Em dois anos estaremos ansiosamente esperando pelo chute inicial da Copa do Mundo da África do Sul. Primeiro evento desse porte no continente africano, a preparação do país mais rico da região (com as ressalvas que esse título merece…) tem enfrentado, no entanto, uma série de dúvidas e questionamentos.
Para começar, há a grave situação social do África do Sul, cujo resultado mais imediato se percebe nos índices alarmantes de violência. Em Johannesburgo, nesses últimos dias, mais de vinte imigrantes, em sua maioria do Zimbábue – antiga Rodésia – foram assassinados em manifestações xenófobas que identificam nesses imigrantes uma das causas da escassez de trabalho. Só em abril mais de mil zimbabuanos por dia atravessaram a fronteira com a África do Sul, fugindo da repressão política do ditador Robert Mugabe e da incrível hiperinflação que desvaloriza o dinheiro local em 2% ao dia, ou mais de 100.000% ao ano!
O fato é que um entre cada quatro adultos da África do Sul não tem emprego - são 24,2% de desempregados, segundo os índices oficiais. A grande leva de imigrantes miseráveis à procura de subempregos tem provocado a ira dos habitantes locais que já convivem há tempos com a pobreza e que em grande parte sobrevivem em enormes favelas.
Nos dois últimos anos a África do Sul teve registrados 19 mil homicídios - cerca de 43 para cada 100.000 habitantes - e 52 mil estupros.
Enquanto isso, o governo local luta contra os atrasos nas obras e os estouros orçamentários. A grande maior parte das obras, incluindo os estádios, está sendo custeada com dinheiro público.
Um exemplo capaz de sintetizar os problemas enfrentados pela organização está na cidade de Durban. A cidade fará uma campanha para que os espectadores dirijam-se a pé ao estádio nos jogos da Copa, já que o transporte publico é e continuará sendo ineficiente. As obras do estádio, cujo custo inicial era de R$ 600 milhões, já tiveram seu orçamento revisto e os valores agora chegam a R$ 870 milhões.
Estádio de Durban: futurista e caro
E o pior: não há demanda local suficiente para o futebol após a realização da Copa, a ponto de se planejar a redução da capacidade do estádio após o torneio, passando dos 70.000 lugares disponíveis na Copa do Mundo para 54.000 após seu encerramento. Há na cidade uma moderna arena de rúgbi que não será aproveitada para a Copa do Mundo, segundo os organizadores devido ao fato da inclinação dos degraus de arquibancada não ser aprovada pela Fifa para esse tipo de evento.

Projeto do estádio de Porth Elizabeth
Em Port Elizabeth está sendo construído o estádio Nelson Mandela Bay, que deverá abrigar 48.000 espectadores. O custo inicial de R$ 335 milhões já saltou para R$ 567 milhões.
Ritmo das obras causa preocupação
A preocupação maior, no entanto, está no que fazer com a arena após a Copa, já que a cidade não tem um time na primeira divisão e o interesse pelo futebol é baixo. Os organizadores argumentam que será uma arena multiuso, voltada para receber shows. Como já dissemos em outros artigos aqui em nosso blog, esperar que uma arena consiga seu retorno financeiro com shows musicais de grande porte talvez seja viável em Londres ou Amstersdan, cidades que integram o circuito europeu de grandes shows, mas na África do Sul ou no Brasil me parece que a estrutura do negócio não pode ser exatamente essa. Na verdade não deve haver lá muito interesse no retorno financeiro da obra por se tratar de dinheiro público, a exemplo do que já vimos no Brasil em muitas ocasiões.
Apesar dos atrasos, acho muito pouco provável que algum estádio não esteja pronto em tempo. Como aconteceu no Pan do Rio de Janeiro, entretanto, os atrasos nas obras, as greves e a pressa terão como resultado um grande aumento dos custos do evento, e com as dificuldades orçamentárias que ocorrerão as obras de infra-estrutura poderão ser sacrificadas, já que não há alternativa para se economizar nas instalações esportivas.
Teremos, penso eu, um grande exemplo do que não fazer no Brasil. Se sou favorável ao Mundial como um fator alavancador de investimento público em infra-estrutura, a exemplo dos R$ 38 bilhões prometidos pela Ministra do Turismo nessa semana para a Copa 2014, sou absolutamente contrário ao dinheiro do governo em obras de estádios (mesmo em investimentos menores como a cessão de terreno público para a construção de estacionamento, como pleiteia o São Paulo F.C.), já que estes devem ser viáveis como negócio e, portanto, atraentes para investidores privados. Mas, infelizmente, já se pode antever que o dinheiro público estará presente também em obras de estádios no Brasil, ao menos no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, que ao que parece terão mesmo os estádios do Maracanã e do Mineirão reformados para o evento de 2014.
Nota: Os dados apresentados nesse texto, em parte, foram publicados inicialmente pela Folha de São Paulo de 18/05/2008, em reportagem do enviado especial Ricardo Perrone.
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