Publicado por: Maurício Bardella | 9/março/2009

Autógrafos e pirataria

Saiu no jornal “O Estado de São Paulo” em matéria assinada por Jamil Chade, no dia 26 de fevereiro último. Segundo a reportagem, Sir Alex Ferguson, treinador do Manchester United, assinou comunicado em que proíbe seus jogadores de conceder autógrafos aos admiradores.

 

Apoiado pela direção do clube inglês, o treinador explicou essa proibição alegando que uma verdadeira “indústria de autógrafos” se estabeleceu no mundo; trata-se, segundo ele, de um mercado explorado por oportunistas que vendem objetos autografados em sites da internet, especialmente leilões eletrônicos.

 

Não se trata portanto de apenas proibir que os atletas assinem camisas do clube, mas quaisquer objetos que possam ser comercializados, como bolas, bonés e assim por diante.

 

Ainda segundo a matéria do Estadão, no site do eBay podem-se encontrar mais de quinze mil itens assinados por jogadores. Uma camisa do Manchester autografada por David Beckham chega a custar mais de mil reais. Estima-se que o mercado de artigos assinados por esportistas movimente US$ 4 bilhões anuais.

 

Pelé presenteia a rainha da Suécia com uma bola autografada; em qualquer circunstância, a assinatura do ídolo agrega valor ao objeto

Pelé presenteia a rainha da Suécia com uma bola autografada; em qualquer circunstância, a assinatura do ídolo agrega valor ao objeto

 

 

Fiz uma rápida busca no site Mercado Livre e encontrei quase setenta camisas de clubes autografadas. O item mais caro era uma camisa do Vasco da Gama de 1977, assinada pelos jogadores da época, pela qual se pediam R$ 1.250,00.

 

Creio que há algumas reflexões a fazer sobre esse assunto, e que partem do conceito pelo qual se define a venda dos itens autografados.

 

A reportagem do jornal paulistano traz o título “Contra a pirataria”. Foi especialmente essa manchete que me levou a questionar se essa prática pode ser considerada, de fato, pirataria, e se a restrição tem legitimidade se baseada nesse conceito. Confesso que ainda tenho dúvidas, porque afinal não se trata de falsificar itens ou produzir objetos sem licença dos clubes; o que fazem as pessoas que levam a leilão os objetos autografados pode ser visto como uma espécie de “venda de segunda-mão”, agregando aos objetos o valor das assinaturas, que são no final das contas o item mais importante na composição do preço. Os objetos em si, teóricamente, foram legitimamente adquiridos pelos seus proprietários, que podem fazer com eles o que bem entenderem – inclusive revendê-los.

 

Por outro lado, compreendo o posicionamento do Manchester em se opor a esse tipo de comércio, que não lhe traz qualquer resultado financeiro; afinal, a venda de itens autografados pode representar mais uma fonte de receitas para os clubes, desde que estes se disponham a comercializá-los. Assim, pode ser que os clubes tentem estabelecer no contrato com seus atletas que eles só podem autografar camisas destinadas a serem vendidas diretamente pelo clube ou por seus representantes licenciados.

 

Mas há mais um aspecto: se um jogador quiser autografar uma bola sem o distintivo do clube, por exemplo, será que o clube terá algum direito sobre uma eventual comercialização desse objeto? Parece-me a princípio que não…Será correto proibir, como fez o Manchester, que os atletas autografem quaisquer objetos? Ou será que nesse exemplo o único possível lesado seja o próprio jogador, e não o clube?

 

Há ainda o fato de esse tipo de restrição aos autógrafos significar um afastamento ainda maior entre os atletas e os torcedores; afinal, qual garoto em qualquer parte do mundo não sonha em conseguir um autógrafo de seu maior ídolo? Às vezes escrita em um pedaço simples de papel, essa assinatura tem o significado de uma recompensa, importante e significativa a ponto de definir a relação entre o torcedor e o esporte, ou o clube, pelo resto de sua vida.

 

Enfim, parece-me que essa questão ganha relevância internacionalmente pela forte transformação do esporte em uma indústria de fato. No Brasil esse tipo de preocupação provavelmente ainda está muito distante, mesmo porque há muitos outros aspectos da profissionalização da gestão e aumento de receitas que não foram totalmente compreendidos e sequer testados no nosso país. Os autógrafos dos jogadores, eu creio, não devem preocupar nossos cartolas por algum tempo, mas cedo ou tarde essa questão também será discutida por aqui.

 

E você, tem alguma opinião sobre esse assunto? Será que o Manchester está trilhando o caminho certo, ou será que o custo-benefício não compensará no longo prazo, já que pode haver um contato cada vez menor entre o público e seus ídolos, e talvez também entre torcedores e seus clubes?

 

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Responses

  1. Não concordo com a decisão do Manchester United. Entendo a indignação do clube com o grande comércio que foi criado em torno disso, mas penso que um ídolo autografando um fã é o símbolo mais clássico e bonito de interação entre a torcida e o time.

  2. Minha opinião é que seja ilegal a venda de produtos autografados ou ´no minimo é imoral. O individuo consegue la um autografo com um “astro” do futebol, depois ele resolve vender, ele está vendendo um autógrafo do jogador sem autorização, ta certo esse autografo não é registrado, mas mesmo assim acho uma grande sacanagem um jogador autografa e não ganha nada, mas o cara que conseguiu esse autografo consegue uma consierada quantia.
    Acho que essa proibição é muito radical, mas algo deve ser feito, tipo conscientizar os torcedores a não comprar esses produtos. Com essa proibição só dará mais valor aos autografos xistentes por ai, pois será raro um autografo de um idolo do clube.

  3. Acho que a questão dos produtos autografados que são vendidos posteriormente é um “mal necessário” para um clube.

    A proibição gera muito mais prejuízo à imagem do clube e de seus jogadores do que um possível aumento de receita nessa área.

    Para cada “mercenário-de-autógrafo” que existe, quantas crianças desejam apenas um contato e uma lembrança de seu ídolo?

    Além disso, se realmente for interesse do clube, é possível que sejam oficialmente comercializados esse tipo de produto com custo e qualidade mais atraentes que os que são oferecidos pela pseudo-pirataria.

  4. Vendo livro 45 raro e único no mundo do CRVG http://caldeirarepresentacoes.blogspot.com/


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