Publicado por: João Carlos Assumpção | 21/fevereiro/2009

Você e o Outro

Não vou retomar o assunto da confusão que envolveu torcedores corintianos, deixando 49 feridos no clássico do Morumbi, mas não posso de falar sobre ele, o torcedor, sem o qual o futebol não seria o esporte mais popular do mundo.Ele, torcedor, que há um bom tempo tem sido deixado de lado. E o grande problema é que parece que nos acostumamos com isso. Temos que viver dando um jeitinho nas coisas para escapar do jeitinho dos outros, que complicam o futebol e a sociedade em geral.

Não, não vou repetir a ladainha do desrespeito aos torcedores, que não conseguem comprar ingresso, raramente sentam nos assentos em que gostariam ou para os quais adquiriram a entrada, tem que dar um dinheirinho ao guardador de carro para não correr o risco de ver danificado seu veículo, vê espetáculos de baixa qualidade e assim por diante.

Prefiro lembrar do quanto é bom você assistir a um jogo ao lado de um torcedor rival. Poder brincar com o colega, tirar sarro quando seu time faz gol, aguentar gozação quando está perdendo… Sem o outro o futebol não tem graça. É essa rivalidade – sadia – que move o esporte. Não as brigas.

A rivalidade no futebol deve ficar apenas dentro do campo

A rivalidade no futebol deve ficar apenas dentro do campo

Uma das coisas que mais aprecio em Copas do Mundo é isso. O torcedor de um país poder assistir às partidas ao lado de torcedores do mundo todo, inclusive da equipe do país adversário.

Na Copa de 1994, nos Estados Unidos, eu e mais quatro amigos brasileiros ficamos muito amigos de um holandês, que estava em Dallas acompanhando sua seleção. Não tinha como ir ao jogo, nós estamos motorizados e demos carona a ele. Eu vi a partida da tribuna de imprensa – ossos do ofício -, mas os demais viram das numeradas, vibraram muito nos 3 x 2 do Brasil e saíram sambando do estádio. Brasileiros e holandeses juntos, numa imagem que, depois me contaram, fechou o Jornal Nacional. Esse é o espírito do futebol. Ficamos amigos do holandês e em 1996 tive a oportunidade de visitá-lo em Gouda, cidade onde morava.

Jogo de uma torcida só não tem graça. Com bom senso, é possível termos duas ou mais torcidas no estádio. Ou pelo menos deveria ser.

Na Copa de 2006, na Alemanha, vi a estreia do Brasil contra a Croácia, misturado com uma equipe da Globo, entre eles integrantes do Casseta & Planeta, ao lado de muitos croatas. Um deles estava exagerando. A cada erro da Seleção Brasileira virava-se para a gente e fazia gestos nos mandando… Os gestos agressivos continuaram e os gritos de “Argentina”, para provocar os brasileiros, também. Até que um dos integrantes do Casseta reagiu. Deu apenas um grito: “Sérvia!!!”. O croata ficou fora de si e partiu para a briga. Felizmente foi contido por seus companheiros, mas berrou: “Jamais repita isso!”. E o brasileiro respondeu: “Era só uma provocação, você estava fazendo gestos obscenos o tempo todo…” O croata, um pouco mais calmo, retrucou: “Uma coisa é provocar com gestos ou gritar Argentina, outra é gritar Sérvia. Perdi muitos amigos e parentes na Guerra.” A confusão acabou e os dois deram as mãos.

Foi então que Kaká fez 1 a 0, o croata se sentou e a turma do Casseta não se conteve. Começou a gritar: “Lindo, t…, bonito e gostosão”, homenageando o Kaká. Os brasileiros riram do refrão e festejaram. O croata, sem saber o que estavam falando, sentiu que a turma era alegre, escrachada e foi cumprimentá-la pelo gol marcado.

Futebol é isso. Ou deveria ser. Do jeito que está fica mais difícil apreciá-lo e o torcedor, com muito mais opções de lazer do que em outras épocas, às vezes acaba deixando de ir ao estádio e não vendo os jogos nem pela TV. Sinal de que não são apenas os dirigentes, empresários e políticos que devem se renovar. A TV também. Mas isso é assunto para um outro post…

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Responses

  1. Quem já teve experiências desse tipo sabe o quão divertidas elas são. No sábado de carnaval ano passado, Maracanã assisti Botafogo x Vasco com meus primos e uns amigos, botafoguenses e vascaínos. Como as torcidas são amigas, ficava tudo meio misturado ali. O Botafogo abriu 2 x 0 e depois o Vasco empatou e começou a provocação sadia. Quando o Botafogo fez o terceiro gol de pênalti aos 40 e tantos, não aguentei e provoquei todos os vascaínos.

    Depois fui beber em um bar na tijuca (seria bom se fosse no estádio, mas isso é coisa pro futuro) e voltar pra casa.

    Acho que uma das funções de espaços como este deva ser discutir soluções para esse problemas, a fim de que possasmos sempre desfrutar dessas experiências.

    Enfim, poderia ser sempre assim, mas…

    Abraços

  2. João, vc me fez lembrar de uma vez em que assisti a um Palmeiras X Corinthians, em 2007, no Morumbi, e na numerada “do” Corinthians ao lado de mais três amigos, eu e outro palmeirenses e os dois restantes corinthianos.

    Sem dúvida alguma foi a minha mais marcante ida a um estádio. Não pelo resultado (3×0 pro Palmeiras…hehehe), não pelo fato de ser o nosso primeiro Palmeiras X Corinthians, não pelos momentos de tensão nas ruas que presenciamos, não por termos ido escondidos dos nossos pais que, justamente, tinham razão em não deixar jovens de 16-17 anos irem sozinhos. E sim por assistir e brincar o jogo inteiro, compartilhando com os três a felicidade de assistir a um clássico desse porte e vendo outros amigos “rivais” no mesmo setor tirando sarro um dos outros.

    Espero que dia como esses cheguem muito em breve em nosso futebol. Pois, é muito bom ir a um estádio dessa maneira.

    Abraços

  3. Oi Gustavo, oi Ricardo, muito obrigado pelos comentários, eu penso como vocês dois. Talvez o grande problema seja cultural, No passado era possível misturar duas torcidas, atualmente, de fato, fica complicado. Mesmo chegar ao estádio vestindo camisa de clube pode ser complicado. Se você encontra algum vândalo de alguma organizada está arriscado a levar uma surra. Ou até um tiro. É uma pena. A saída passa pela educação. E infelizmente investimentos na educação em um país como o Brasil não é o forte, quando deveria ser prioridade absoluta.
    Abraços pra vocês e bom Carnaval, João Carlos

  4. João eu acho que a causa para esse problema gera uma excelente discusão.

    Eu acabei de chegar do “Simpatia é quase amor” bloco carnavalesco de ipanema. Posso ser míope, mas não vi uma confusão sequer, isso num bloco cheio, milhares d pessoas nas ruas e muitas latas de cerveja também. Por mais que aconteçam, elas figuram em um nível aceitável.

    Talvez a questão seja muito mais filosófica, do que educacional. Mas como disse é tema pra uma boa discussão com torcedores, sociólogos e pessoas do meio futebolístico.

    Abraços

  5. Oi Gustavo, acho que você tem razão. Também já participei de blocos no Rio sem problema nenhum. Mas repare que o mesmo não acontece, muitas vezes, na hora da apuração dos votos das escolas de samba. Talvez quando haja competição a história seja diferente. Só que ainda acho que é mais do que isso, mais do que a competição. Num bloco não há grupos rivais. Nas torcidas _seja de escola de samba, seja de clubes de futebol_ há. E também concordo que é uma discussão sociológica interessante… Abraços e boa segunda, João

  6. A intolerância gera a violência !

  7. Uma pesquisa sociológica eficiente nesse sentido pode gerar um Relatório Taylor brasileiro. Acho quase um sonho acontecer algo desse tipo aqui, onde as vezes a demagogia se sobrepõe a busca por soluções eficientes.

  8. Eu assisti a disputa de penaltys da Copa de 98 contra a Holanda, atrás do gol e cercado de holandeses e brasileiros.

    Tudo misturado.

    Diga-se que todos – brazucas e laranjas – se cumprimentaram antes dos penaltys começarem: “Parabéns, agora nos penaltys é loteria. Parabéns para a Holanda. Parabéns para o Brasil.” Momento bacana que eu não vou esquecer.

    Depois de um dos 10 minutos mais longos da minha vida…

    VAI QUE É TUA TAFFAREL!!!!

  9. Oi Afonso, eu também assisti a esse jogo, só que novamente no setor de imprensa. E me lembro que antes da partida, horas antes da partida, diga-se de passagem, holandeses e brasileiros ficavam fora do estádio brincando uns com os outros. Os gritos das torcidas europeias são sensacionais, mas a confraternização também. No futebol você tem que saber que ganhar e perder. Esse jogo também foi um dos mais emocionantes que vi.
    E em relação ao comentário do Gustavo, concordo com ele. Precisamos de um “Relatório Taylor Brasileiro” já!!! Ainda mais com a Copa de 2014 se aproximando. O tempo passa tão rápido… Alguém tem que se mexer. Mas duvido que seja a CBF…
    Abraços pra vocês dois, João Carlos


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