandes jogadores do clube, mas se o clube estiver mal finaceiramente, não poderá negociar um bom valor.
    Então creio que o Planejamento do Futebol quanto à venda de jogadores deve ser feita de olho no financeiro do Clube.

  9. Gilberto, obrigado pela sua participação na discussão.

    Concordo com você em alguns pontos. Realmente a decisão de venda de um jogador por um clube é um fato totalmente incerto, que pode ou não dar certo (como exemplificado no texto). Também acredito que se o Palmeiras tivesse vendido os jogadores citados e tivesse terminado o Campeonato Brasileiro na colocação que terminou, a culpa teria sido da diretoria por ter permitido a saída dos atletas.

    Porém, tenho outra visão em relação ao fato da venda dos jogadores:

    Acredito que os clubes devem estruturar seu planejamento sem contar a venda de jogadores. O repasse de direitos federativos não deve servir de tapa buracos para os clubes brasileiros. Enquanto os clubes continuarem a apelar para esse mecanismo, continuaremos a vivenciar a saída (muitas vezes precoce) de jogadores e a falta de ídolos no futebol nacional.
    Dessa forma, o clube deve voltar seu planejamento para receitas perenes, que não dependam do humor/dinheiro dos grandes clubes estrangeiros.

    O texto aponta a necessidade de planejamento não só excluindo-se as receitas como repasses federativos, mas também mostrando que àquelas obtidas em dias de jogos (matchday) podem não ser tão “garantidas” como o ideal.

  10. Economista formado na Unicamp?
    Então está explicado o motivo para ele não escrever o artigo tendo em mente que o investimento no futebol envolve risco e incerteza.

  11. 23/12/2009 – 18h47

    Corinthians negocia maior patrocínio do futebol brasileiro

    Guilherme Costa
    Da Máquina do Esporte, em São Paulo

    O Flamengo fechou nesta semana um acordo com o grupo Hypermarcas, receberá R$ 28 milhões pelos espaços publicitários de sua camisa na próxima temporada e passou a ter o maior contrato de patrocínio do futebol brasileiro. No entanto, essa condição deve durar pouco. O Corinthians recebeu uma oferta da mesma empresa para amealhar quase R$ 10 milhões a mais do que os cariocas pelas mesmas propriedades, e agora trabalha com esse patamar como mínimo para 2010.

    Em 2009, o grupo Hypermarcas patrocinou Corinthians e Flamengo. A companhia pôs a marca Bozzano nas mangas das camisas dos dois clubes, e também usou o desodorante Avanço nas axilas dos jogadores do time alvinegro. Nesta semana, acertou um acordo de R$ 28 milhões para ficar com toda a camisa da equipe carioca em 2010.

    A proposta ao Corinthians também engloba toda a camisa, e gira em torno de R$ 37,5 milhões. A Batavo, atual cotista máster do uniforme alvinegro, tem direito de preferência para peito e costas e deve se manifestar até o dia 10 de janeiro sobre a oferta da Hypermarcas. Internamente, a empresa já definiu que vai cobrir a proposta.

    Portanto, ainda que não tenha fechado nenhuma negociação, o Corinthians já tem em mãos duas possibilidades que superam o patrocínio do Flamengo em quase R$ 10 milhões. A expectativa da diretoria alvinegra é definir os patrocínios até a primeira semana de 2010.

    http://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2009/12/23/corinthians-negocia-maior-patrocinio-do-futebol-brasileiro.jhtm

  12. Coxa/DF,

    É óbvio que qualquer investimento, não apenas no futebol, envolve risco e incerteza. Porém, como já havia dito no comentário anterior ao seu, o objetivo desse artigo não é analisar se a diretoria do Palmeiras agiu de forma certa ou errada (dado a incerteza da decisão), mas sim trazer à discussão de que formas (e quais receitas buscar) o clube pode contornar situações inesperadas de seu planejamento, mostrando que não se pode “apostar todas as fichas” em apenas um cenário

  13. Felipe,

    Muito bom o seu post, parabens. Não tinha parado pra pensar antes nisso.

    Olha, eu acho que essa situação pode ser evitada contando com pessoas que conheçam o meio do futebol, principalmente ex jogadores, vivendo o dia-a-dia do clube. Pessoas assim são capazes de sentir alguma possibilidade de queda de rendimento de um time, e mais ainda, são capazes de evitar que alguns problemas gerem queda de desempenho dentro de campo.

    Eliminando-se o “risco de dar errado”, vc só tem o “risco de dar certo”, o que é a sua intenção como empreendedor (pelo menos os dirigentes de futebol deveriam pensar assim).

    Abraços e feliz Natal !


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 31 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: